Entrevista com Rene de Paula, evangelista da internet e criador do Radinho

Quem diz que trabalha com internet e não conhece o "Rene do Radinho"? É o cara que está em todas. Dá curso, faz palestra, viaja, mantém blog, grava podcasts, twita, fora o trabalho remunerado. E ele ainda lê e responde aproximadamente cem mensagens por dia só da lista famosa que ele criou e mantém desde 2001.

Esses dias eu publiquei um artigo sobre evangelistas. O Rene é a única pessoa que eu conheço no Brasil que tem esse título impresso no cartão de visitas. Para chegar lá, foram 12 anos trabalhando com internet, mais cinco no curso de engenharia e mais a graduação em rádio e tv.

Explorei basicamente os dois temas na nossa conversa: o percurso que ele trilhou combinando expertises para se projetar profissionalmente e a gênese e evolução do Radinho, uma lista histórica, responsável por aproximar muita gente atuando nessas novas carreiras.

Claro que o papo foi longo, trocamos 30 mensagens desde 3 de março. Por isso estou publicando uma versão compacta a seguir e o texto integral para quem quiser conhecer os detalhes da experiência do Rene.

Perguntei e ele concordou em continuar essa conversa na área de comentários. Afinal, especialmente neste caso, o meio é a mensagem ;-)

O que voce responde quando alguém te pergunta o que voce faz?

É engraçada essa história de falar sobre o que eu faço. Fácil não é, claro, mas difícil mesmo deve ser para os meus pais contarem pros amigos o que raios quer dizer alguém estudar Rádio e TV (ele conserta televisão?), trabalhar com internet (pagam pra ele navegar, é isso?) ou ser evangelista (ele virou padre?). Em suma: eles sofrem mais do que eu.

Hoje quando me perguntam o que faço eu explico: trabalho na Microsoft e meu papel é criar parcerias com quem faz web (agências, produtoras, designers, developers, deVigners...), divulgando nossa visão e nossas tecnologias. Acho que é um bom elevator pitch.

A essência do trabalho eu não sei que nome tem. Eu sei que tem a ver com fazer acontecer, com ser capaz de fazer com que pessoas e áreas e disciplinas conversem entre si e façam algo acontecer.

Como voce chega a empregos novos ou como eles chegam a voce?

Sou algo meio parteiro de projetos. Falando assim parece fácil, mas vá você vender esse peixe. Não é mole. A necessidade existe, o mercado precisa mais do que nunca de gente que converse, que crie pontes, que supere abismos. Mas essa posição transversal não cabe em organogramas.

Felizmente as relações que crio e criei foram todas proveitosas e fecundas, e disso deriva um networking amplo do qual eu cuido com zelo e carinho.

Mas não tenho idéia do que o futuro nos reserva. Como disse um pesquisador gringo que eu entrevistei, "esse front não tem trégua". Cada dia uma certeza dá de cara com provas em contrário, e dá-lhe repensar e entender e mapear e agir.

Você praticamente misturou duas formações para criar uma profissão nova. Já pensou sobre esse assunto?

Na ECA ninguém faz contas, todos os professores se formaram numa época em que assunto sério era política, economia, cultura.

Quando eu abandonei a Poli, a Faculdade de Engenharia da USP, achei que nunca mais iria precisar da minha formação engenheirística. Bem... precisei. Não das leis da termodinâmica nem dos tipos diferentes de rolamentos e mancais, mas sim de algo mais sutil: a facilidade de modelar problemas, a intuição meio mecanicista de saber se algo "funciona" ou não, mesmo que seja um business plan. Sem falar na maior facilidade com códigos, protocolos e tecnologias em geral.

Quando comecei na Hipermídia, não havia formação pra web aqui em Sampa, e tive que aprender o pouco que aprendi na unha, online, com amigos, colegas e tal.

Com o tempo fui assumindo um perfil meio singular, algo meio raro: alguém capaz de fazer com que áreas diversas e antípodas conversassem e colaborassem e produzissem, alguém capaz de falar a língua da casa grande e da senzala, alguém confortável na sala de estar e também na cozinha. Em muitos casos era isso que faltava: um integrador, um homem-middleware, um catalisador de reações colaborativas. Coisa de libriano, acho.

De onde veio a inspiração para criar o radinho?

Eu fiz parte de uma lista histórica, a panela, que congregou por um bom tempo os primeiros nomes em internet por aqui. O perfil da era mais publicitário, nem tanto por formação individual mas pela posição de cada um.

Na época éramos todos pioneiros solitários esperneando para ganhar espaço no seu próprio entorno, e era genial se sentir parte de algo maior e mais vibrante. [Aqui, um registro das trocas de mensagem.]

Na panela só se entrava sob convite, e havia direito de veto a novos membros. Ter sido aceito ali foi uma honra pra mim, um absoluto alien no mundo da propaganda, um novato completo.

A panela teve seus dias de glória mas, na minha humilde opinião, não resistiu à glória dos seus membros. Em pouco tempo egos começaram a conflitar, a agenda de cada um ficou mais obscura e a colaboração foi por água abaixo.

Eu contribuía muito, postava sem parar (como posto até hoje) e num dado momento, numa querela qualquer, desisti da panela... mas não do tesão por contribuir.

Em 2001 criei uma lista na Topica, chamei de radinho de pilha e convidei alguns amigos (uma dúzia, acho) a participar. A idéia original era, juro, simplesmente ter pra quem mandar o que eu descobria todo dia. O fiasco da panela me intrigava, então resolvi seguir o caminho oposto: nada de veto, nada de convite, nada de exclusão. O radinho teria entrada franca.

Qual é o recorte temático da lista?

Tecnologia, internet e publicidade sempre foram "on-topic" espontaneamente. Com o tempo fomos criando uma sensibilidade intuitiva para avisar aos assinantes quando se fosse falar de outros temas. Passamos a fazer isso colocando no assunto da mensagem a indicação de "off-topic".

Para evitar auto-promoção descarada e marketing de guerrilha, passamos a recomendar o uso do tag "jabá" no subject. Uma precaução ou outra para complementar o que o bom-senso deveria garantir.

Desde sempre, considerei como tabu temas como futebol, política e religião. Não levam a lugar nenhum.

A que voce atribui a vitalidade do radinho?

Modéstia à parte, a história do radinho me parece impensável se não fosse pela minha dedicação contínua e quase insana. Há anos a média de mensagens beira 100 por dia, e eu leio todas. Grande parte delas, aliás, são minhas. Eu participo da hora que acordo (seis) à hora em que me deito (onze e tanto).

Férias? Nunca. Tréguas? Nunca. 24/7. Apenas por uma fé teimosa em algo mágico, a colaboração.

Como a comunidade que habita o radinho vem evoluindo desde 2001?

No começo, éramos todos amigos ou colegas ou pelo menos do mesmo contexto, tudo era lindo. Difícil foi quando participar de comunidades virou arroz-com-feijão. Levas e levas de novos radianos com os perfis mais diversos, com os repertórios mais disparatados, com maturidades variando do sênior a pré-júnior.

Primeiro surgiram os filhotes de wikipedia, gente que sabia de tudo... via browser. Na seqüência apareceram os apoteóticos da web 2.0, blogueiros e apóstolos da colaboração redentora. Depois vieram os xiitas, a turma radical do software livre e similares. Pra piorar surgiu o marketing de guerrilha e a tal da "social media".

Muitos dos novos participantes eram gente jovem, estudantes, iniciantes, desempregados, etc, com mais tempo livre do que os outros e mais disposição para encarar aquele espaço como um chat contínuo. Resultado: muita gente senior, com coisas para compartilhar, passou a se retrair, a não se expor tanto diante de gente com pedras na mão, gente sem experiência nem responsabilidade.

Existe um percentual da lista que participa pelo menos uma vez por semana?

Curiosamente, mesmo que o número de radianos tenha passado de 150 pra 1300, o número médio de mensagens/mês continua beirando os mesmos 3000. Interessante, não?

Isso me leva a pensar que:

1) pessoas só conseguem interagir com um número X de mensagens/dia; se passar disso não faz diferença.

2) as pessoas que efetivamente interagem não são uma fração Y do total, mas sim o que é possível caber no "palco" dessa "cena" social; acho que não somos capazes de assimilar uma história com mais de N protagonistas.

Mesmo assim, nunca sei se vou ter o que precisa para gerenciar 1300 cabeças e corações. Basta duas horas sem checar a lista e já me deparo com um incêndio iminente. Não há trégua.

E como a sua função mudou para se adaptar ao crescimento e à diversidade de participantes?

Depois que a lista foi criada, não demorou muito para eu perceber que o radinho não era mais "meu", ou ao menos não era mais "a cara do pai". Então resolvi ser menos gerador de pautas e passar a ter um papel mais moderador mesmo, intervindo só quando necessário. Um papel reativo e protetor.

Começou a se configurar uma hegemonia de opinião muito excludente, intolerante e, o que é pior, massiva. O que fazer?

Criei um princípio: não importa o que é colocado, mas como é colocado. Pluralidade de opiniões sim, mas urbanidade sempre. Há maneiras e maneiras de se expressar, mas algumas maneiras matam conversas e outras fazem com que a conversa prossiga, se enriqueça e abra novos horizontes. Como, e não o quê passou a ser o crivo.

Com isso em mente decidi intervir de maneira mais kamikazi. Desencanei da pretensão de ser popular ou estar entre iguais: comecei a intervir mais duramente contra um ou outro gerador de cisânias, a me indispor contra gente autoritária ou leviana, a questionar em público atitudes imaturas, e tal.

Esse pearl harbour radiano chamuscou minha imagem, chocou alguns fãs, escorreguei feio e em público algumas vezes. Mas ao menos reverteu a notória decadência do radinho nesses tempos de invasões bárbaras.

Eu olho para o palco hoje e vejo uma pluralidade gigante de perfis conversando sem tensões maiores.

Você já pensou em desistir da lista?

Sim, duas vezes. Pela mesma razão, aliás: me deparar com comportamentos tão desconcertantemente destruidores e sórdidos que me fizeram questionar se valia a pena apostar em pessoas. Nos dois casos anunciei pra lista que iria fechar o boteco e inventar outra história, mas a reação foi tão emocionante e vívida que repensei e voltei atrás.

Como voce lida com o overload informativo?

Eu acordo cedo, durmo pouco e costumo usar bem meus tempos mortos (trânsito, filas, reuniões chatas, etc) para checar emails via celular ou ouvir podcasts (TWIT, BOL, Cranky Geeks, In Our Time da BBC4...) ou gravar meus próprios podcasts ou blogar sobre aquilo que encontro e descubro e invento. É uma das vantagens de não se gostar de futebol, cerveja ou games: sobra mais tempo :).

Você tem vontade de voltar a estudar? O que?

Sinto falta de me aprofundar em algo. Só não sei o quê. A academia (tanto a Academia quanto as de ginástica) me dão calafrios, e tampouco tenho o perfil pra fazer um MBA qualquer. Faz anos que me pergunto o que eu deveria fazer... Hoje penso em algo que envolva comunicação convergente, ou algo que misture tecnologia, comunicação, urbanismo, antropologia e que seja divertido. Algo me diz que vai demorar mais alguns anos pra achar :)

De qualquer maneira, me sinto realizado produzindo conteúdo, projetos, idéias, iniciativas... e isso há de entreter algum acadêmico um dia.




Comments

juliano carissimo, acabo de, como diria Sawamu o Demolidor, dar um salto no vácuo com joelhada: dei um fade out no radinho no Yahoo! e estreei um novo radinho no Ning.com.

por que? simples: listas de discussao por email nao tem escalabilidade. quanto mais crescem, mais se agravam seus problemas e a qualidade cai geometricamente. (acompanhe reflexoes a respeito aqui no http://www.usina.com/rodaeavisa/ )

em um ambiente como o Ning a participacao é por forum, o que certamente é menos "pratico" que emails mas garante mais qualidade de participacao, alem de inumeros outros beneficios: os radianos podem se organizar em grupos, podem criar suas redes de amigos, podem ter paginas de perfil, fotos, videos e blogs proprios... ou seja, tem muito mais ownership sobre o espaco todo.

eu convido voce a dar uma bela olhada: http://radinho.ning.com. nao foi fácil tomar essa atitude (e tomar tiro de todo lado), mas acho que foi um movimento bastante promissor. wish me luck ;)

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