Sobre antropologia e internet e assuntos relacionados; reciclando conversas

Na linha do nada se perde, tudo se recicla... No fim do ano passado respondi a algumas perguntas enviadas por jornalistas da revista TPM. Ainda nao recebi o link, mas logo deve chegar e incluirei. Como eu não tenho tido chance de escrever com mais frequencia sobre as coisas que venho vivendo e pensando e como, no caso dessas entrevistas, uma parte pequena das respostas é aproveitada, vou publicar aqui o conteúdo integral "a quem possa interessar".

As questoes sao sobre vários temas: valor de se estudar tecnologia como antropólogo, influencia da internet na sociedade, valor de gestos como o "curtir" no Facebook, popularidade do Instagram, estudo sobre engajamento e participaçao política pelas redes, bullying pela internet e se a internet aumenta a felicidade das pessoas. Ou seja, tem um pouco de tudo.

Por que decidiu estudar a tecnologia a partir do vies antropológico?

Por vários motivos. O principal deles é oferecer para a sociedade alternativas às noções que prevalecem hoje sobre a internet. Internet é quase instantaneamente relacionada a modernidade, ao futuro, ao novo; é associada a jovens, principalmente homens, explorando as últimas novidades do universo digital. Essa é uma noção importada: reflete a maneira como jovens universitários norte-americanos vêem e pensam a internet. E isso se torna um problema quando, por exemplo, nem nos damos ao trabalho de questionar análises que atribuem a Primavera Árabe ao uso desses equipamentos e serviços. Eu entendo que aceitar essa visão implica em ignorar o contexto e a história desses povos e ignorar também a capacidade que eles têm de interpretar e atribuir significado às coisas - à internet, por exemplo. O projeto em que eu estou envolvido hoje terá oito antropólogos trabalhando durante 15 meses em pequenas cidades em países como China, Índia, Turquia e Brasil para ver como cada um desses povos entende e dá significado à internet.

Retomando a pergunta inicial do seu livro Conectado, o que, se é possível resumir em poucas palavras, a internet faz com a gente?

Do ponto de vista técnico, a internet expande a possibilidade de grupos conversarem entre si. Até o surgimento da internet, ou a gente falava unilateralmente com audiências (como fazem jornais, rádios e TVs) ou a gente interagia com pessoas (como fazemos usando o telefone). A internet combina essas possibilidades e as disponibiliza pelo uso de equipamentes e serviços cada vez mais baratos e acessíveis. Esse barateamento constante transformou uma conversa entre 16 milhões de pessoas em 1995 em um imenso e caótico bate papo entre 2,4 bilhões de pessoa hoje. O problema surge quando, junto com isso, a gente cria uma aura mágica em torno da internet, que é chamada de tecno-utópica porque atribui à internet o poder de redimir a humanidade. "Jogue um pouquinho de internet no mundo e revoluções acontecerão." Essa perspectiva é importante, eu acho, não por ela mesma, mas pela maneira como ela nos encanta e nos mobiliza. Mas vale a pena perguntar: quais sao os impactos da internet na maneira como nós vivemos? Somos uma sociedade mais feliz por causa da internet?

Do ponto de vista antropológico, o que significa o gesto “curtir” do Facebook e do Instagram?

"Curtir" provavelmente significa coisas diferentes para grupos diferentes. Até onde eu sei, uma das coisas que irrita os usuários mais antigos da internet em relação à entrada da nova classe média na rede seria - da perspectiva dos primeiros - a falta de noção desses novos usuários em relação a curtir o que os outros publicam. Quando alguém denuncia a "orkutização" do Facebook, por exemplo, uma das reclamações que aparece faz referencia a esse ruído causado por ficar curtindo tudo e comentando tudo, principalmente por meio de comentários que seriam "sem significado" do tipo: kkkkkkkk! Já aí a gente vê como dentro do mesmo país, entre pessoas da mesma idade, como a mesma coisa é vista de maneiras muito diferentes. Uma das maneiras de se entender o "curtir" é como uma indicação de que se está reconhecendo o outro publicamente. Isso seria parecido com chegar no trabalho ou na escola e dizer oi para as pessoas. Você não quer iniciar uma conversa, mas pode ser considerado uma desatenção (no Brasil, pelo menos) entrar em um lugar desses sem falar com ninguém. Para algumas pessoas, portanto, curtir pode significar esse reconhecimento, esse "bom dia", essa demonstração de que esse outro existe e que é importante para mim demonstrar publicamente a importância dele ou dela como um amigo.

Como podemos interpretar um número de corações atrelado a uma foto pessoal?

Não entendi a pergunta.

A que atribui o sucesso do Instagram?

Em parte, ele é uma solução tecnológica elegante e prática para se tirar melhor proveito das câmeras relativamente simples que vem hoje com smartphones. Em parte, o sucesso desse item tem a ver com o fato de ele, no início, ter sido um item exclusivo. Para se tirar uma foto com Instagram a pessoa precisava ter um iPhone e saber operá-lo. A publicação de fotos demonstra para o grupo de pessoas em torno dessa pessoa que ela pode comprar esse equipamento e sabe usá-lo. Essa é uma maneira totalmente anti-romantica e racional de olhar para isso porque o aplicativo também serve para a pessoa dar vazão à criatividade. Mas, assim como aconteceu como o Facebook e com o Orkut, o Instagram também se promoveu ao oferecer um meio das pessoas se diferenciarem das outras. É por isso que, com a venda do Instagram para o Facebook, os usuários mais antigos se rebelaram contra mais uma "orkutização": é que eles estavam perdendo o privilégio de se mostrarem diferentes aos olhos dos outros.

As pessoas ficam mais bonitas com aqueles filtros todos. Acredita que isso colabore para a sua popularidade?

Provavelmente. Quem ia querer usar um aplicativo que fizesse as coisas ficarem mais feias? :-]

Qual o último estudo mais contundente que te mostrou o poder de engajamento das redes?

Estou justamente tentando fugir dessa perspectiva de ver a rede como aquilo que cataliza a ação de pessoas dispersas e transforma isso em poder. O debate sobre a internet está dividido entre as pessoas que acham que a internet marca o início de uma nova era (Clay Shirky, Chris Anderson e muitos outros) e as pessoas que acham que a internet emburrece as pessoas, atenta contra a privacidade, facilita a espionagem de estado e dilui o engajamento político criando "ativistas de poltrona" (Mozorov, Carr, etc.). Estou interessado em fugir dessa dicotomia e olhar, sem expectativas, como a internet vem sendo adotada e entendida por, por exemplo, mães filipinas que imigraram para Europa e Estados Unidos. Elas estão reinventando a materninade ao ter à disposição esses canais de comunicação para manter o contato com os filhos que elas deixaram em seu país. Talvez esse recorte temático nao seja tao romantico, mas pelo menos ele dá ao pesquisador a oportunidade de olhar para a internet com menos expectativas e aprender coisas novas sobre ela e sobre nós mesmos.

Entre o público infantil e adolescente, o bullying é uma das maiores provas de que a internet tem uma força social muito importante. E entre a geração que hoje tem 30 anos ou mais, como essa força se manifesta?

O bullying é um dos temas ressaltados pelos que abraçam a ideia da internet ruim, a internet que cria problemas para a sociedade. Em vez de olhar para a internet como causadora disso, podemos abrir um pouco a perspectiva e pensar em outros processos que acontecem paralelamente na sociedade como o aumento do divórcio, o aumento do número de mulheres trabalhando e o fato de as escolas terem uma relação de muita desconfiança com a internet. Talvez a internet esteja apenas tornando público o que sempre existiu. Talvez ela esteja catalizando uma reclamação desses meninos e meninas que convivem pouco com seus pais. Acho que é um tema interessante para ser pesquisado, se é que já não está, mas não como um fenomeno promovido pela internet, mas como um fenomeno do tempo e do lugar em que ele está acontecendo.

Em uma das suas respostas, você comentou que vale a pena perguntar se a internet faz a sociedade mais feliz. Ela faz a sociedade mais feliz? Acredita que vivemos a era dos elogios, especialmente na internet? Percebe um sintoma da prevalência de mensagens positivas no mundo virtual?

Será que a gente pode generalizar dessa maneira em relaçao a um item que vem sendo apropriado em tantos lugares diferentes. Para responder, é importante a gente definir de quem se está falando. Por exemplo: na China, cerca de 300 milhões de pessoas estão migrando para cidades, onde elas vivem marginalizadas. Qual é o impacto da internet na vida delas? E o caso das mães filipinas que se tornaram as babás e enfermeiras preferidas no mundo desenvolvido e que usam Facebook para tomar conta dos filhos que elas deixaram nas Filipinas com familiares. De que maneira a internet permite que essas mulheres continuem sendo mães apesar da distância. E esses filhos, será que eles prefeririam não ter as mães bisbilhotando e controlando as vidas deles por celular, email e redes sociais? Acompanhei uma apresentaçao da antropologa americana Mary Gray no encontro da Associação de Pesquisadores de Internet deste ano e ela comentou sobre um estudo sobre o uso da internet pela comunidade gay nos EUA que indicava que a vida desses pessoas - ao contrário do lugar que poderia se dizer - não melhorou; ficou mais complicada.

Eu entendo que voce gostaria de ter uma resposta simples: melhorou ou não? Mas o problema que eu estou levantando é que a internet existe de acordo com quem se apropria dela. O problema de pesquisas como a que voce citou é que elas geralmente sao feitas nos Estados Unidos, com um determinado segmento da sociedade (geralmente jovens) e o resultado é generalizado (talvez não pelos cientistas, mas pela propria dinamica da transmissao da informaçao hoje) como se isso valesse para qualquer um da mesma forma. Para ver se isso acontece de fato aqui, é preciso que a pesquisa aconteça e ver quais resultados aparecem.