Por que o Urso já não lê mais jornal?

Ontem eu estava almoçando com o Urso - depois de sua estréia no horário nobre - quando ele me confessou ter perdido o interesse por ler jornal. Ele diz que passa os olhos pelas notícias da Folha Online, depois do UOL e tem uma sensação de desinteresse.

O curioso é que ele falava disso com uma espécie de culpa, como se fosse uma falha dele ter perdido o hábito de acompanhar notícias. Há uns poucos anos, ele contou, era o mesmo estilo de notícias, os mesmos assuntos e ele lia contente.

Agora há pouco eu me lembrava dessa conversa e pensava como é ao mesmo tempo extraordinária e banal essa mudança da maneira como nos comunicamos, a ponto de não termos palavras para descrever o que está acontecendo e também a ponto de achar tudo muito natural, porque, de certa forma, esse novo tipo de comunicação tem mais a ver com a gente.

É extraordinário no sentido de que estou interligado com uma rede de pessoas dispersas pelo mundo, que eu não conheço necessariamente, mas que compartilham comigo alguns interesses a ponto de termos estabelecido vínculos, seja pelo Twitter ou acompanhando posts por RSS, por exemplo.

Veja uma situação típica. Antes de sair do trabalho, ontem, compartilhei pelo Twitter uma experiência recorrente nos últimos meses, de pedir uma Coca em bares e restaurantes e ouvir como resposta: - "Serve Pepsi?" A Ambev e a Coca Cola estão disputando nesse nivel, de uma usar sua linha de produtos para forçar o comércio a não oferecer um produto concorrente?

Essa informação me interessa, não como economista, mas como consumidor que quer beber uma Coca, não uma Pepsi, quando sai para almoçar ou jantar, ou, pelo menos, quer ter a chance de decidir. E o que aconteceu quando falei sobre isso pelo Twitter? Essa informação ecoou e várias pessoas me responderam dizendo terem tido experiências parecidas.

Voltando ao Urso, por que ele não lê mais jornal? Para começo de conversa, porque ele, como a maioria das pessoas, reserva uma quantidade de tempo para se informar. Vamos dizer que ele separe entre 30 minutos e uma hora diariamente para ler notícias. Ele precisa selecionar o que vai ler segundo aquilo que mais o interessa, diverte ou auxilia.

Esses dias me peguei observando um jornal televisivo tipo SPTV e pensando: - O que disso que eles estão falando tem a ver comigo? Raramente tem matérias sobre o meu bairro, os assuntos são para outro perfil de audiência - eu preferiria entrevistas com autores que lançam livros na semana, por exemplo -, que motivo eu tenho para consumir esse produto?

Antes eu tinha. Na verdade, antes, eu não tinha escolha. Os jornais nas bancas e os canais da TV eram a única ponte de contato entre os ambientes em que eu transito e a esfera pública onde a sociedade conversa e toma decisões. Agora isso não é mais verdade.

Eu dizia no começo desse texto que a mudança trazia pela internet é ao mesmo tempo extraordinária e comum. Ela é comum no sentido de que nesse ambiente, eu não sou consumidor passivo e submisso diante dos meios de comunicação. O que acontece agora é simétrico, eu faço parte do processo de transmissão e também de processamento da informação. Minhas experiências, comentários, observações contam.

O mundo interconectado é uma imensa praça pública onde as pessoas se aproximam segundo interesse e disponibilidade e trocam idéias simplesmente por fazerem parte da mesma comunidade.

Foi mais ou menos isso que eu disse ao Urso. Não estou questionando a capacidade do jornalista de detectar notícias e apurar informação, mas a eficiência do veículo de produzir conteúdo segmentado para competir com a diversidade de opções que a internet permite existir.

A vantagem do veículo era a escala, a empresa de notícias contrata profissionais para trabalharem continuamente produzindo notícias, mas isso só faz sentido comercialmente se milhares de pessoas consumirem essas notícias. Mas, de repente, essas pessoas estão se sentindo mais contempladas como "caçadoras-coletoras" de informação, vivendo dentro de suas redes e tribos, cultivando mais explicitamente as coisas que as interessam de fato.

Falei tudo isso para compartilhar com vocês um registro em vídeo que eu fiz recentemente. Encontrei um amigo em uma festa de aniversário e ele, que conhece o meu trabalho, leu meu livro, veio me contar, orgulhoso, que já não lia jornais, só blogs. E a explicação que eu deu e que quem quiser pode conferir na íntegra, começa com a Operação Satiagraha.

Meu amigo ficou profundamente envolvido com o assunto porque, como cidadão sem privilégios, ele achava que mais uma vez a Justiça resolveria a situação de maneira favorável ao mais poderoso. Isso não aconteceu, mas, ao mesmo tempo, ele não encontrava na imprensa o tipo de conteúdo opinativo, despido de restrições e pudores institucionais, que ele passou a ver em blogs. E mais, pelos blogs ele tinha acesso a debates nas áreas de comentários que permitiam a ele viver a experiência de troca, de participação.

Enfim, vendo as coisas dessa perspectiva, fico curioso para ver como as empresas de comunicação vão se transformar (se é que vão conseguir) para fazer frente a esses desafios.