O boato é a gripe da internet, a gente precisa cair de vez em quando para ficar esperto

Ontem uma amiga também bastante envolvida com Web compartilhou por email a "notícia" de que a RIAA - a associação das gravadoras dos EUA - tinha pedido a pena de morte para três adolescentes do país por eles terem copiado música.

O link veio de uma fonte confiável - minha amiga estuda direito autoral na Web -, o site pareceu direitinho, li as primeiras linhas rapidamente e, sem pensar mais, repassei pelo Twitter. E na sequência várias pessoas retuitaram indignadas, umas até incrédulas, se perguntando como aquilo podia ser verdade. Até que um amigo se deu ao trabalho de ler o texto - o básico - e notar que um executivo da Sony não citaria Mel Brooks em uma declaração à imprensa.

Thomas Richardson, a Sony Music sales manager remarked, “I’ve been pushing for the RIAA to ‘work up a Number 6′ on those hoodlum kids for the longest time”, referring to a scene from the Mel Brooks flick Blazing Saddles where “we go a-ridin’ into town, a-whompin’ and a-whumpin’ every livin’ thing that moves within an inch of its life.” (Continue lendo.)

Simplesmente não lemos

Revendo o texto agora, vejo como tudo é exagero e forçação, é uma grande piada e só não entende quem não quer. Enfim, sem graça, informei o erro e pedi desculpas via Twitter - e recebi uma merecida gelada da galera pelo resto do dia.

Estou registrando essa experiência para dar um exemplo próprio de como a gente, estando tão envolvido nesse processo de repassar informação, para de pensar. Seria realmente ridículo e estúpido a RIAA pedir pena de morte por compartilhamento de música, seria o maior dos tiros no pé porque a sociedade, que já não simpatiza muito com o lado Agent Smith das corporações, teria um motivo - e que motivo - para extravasar seus sentimentos.

Passou batido. Eu não li direito, nem quem me enviou, nem as pessoas que retuitaram e outros também. Só um se manifestou.

Terrorismo informacional - #Amazonfail

Recentemente houve um caso ainda mais grave nos EUA, que documentamos no Adote um Parágrafo. Em suma: alguém enviou uma mensagem fake para o serviço de atendimento da Amazon.com se identificando como sendo o representante de uma organização conservadora e ameaçando boicotar a empresa se eles continuassem vendendo produtos relacionados à temática gay sem classificá-los como conteúdo pornográfico.

Essa espécie de atentado terrorista aconteceu justo num feriado, de modo que os pobres coitados que estavam de plantão na Amazon, assustados pela perspectiva de prejudicarem a empresa, caíram no conto e tiraram da busca direta livros sobre homossexualismo e assuntos afins. O passo seguinte dos golpistas foi deixar a notícia do ato discriminatório e preconceituoso da Amazon chegar à comunidade GLBT para que ela se espalhasse velozmente via Twitter com a hashtag #amazonfail provocando dandos sérios à imagem e à receita da maior varejista online do mundo.

Pessoas muito net-savvy caíram na história e emprestaram suas reputações a essa brincadeira de mau-gosto. O Clay Shirky foi um deles e aproveitou o episódio para reconhecer o escorregão e também discutir o assunto.

Manipulação ainda mais perigosa

Essa mensagem sobre a RIAA era explicitamente uma piada, era só ler e pensar. A da Amazon, apesar de ser ainda mais elaborada e ter tido consequências mais graves, também pode ser entendida como uma espécie de crítica à nossa ingenuidade. Talvez elas sirvam como uma espécie de vacina para a gente se precaver de casos de manipulação da opinião pública com objetivos políticos como este a seguir, descrito descrito no livro do Andrew Keen:

[...] Al Gore's Army of Penguins não é apenas mais um exemplo grosseiro da frivolidade do YouTube. Embora muitas das 120 mil pessoas que viram esse vídeo tenham, sem dúvida, imaginado que ele era a obra de algum amador que dirige um SUV e tem aversão à reciclagem, na realidade o Wall Street Journal descobriu que o verdadeiro autor dessa sátira neoconservadora é o DCI Group, uma firma de relações públicas e lobby de Washington D.C. cujos clientes incluem a Exxon Mobil. O vídeo nada mais é que uma interpretação tendenciosa de objetivo político, permitida e perpetuada pelo anonimato da web 2.0, disfarçada de arte independente. Em suma, uma grande mentira.

Sei lá, talvez a gente esteja tão emocionalmente envolvido nessa disputa pela libertação da informação e do conhecimento, tão incumbidos do papel de heróis e mártires da causa, que o senso crítico ocasionalmente fique em segundo plano. Agora, também não dá para jogar fora a internet por causa disso e nem se programar para detectar esse tipo de pegadinha daqui para frente - as próximas usarão estratégias novas. O melhor a fazer, na minha modesta opinião, é reconhecer esses tombos e considerá-los como uma espécie de gripe, um tipo de doença que vai sempre existir e que serve de lembrete para o sistema imunológico ficar atento.