História oral de vida: a técnica que eu aprendi com o professor Sebe nos anos 1990

um amigo me pediu para contar para ele sobre a técnica usada nos projetos de historia oral que eu participei junto com o professor José Carlos Sebe no departamento de historia da USP no começo dos anos 1990. Como isso pode interessar outras pessoas, compartilho-o a seguir. Quem tiver mais interesse no assunto pode ler o Guia Prático de História Oral.

eu nao participei de projetos de temática. a diferença é que as entrevistas tinham uma pauta / questionário sobre o assunto pesquisado. em projeto de HO de vida, as entrevistas nao tem roteiro definido. o entrevistado sabe o assunto do projeto e, ao longo da conversa, ele encaminha a sua narrativa nessa direçao. por exemplo, no livro sobre os kaiowaa, o assunto era o suicido dos adolescentes kaiowaa. os entrevistados sabiam disso e a entrevista seguia naturalmente para esse tema. a questão inicial feita ao entrevistado pede para a pessoa falar sobre suas primeiras lembranças, como era a casa em que vivia, etc. a partir daí, o entrevistados apenas ecoa aquilo que vai ouvindo.

ao longo da entrevista, o entrevistado menciona pessoas que tambem estao de alguma forma relacionadas ao assunto da pesquisa. essas pessoas vao constituindo a rede de informantes. essa é a rede de pessoas entrevistadas. se voce olhar o livro dos kaiowaa, vai ver que cada capitulo traz a historia de uma pessoa. esse grupo de entrevistados é o que estou chamando de rede.

outro ponto importante da técnica é a interferencia do pesquisador no trabalho. vou falar disso listando cada ponto:

1) o objetivo do entrevistador nao é revelar o que o entrevistado nao quer falar. nesse sentido, o processo é muito diferente do da entrevista jornalistica. o que o historiador quer é ter a versao da pessoa que conta, da maneira que essa pessoa quer que sua historia seja contada. voce nao confronta o entrevistado e nao tenta fazer com que ele fale alguma coisa que possa estar escondendo. tanto isso é importante que nada é publicado da entrevista da pessoa antes de ela ter lido (ou alguem lido a entrevista final para ela) e ela ter concordado. ela concorda oficialmente assinando um documento ou com uma gravaçao dela falando estar de acordo.

2) o historiador tem liberdade para interferir no texto. o processamento das entrevistas acontece em tres etapas: transcrição, textualizacao e transcriaçao. textualizacao é o trabalho de arrumar otexto: colocar as partes da historia contada em ordem, completar as frases deixadas pela metade, corrigir os problemas de linguagem. depois que isso está pronto, vem a transcriaçao, que é o momento em que o historiador acrescenta o que nao foi falado, mas foi dito no contexto da conversa e que ficou implicito. é um trabalho subjetivo, mas que é nao é ficçao porque a entrevista trabalhada deve ser aprovada pelo entrevistado antes de ser publicada.

3) o resultado do trabalho de historia oral permite que o leitor conheça o assunto que está sendo pesquisado pelo ponto de vista das diversas pessoas que constituiram a rede de informantes. as contradicoes aparecerao no confronto das historias.

4) a participacao do historiador no livro se encerra com a producao dos textos de abertura e encerramento. ele situa o leitor em relacao às motivacoes para fazer a pesquisa e tambem conta a historia da pesquisa - os problemas que enfrentou, as duvidas e como ele as resolveu.