A fixação pelos sete dígitos

Tenho a impressão que o fascínio pelos sete dígitos, ou seja, por resultados que estejam pelo menos na casa do milhão, tenha aparecido em meados dos anos 90, quando a internet se tornou a mina de ouro do momento e profissionais de mídia tradicional tiveram que inventar maneiras de vender resultados. É na TV e no rádio que se fala de milhares de espectadores, mas a internet é diferente. Acho que pouca gente sabe de fato como interpretar resultados estatísticos e junto com isso os profissionais que têm acesso a esses dados manipulam a informação em benefício de seus interesses. É uma maneira científica ou pseudo-científica de se mentir, impressionar incorretamente.

Esses dias ouvi um profissional de mídia dizer que em seu trabalho continuamente um determinado resultado de audiência era multiplicado por dez - no mínimo dez - para o resultado não parecer vergonhoso. Há uns anos, o caderno Link fez uma reportagem sobre o Leia Livro, projeto que eu desenvolvi para a Secretaria de Estado da Cultura em 2003. A matéria foi elogiosa, mas terminava dizendo que: "Até agora, no entanto, a página não se tornou muito popular. Embora o número de visitas venha crescendo, ele ainda gira em torno de 350 por dia. 'Nunca aconteceu de ficarmos sem resenhas para o rádio, porém, adoraria ter uma variedade maior de textos para não ter de escolher sempre os mesmos usuários', lamenta Spyer." [For the records, eu nunca disse que me lamentava, mas deveria parecer um lamento porque afinal o que são 350 visitas por dia? O que quer dizer 350? O que essas pessoas fazem quando entram no site? Qual é a relação delas entre si?]

Na StarMedia, quem gerava tráfego era uma pequena empresa espanhola chamada Latinred, que tinha um produto de chat muito bom, simples de usar, e que era ponto de encontro para falantes de espanhol de todos os pontos do mundo. Na hora de divulgar os resultados, a StarMedia mostrava o número consolidado, sem deixar claro mas dando a entender que a maioria dos acessos vinham do portal StarMedia. Isso servia a investidores internacionais imaginarem que a SM havia se tornado um destino preferencial desses usuários e para anunciantes que preferiam comprar banners em áreas de conteúdo como canais de notícia e evitavam espaços comunitários como o LatinRed. A contagem era científica mas a apresentação era literária, cada palavra medida para esconder e disfarsar informações negativas.

Tenho como mantra que uma comunidade de sucesso é aquela que produz conteúdo a ponto de se manter atualizada. O Via São Paulo é assim: já tentei desativar o site e quase sofri um "golpe de estado" dos participantes, que consideram o projeto mais deles do que meu - com razão. Mas uma vez, eu disse a um publicitário que o site tinha 50 participantes assíduos e ele imediatamente perdeu o interesse pelo projeto. Se eu tivesse dado o número de hits do site, que deve estar na casa das centenas de milhares, talvez a conversa tivesse ido para frente. Eu poderia inclusive ter dito algo como "no último ano, tivemos aproximadamente 5 milhões de hits e aproximadamente 100 mil visitantes únicos. Ele provavelmente reteria o '5 milhões' e apagaria o dado disso ser referente a 12 meses. Mas o que são 50 assíduos para quem está acostumado a falar com multidões? Ele não quis saber que eu não estava me referindo a visitantes únicos, mas a pessoas que transformaram o vivasp.com em suas casas na web, e mais ainda, que em vários casos aprenderam a acessar a rede por causa do vivasp.com.

Esses dias eu estava admirando a simplicidade como o Creative Commons apresenta os itens que compõem cada licença. Essa informação aparece listada em blocos: pode ou não pode remixar, pode ou não pode comercializar, precisa ou não precisa creditar, precisa ou não manter a licença. É o oposto dos termos de uso da internet, talvez elaborados com aquele português jurídico e com tantos termos justamente para o usuário nem se dar ao trabalho de ler. Aceita de olhos fechados - supondo que se ele se ferrar, o mesmo acontecerá com muitas outras pessoas, e então vai ficar tudo bem. Mas lembrei do CC porque gostaria de ver a estatística sendo tratada dessa maneira na Web, apresentada com critérios feitos para as pessoas entenderem, e não para elas nem tentarem entender.

Valeria a pena, sim, falar em números: tantas pessoas entraram, elas ficaram em média tanto tempo, tantas vieram pela primeira vez, tantas voltam recorrentemente, etc. Mas junto com isso, seria bacana ter informação "viva", a partir da quantificação da relação dos usuários com o site.




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