Mais ou menos 500 pessoas

É um mundo pequeno. Você nem tem que viver muito para aprender uma coisa dessas sem que ninguém lhe ensine. Existe uma teoria sobre como no mundo inteiro só existem 500 pessoas reais (o elenco, por assim dizer; todas as outras pessoas do mundo, diz a teoria, são figurantes) e todas se conhecem. Na realidade, o mundo contém milhares e milhares de grupos de mais ou menos 500 pessoas que passarão a vida se encontrando, se evitando, se esbarrando numa improvável casa de chá de Vancouver. O processo é inevitável. Não é sequer coincidência. É apenas uma maneira como o mundo funciona, sem consideração pelos indivíduos ou pela adequação.

Li esse parágrafo hoje, quase no final do livro Os filhos de Anansi, de Neil Gainman. E no trabalho passei várias horas do dia "filtrando" a minha agenda de contatos, que venho acumulando há uns dez anos... Não sei exatamente quando essa lista começou a ser formada, foi junto com a minha conta de email no Yahoo. Fui exportando o arquivo com emails dos contatos de um computador para outro, de uma conta de email para outra, e mais ou menos automaticamente esse arquivo foi registrando o histórico das minhas interlocuções nesse período. Graças principalmente ao Thunderbird, cada vez que eu recebi e respondi um email nos últimos anos, o endereço dos destinatários ficou gravado na cada vez maior lista de contatos.

É uma lista grande. Percebo isso eventualmente, quando me dou ao trabalho de mandar emails para muitas pessoas. É um processo lento - leva, sei lá, uma hora ou mais. Pelo Thunderbird, olho nome por nome, endereço por endereço dessa lista, para que a mensagem chegue às pessoas certas, para que as pessoas que receberem a mensagem entenderem que, apesar daquele ser um envio coletivo, ele também é personalizado.

Estou falando dessas coisas todas, aparentemente sem relação, porque ontem dei início a um processo que, espero, seja gratificante, de unificação de caixa postal. O lançamento deste blog e do livro me estimularam a criar um email juliano arroba naozero.com.br. Faz todo sentido. Mas a maior parte dos meus contatos usa atualmente o email juliano arroba vivasp.com. Além desse, continuo mantendo o juliano_spyer arroba yahoo.com. E no meio da bagunça, também existe o juliano arroba leialivro.com.br e o jspyer arroba gmail.com, entre outros que eu não uso.

Ontem descobri - com a ajuda do André Avório - que eu poderia administrar os emails naozero.com.br pelo Gmail. A solução funciona e é fácil de ser configurada. Mas o propósito de ter essa conta é justamente começar a convidar os contatos para conhecer o livro Conectado e também para o lançamento em setembro. Como fazer isso quando o arquivo com os contatos está no Thunderbird que administra as mensagens @vivasp.com?... Não foi difícil. Exportei o arquivo do TB em formato CSV - que o Excel abre. Seguindo as instruções do Gmail, abri esse diretório para editá-lo manualmente para poder ser importado. Então, o processo simplificado consiste em separar as informações de cadastro, que chegam misturadas, em duas colunas: nome e email. É repetitivo mas simples de fazer.

Na medida em que fui abrindo linha por linha, comecei a apagar as repetições, organizar as informações (porque eu não sou o único a ter vários emails) e, com muito gosto, apagar e apagar os contatos que se acumularam ao longo dos anos. São nomes, para mim, tão familiares quanto os de uma página eventual de lista telefônica, pessoas com quem eu esbarrei em algum momento, por motivos profissionais ou sociais ou mesmo por coincidência, e que voltaram a não existir para mim depois disso.

Não sei quantos contatos eu deletei hoje, mas em um determinado momento tenho a impressão que apagava pelo menos dez para aproveitar um. Joguei fora muita coisa. Ficaram, basicamente, dois grupos, os das pessoas com quem, por algum motivo, eu mantive contato apesar do tempo, da falta de tempo ou da distância, e um grupo mais ou menos flutuante de pessoas com quem recentemente venho me relacionando.

Na medida em que eu ia avançando na lista, me lembrei do parágrafo do livro do Gainman, que eu reproduzi no começo deste post, lido hoje no trem a caminho do escritório. E pensei que seria, mesmo, uma coincidência interessante se a minha lista de contatos atualizada tivesse 500 pessoas ou algo próximo disso. Cheguei a me achar ridículo pensando que isso pudesse acontecer. Seria uma coincidência premetitada e múltipla. De todos os dias para ler esse parágrafo, ele apareceu justo hoje. De todos os dias para fazer faxina na caixa postal, em dez anos, fiz isso também hoje. São dois eventos soltos no tempo, mas que, caso se confirmasse o resultado, seria uma espécie de endosso da teoria citada por Gainman.

Resultado final de pessoas do meu círculo de contatos: 514.

PS. Avório, lembra daquela conversa sobre uma ferramenta para fundir blog e email, fechando a ponte entre a comunicação pública e a privada? Acho que esta informação dos 500 vai ao encontro disso. E acho que faz sentido pensar em contatos de duas categorias: temporário e estável, indicando esses dois perfis.




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