Graças ao apagão, a esposa do @Interney entendeu para que serve o Twitter

Abaixo você vai encontrar toda a sequência de mensagens que eu publiquei pelo Twitter ao longo de duas horas, pelo celular, durante o período do apagão.

São Paulo no apagão

O motivo de publicar estas mensagens é documentar / registrar como o serviço foi utilizado nessa situação de crise.

O apagão mostrou para algumas pessoas menos envolvidas com tecnologia que o Twitter é mais do que uma diversão.

O interessante do episódio foi ver que as pessoas preferiram o Twitter a outros canais de comunicação como o rádio - que também vem em muitos aparelhos celulares.

O Twitter serviu para transmitir informação, para amigos se ajudarem, para a troca de dicas relacionadas à situação e também - fundamental - para reduzir a tensão.

A seguir, as mensagens retuitadas. Elas estão em sentido cronológico invertido, ou seja, as mais recentes estão em cima. Vá até o final deste post se quiser acompanhar o passo-a-passo. Vou marcar algumas com negrito.

. A proposito, bateria do N97 guentou 2h de acesso continuo à internet. Mto bom

. Gente, ta voltando, acho q vai ficar tudo bem. Foi bacana ter tido a companhia de @todos. Agora, cama e salvar 1 pouco da bateria

. Aqui tbem RT @MissMoura: Pronto! Bateria só com um pontinho. E agora? #comofaz? :(

. RT @Neto: O Ministro Edson Lobão informou que o abastecimento deve ser normalizado ainda esta noite. (via Folha Online e Agência Estado)

. RT @jeffpaiva: Galere, cuidado ao voltar a luz. Desliguem aparelhos da tomada pra corrente que chega desequilibrada não queimar nada.

. Rá RT @s1mone: Aqui também! RT @lelira: Pronto, começou a orgia no vizinho. #inveja

. RT @menta90: @jasper Aqui na consolação estamos com luz

. RT @Isabelladallas: acessor da itaipu disse que não tem como prever qto demora, mas q termoeletricas podem fornecer a energia por enquanto

. RT @MissMoura: Enquanto vc, publicitário, estará de folga sem luz, os jornalistas vão ter que se virar... Fiz a escolha certa!

. Rá RT @jampa: Não estamos num apagão. Estamos no cérebro do Gilberto Gil durante uma entrevista. (via @leandro_batata)

. I was thinking about that RT @alexdc: @jasper interesting that Brazilians aren't using hashtags to group these tweets #blackout

. RT @Mobilon: @jasper O presidente d Itaipu acabou d anunciar no Globo News. Em até 30 minutos será possível retomar o abastecimento. #apagao

. RT @andreablois: @jasper tudo apagadono rio ainda.

. RT @ahaportugal: aqui no morumbi tbem no escuro. RT @jasper: Aqui em Pinheiros/Pompeia, ainda no escuro #apagao (Gravity) (a min ago)

. RT @ClaudiaCManso: @jasper Zona Norte Sampa continua sem luz tb.

. RT @psouva: @jasper Em são josé dos campos, sp, voltou.

. Aqui em Pinheiros/Pompeia, ainda no escuro #apagao

. T @Helton: E a luz voltoooou galeraaaa #SP

. RT @fugita: RT @advogadaonline: Itaipu nos trending topics. risos. #apagao

. Noticias contraditorias: uns falam q vai durar dias, outros q tá pra voltar. E ficamos na mesma

. RT @Knuttz: Presidente de Itaiú: 2 trechos de uma das linhas já foram reparados, um terceiro (e o último), será reparado em 30 min.

. Lembranças de 11 de setembro. #euestavala

. RT @alexdc: AP mentions possibility of hackers having caused Brazil's blackout tonight. The Associated Press: Brazil's 2 largest cities hit by blackouts

. Hurray! RT @interney: Minha esposa finalmente achou o twitter útil #blackoutfacts :)

. Xi RT @mlemos: aparentemente a Internet começa a capotar por aqui. PING degrading para vários lugares #apagao como tá a coisa ai com vocês?

. RT @Cabianca: Catso: se foi queda na linha de transmissão por conta de ventania, pode demorar 1 a 2 dias #medo #apagao #2012

. OPA! RT @baunilha: voltou a luz aqui no centro de sp

. RT @gabidias: Lembrancas de qdo a vida era mais simples... #apagao

. RT @emiliomoreno: RT @fimdejogo: reporter da cbn diz q está seguindo as informações pelo twitter. Ligação da entrevista caiu

. Eita! RT @adrianosbr: No Jornal da Globo: se for problema nas linhas de transmissão de Furnas, o #apagao pode demorar dias...!

. RT @jlgoldfarb: RT @lilian_ferreira: Três ouvintes da Bandnews dizem ter voltado a luz em Campinas.- como está no rio?

. I guess its because the energy is out ;-) RT @alexdc: @jasper I'm surprised Itaipu's Wikipedia page hasn't been updated yet

. RT @Cabianca: 800 cidades no Brasil sem energia. #apagão

. Hopefully @shirky will write a post on this ;-) RT @alexdc: @jasper This is Brazil's first big Twitter moment ;)

. @alexdc 10M? Sao Paulo city alone has 20M...

. Será que os tecnicos de Itaipú estão trabalhando no escuro?

. @alexdc A lot of us using Twitter to share news and to keep the sense of humor up #thankstwitter #blackout #brazil

. Serio RT @gilgiardelli: #apagão preso em Cumbica! Nunca na história deste pais o aeroporto ficou sem luz!

. RT @Knuttz: Causa do Black Out: Itaipú está *completamente* paralisada, técnicos ainda não sabem o que aconteceu.

. RT @Cabianca: Vixe, #Paraguai sem luz. Pane em Itaipu e o problema é considerado sério, sem previsão de solução. #JornaldaGlobo #apagão

. RT @bilaamorim: Ja voltou em Recife... RT @andrelmaraujo: @bilaamorim já voltou aqui.

. RT @jampa: #ficadica desligue a chave geral da sua casa, porque quando a energia voltar... Aiai (via @trentas) já fiz. Conselho nerd!

. RT @jampa: RT @eduardonasi: manchete da zero hora amanhã: inabalavel, rs resiste a apagão histórico. (via @accsalgueiro)

. RT @ianblack: RT @gusfune: Parece que a luz vai voltar aos poucos pra quem for convidado. Tenho 10 convites! #blackout

. Tipo quem? RT @vanessaruiz: Pessoal, estamos apurando: outros países podem estar sem energia também. Mas muita calma nesta hora. #apagaoabout 10 hours ago from Gravity

. RT @pedrodoria: RT @rmesquita: RT @robertoharaujo: Furnas terminou a migração para o windows 7 :)

. Quanto tempo vai durar o apagao? Façam suas apostas #bolaodoapagao

. RT @Neto: Tem um cara tocando flauta doce aqui perto. Vamos combinar? Ou falta luz, ou o cara toca flauta né gente?

. RT @crisdias: RT @peruka: Meu nome é John Connor e se você está lendo isso, você é a resistência. #terminator

. RT @jampa: Bebendo como se não houvesse amanha

. Atravessando a Rebouças pela Brasil #oquevoceestavafazendoquandoasluzesapagaram

. RT @mariacarol: Alias para quem está feliz por ter internet 3g neste momento: a autonomia das torres não passa muito de duas horas!

. #arrastoes por #sp e #rio. #blackout #cuidado

. RT @vanessaruiz: Arrastão na região do Vale do Anhangabau. Pessoas saindo do terminal Bandeira e indo p o metrô sendo assaltadas.

. Xiiii RT @MissMoura: Arrastão no tunel velho em Botafogo #RJ. Afirma radio taxi

. Esse #apagao tem q render coletaneas de frases. RT @cavallini: Quando acaba a luz, namorado vai transar e casado twittar.

. RT @belcolucci: paraguai também tá sem luz. Deve ter sido itaipu

. RT @vanessaruiz: Apuramos aqui na CBN, c o Ministério de Minas e Energia, q o problema é em RJ e SP. ES acaba de reportar problemas. #apagao

. Rá! RT @jampa: Onde estão as mulheres quando a gente precisa delas?about 11 hours ago from Gravity

. Aqui, só celular RT @miltonjung: Rádio a pilha e internet por celular nos mantém conectados

. Se vc quiser MESMO brincar com essa situação, tenha o cuidado de sinalizar #piada pra ñ confundir e gerar boatoabout 11 hours ago from Gravity

. Pô, e ninguem sabe ainda o que tá acontecendo? #blackout #brazil

. Putz, nao duvido RT @cavallini: Não é blackout, é uma ação de guerrilha da telefonica

. Total, tava pensando nisso RT @fugita: Esse é daquels momentos que o tuíter é extremamente útil. #apagao

. Atençao, perigo. Caiu a luz geral. Eu vi acontecer. Acabo de cruzar Pinheiros e Perdizes. tudo apagado #apagaosp

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Guia mostra erros e acertos na criação de um projeto 2.0

Um dos meus textos favoritos sobre o futuro da comunicação compara a física da colaboração à física do clima. A gente sabe as forças que estão atuando, mas ainda não podemos prever o que vai acontecer em função da abundância de complexidade.

A maneira que temos hoje de explorar ecossistemas complexos "é testando um montão de coisas, e você torce para que as pessoas que falharem, falhem de maneira informativa para que pelo menos você encontre os crânios nas estacas próximos de onde você estiver indo."

Essa frase me veio à cabeça logo que comecei a folhear pelo computador o livro do Paulo Siqueira, Web 2.0 – Erros e Acertos – Um guia prático para o seu projeto, que acaba de ser lançado online e com licença Creative Commons.

Todo mundo que trabalha com tecnologia sabe que a parte mais chata do processo é a documentação. Um programa pode ter milhares de linhas de código, um projeto geralmente tem centenas de etapas até ficar pronto, e a documentação é o que permite que aquele território conquistado possa ser mantido.

Tudo o que estamos fazendo de maneira colaborativa e descentralizada depende disso. Cada experiência vivida é compartilhada, muitas vezes em forma de tutorial, tanto para permitir que outros sigam a diante como para indicar que aquele é um beco sem-saída, que é perda de tempo fazer daquela forma.

No começo deste ano o Paulo colocou no ar um projeto pessoal para criar um serviço, o digi.to, para integrar Twitter a SMS. Algumas coisas funcionaram, outras não. Todos conhecemos dezenas ou centenas de projetos nessas condições. A diferença é que o Paulo se deu ao trabalho de fazer um mapa de sua aventura como empreendedor dizendo por onde ele andou, onde o terreno era firme, onde havia armadilhas.

Esse é o grande mérito do livro e um grande exemplo de como, em tempos de internet, transformar um limão em limonada. Por isso estou participando do lançamento e desejo sucesso à obra e ao autor.

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Primeiras impressões do N97

Participei ontem do 2o NokiaCamp, devidamente munido com o N97 que recebi da Nokia e que passarei a usar. A expectativa é que, com o aparelho, acessar a internet pelo celular seja mais divertido e fácil, pela liberdade que trazem tela mais ampla e teclado mais confortável.

Apesar dele não reproduzir a experiência de uso do IPhone, a tela sensível ao toque do N97 já simplifica a navegação pelo aparelho. É uma sensação nova para mim, e libertadora. E acompanha a câmera de 5 mega, filmadora digital, 30 mega de memória, um serviço de GPS grátis por 6 meses entre outras funcionalidades que uso diariamente.

Falando em câmera, hoje tive a oportunidade de brincar um pouco com ela. Achava ruim no N95 tirar foto em close porque a câmera só começava a focar a partir de dez centimetros de distância. No N97 o zoom eletrônico está mais fácil de ser acessado, então, apesar de continuar a dez centímetros do objeto, consegui resultados melhores. E fiquei com a impressão que o sistema que evita que a foto saia tremida também melhorou.

Ainda preciso me acostumar com o teclado novo. Estava habituado com escrever pelo teclado compacto do N95 usando o modo de previsão de texto. Por enquanto, meu único problema foi com o uso de acentos, porque preciso apertar duas teclas simultaneamente. Fora isso, estou com a expectativa de poder blogar pelo celular, coisa que ainda não fiz. Vamos ver.

Pro Twitter, vai ser uma farra. Brinquei um pouco com o Gravity, um cliente para usar o Twitter pelo celular que baixei pela loja Ovi por recomendação do Helton. Eu estava satisfeito com o TweetS60, que é de graça, mas estou com a impressão que vai valer a pena comprar este - dependendo do preço.

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Procura-se bons tutoriais sobre Internet

Quero montar um livro em PDF - registrado com licença Creative Commons - reunindo tutoriais sobre como usar serviços como WordPress, Flickr, Delicious, Twitter, etc. A aposta é que, fazendo uma pequena triagem e reunindo esse material em um só arquivo, a utilidade do conteúdo se multiplicará.

Se você tem tutoriais prontos no seu blog ou conhece algum existente em português, publique-o no Delicious com a tag livrotutorial. Se você não sabe usar o Delicious, pode aprender lendo este tutorial do MeioBit ou me passar o link por email.

Existem tutoriais feitos em vídeo e também em apresentações, mas, para este formato, é necessário que ele seja prioritariamente em texto, de preferência incluindo links e imagens ilustrativas.

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"Me parece um excelente canal para disseminar valores e reposicionar marcas"

Especialistas de determinadas áreas vêm sofrendo com a Internet. Li um artigo na revista New Yorker dizendo que a Wikipedia não diferenciava um acadêmico de um garoto de 14 anos que lê bastante. E eu sinto prazer verdadeiro sempre que encontro esses amadores, pessoas que, por exemplo, nunca escreveram profissionalmente, nunca venderam um texto, talvez nem tenham pensado em fazer isso, mas tem paixão por um assunto e isso as coloca numa posição interessante em relação ao profissional da área. O amador geralmente tem mais liberdade para dizer o que pensa, porque ele faz isso porque quer, quando quer, sempre depender de prestar contas a uma organização.

Estou fazendo essa introdução porque o post sobre o Blog do Planalto e o Twitter do Serra aproximou o jornalista Vinicius Gorgulho, que se deu ao trabalho de deixar um longo e lúcido comentário após o texto - como o José Murilo do MinC também fez. Pedi autorização a ele para publicá-lo aqui pelo valor da reflexão e também por gratidão, na medida em que é um texto crítico ao meu, mas feito abertamente e com argumentos.

Sou um bastante preocupado com política e acho que a política partidária é o lodo do fundo da fossa da participação política no mundo moderno. Sou mais pela participação direta, via plebicitos sustentados por um modelo de educação que torne as pessoas protagonistas de suas vidas, famílias e comunidades.

PT partido sem mídia, PSDB mídia sem partido, Marina criacionista, os sombrios Demos etc. são todos farinha do mesmo saco. Nenhum deles se preocupou pra valer em fazer um projeto que revolucionasse a educação, como vários emergentes no mundo fizeram com sucesso, assegurando sustentabilidade para projetos de desenvolvimento.

Ainda que, como os outros, o foco do PT seja um projeto de poder, entre os demais é o que mais chega perto de um projeto de desenvolvimento, porque concentra esforços na distribuição de renda, coisa que nunca foi projeto de tucanos e demos.

Lula é totalmente populista, meio caudilho, messiânico, sem protocolo e muitas vezes sem noção, mas toca um projeto que já originalmente tinha vocações mais participativas que os opositores.

O problema é como novo rico político (nunca teve e agora tem muito poder) o PT come iguarias e arrota lavagem. Não prima pela gestão, nem pela idoneidade, tem rabo preso com coronéis como Sarney, mas ainda assim é menos voltado ao modelo que esvazia o estado e centraliza decisões no mercado, ou seja, no poder econômico.

Infelizmente, diante do poder, o PT se afastou da base e está cada vez mais parecido com o PSDB: são partidos de caciques. Sem mídia para fazer costas quentes, como rola com os tucanos, fica muito mais fácil para nós policiarmos os petistas.

Dito isso, acho que é muita ingenuidade esperar que blogs e twitters de partidos como esses sejam esferas de participação popular. Eles são meramente ferramentas de RP.

O blog não dialógico do planalto é simples apoio à imprensa, o modelo torcido de RP, onde só se pensa em relações com a imprensa. O twitter do Serra serve ao reposicionamento da imagem do político, um RP online com caráter mais amplo, de relacionamento com a classe média graduada ou pós-graduada e usuária pesada de internet, público notadamente formado por uma maioria de profissionais de comunicação, gente influente no engajamento da opinião pública.

Se é ele mesmo que responde eu não sei. Sei que qualquer bom profissional de comunicação pode ser um ótimo ghost writer, inclusive emulando a naturalidade do personagem.

Vale dizer também que uma mídia que oferece "peças" de 140 toques, demanda uma hiper-rotatividade e já tem credibilidade de canal de informação e opinião entre o público que mencionei, acaba fazendo o seguidor ler e "comprar" discursos subjacentes, sem muita análise do discurso a priori.

Dessa perspectiva, me parece um excelente canal para disseminar valores e reposicionar marcas. Marcas como José Serra.

Por fim, acho que a internet é sim "O" grande canal para operacionalizarmos uma democracia verdadeira, de participação direta em rede. Só que ela sozinha, sem um projeto de educação transformadora pode simplesmente nos transformar num povo fascistóide, comos os malucos que foram ao discurso do Obama fortemente armados.

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"Comprar samba? Você está maluco?" Ou o que Cartola tem a dizer sobre a pirataria

O texto abaixo é a transcrição de uma das falas do Cartola, compositor iluminado de sambas, durante o programa MPB Especial transmitido originalmente em 1973 pela TV Cultura.

Sempre que escuto esse trecho, fico pensando em P2P, compartilhamento e tudo o mais que passou a ser assunto de debate depois da popularização da Rede. E o curioso é a reação do Cartola diante da proposta de comprarem um samba dele: “comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma.”

Leia o depoimento e, na sequência, faço algumas observações breves.

Um dia apareceu lá no morro o Mário Reis, querendo comprar uma música. Estava com outro rapaz, que veio falar comigo. ‘O Mário Reis está aí e quer comprar um samba teu’. Fiquei surpreso: ‘O quê? Querendo comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma’.

No dia seguinte ele voltou e me levou até o Mário Reis. Ele confirmou. ‘É, Cartola, quero gravar um samba seu. Fique tranqüilo, seu nome vai aparecer direitinho. Quanto você quer por ele?’ Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: ‘Pede uns 500 mil’. Eu disse: ‘Você está louco, o homem não vai dar tudo isso’.

Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: ‘Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?’.

Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves.”

Essa reação tão cheia de estranhamento e espontânea dá o tom de como, naquele momento, soava de maneira bizarra a idéia de se comercializar algo como um samba.

Ninguém come samba, nem se deposita samba em banco. Como estabelecer o valor de algo impalpável como uma canção, algo que não pode ser aprisionado a partir do momento que cai na boca das pessoas.

O raciocínio do Cartola parece ser algo assim: “meu samba vale na medida em que as pessoas o cantam, mas, se isso acontece, ele deixa de ser só meu e passa a ser também dos outros. Como vou vender uma coisa que já é dos outros?”

O Mário Reis, que se oferece para comprar o samba, aparentemente já está vivendo dentro da lógica das emissoras de rádio e da indústria nascente do disco. Para ele, faz sentido o processo artificial que tornou escasso um produto informacional e portanto naturalmente abundante.

Mário Reis inclusive menciona indiretamente o princípio que justifica o comércio de bens informacionais. Ele diz: “fique tranquilo, seu nome vai aparecer direitinho” e o que está por trás motivando essa preocupação é o direito de autor, a solução jurídica que dá a base para que esse modelo de indústria criativa cresça, permitindo que criativos profissionais vivam de sua produção.

A cabeça do Mário Reis é a que olha para o compartilhamento de músicas na rede e enxerga a contravenção, a pirataria, mas a do Cartola mostra como a coisa não é definitiva, como não existe uma verdade absoluta no posicionamento das gravadoras, que a motivação tem a ver não com a Justiça, mas com regras e hábitos que durante muitos anos sustentaram uma determinada indústria.

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"Quando entramos no clássico modelo de debate competitivo, construímos pouco"

Falar de assuntos relacionados a política fatalmente atraem trolls - pessoas que não se identificam e que atacam o texto por motivos que nem sempre ficam claros. O bacana, o outro lado da moeda, é receber feedback construtivo de pessoas que estão do lado que seria o da oposição.

Já falei algumas vezes do meu respeito pelo José Murilo Junior, que é um dos responsáveis por projetos relacionados a Internet no Ministério da Cultura. Ele deixou um comentário longo no meu texto sobre o Blog do Planaldo e as tuitadas do Serra. Leia abaixo a íntegra dessa mensagem e veja como uma pessoa pode discordar construtivamente, acrescentando ao debate e sem precisar se esconder. Valeu, Murilo.

Alô Juliano, Seu post é muito bom. A parte mais inspirada para mim '... as críticas ao produto (blog do planalto) têm mais a ver com a posição política de quem fala do que com o blog em si'.

Todos temos nossas preferências políticas, e quando entramos no clássico modelo de debate competitivo, construímos muito pouco.

A Rede embaralha um poucos estes modelos clássicos, não é? Foi mais ou menos o que apontei no texto 'Por uma cultura digital participativa', que integra os documentos de apresentação do 'Fórum da Cultura Digital Brasileira' (culturadigital.br), processo lançado recentemente pelo Ministério da Cultura.

Um pouco de história: em minha experiência de implementação web no governo, tive a honra de assessorar o prof. Bresser, então ministro da administração e reforma do estado, em um chat aberto (ele mesmo) com os servidores públicos sobre a extinção do RJU (regime jurídico único). Isto aconteceu ainda no século passado (1999), e até hoje nenhuma autoridade brasileira foi tão arrojada no uso da web, posso assegurar.

Mas depois de viver a experiência da gestão Gil no MinC, que alavancou uma sofisticada reflexão sobre os impactos do digital na cultura, e agora a gestão Juca Ferreira, que se empenha em traduzir a reflexão em prática, posso afirmar que a sensibilidade para as possibilidades do digital não são prerrogativas de partidos ou movimentos. Exige antes de tudo uma postura de abertura, e de colaboração.

O uso de blogs e twitter faz parte do dia-a-dia do MinC há muito. Fomos pioneiros em tudo, inclusive no uso do wordpress para gerenciar um portal institucional (em 2007), o que foi estratégico para implementar a cultura da transparência e demonstrar a importância da conversa online com públicos usuários.

É por isso que digo: novidade mesmo é a rede social do culturadigital.br - 'um novo jeito de fazer política pública' ;-)

"As pessoas mais criativas jamais estão reunidas todas em uma só empresa, ou governo, ou organização, ou país. Abrir os processos de construção de políticas públicas na rede, facilitando a colaboração dos interessados, é uma iniciativa quase óbvia neste início de século. Promover a inovação distribuída em questões de governança pode qualificar a democracia, transformar a sociedade." (Por uma cultura digital participativa).

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Entrevista com Ricardo Dominguez, um dos fundadores do Movimento Zapatista no ciberespaço

Fiz essa entrevista entre 2000 e 2001. Estou republicando-a aqui para quem tiver interesse no assunto ativismo e internet.

Quando encontrei Ricardo Dominguez, numa tarde ensolada de sábado em Nova York, estava determinado a fazer uma entrevista curta, de no máximo 15 minutos, para escrever uma crônica de duas páginas sobre personagens novayorkinos.

Ricardo parece um personagem de revista em quadrinhos. Veste roupas escuras - mesmo em tardes de sábado ensolaradas -, usa um óculos meio quadrado e de aro grosso que tem um ar antipático de algumas professoras primárias que eu tive. É 'xicano', filho de mexicanos nascido nos EUA, mas não tem características particularmente indígenas.

O cabelo dele, escuríssimo, é engomado no estilo anos 50 e sua franja é moldada num discreto espiral do lado direito da testa. É difícil, pela aparência, acreditar que ele seja um dos militantes mais ativos do movimento internacional de apoio aos zapatistas de Chiapas, no México.

Apesar dessa look estranho, Ricardo é muito cordial e bem humorado. Tem uma voz funda que - denunciando sua formação de ator - ele explora dramaticamente enquanto conversa.

Antes de começar a gravar, expliquei a ele que eu - e provavelmente a maioria dos possíveis leitores da entrevista - sabíamos o que adultos de classe média com formação universitária no final do século 20 sabem sobre internet e computadores.

Ele entendeu a proposta e narrou sua história desde o princípio, de uma forma quase elementar, permitindo pacientemente que eu o interrompesse quando tivesse dúvidas. Isso possibilitou que assuntos tão diferentes como Movimento Zapatista, Pós-modernidade, desobediência civil e ciberespaço se entrelaçassem e juntos se explicassem.

No começo, eu queria contar uma história curiosa. Mas duas horas depois, quando a entrevista terminou, percebi que o conteúdo gravado pode ajudar pessoas que, como eu, ainda não encontraram um conceito e uma prática para exteriorizar o desgosto pela miséria e a violência do mundo hoje.

Dedico essa entrevista à minha amiga Andrea Paula dos Santos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que por alguns motivos óbvios e outros não tão óbvios, esteve na minha cabeça durante todo o processo de gravação e edição deste texto. Clique para abrir o texto completo.

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O Blog do Planalto é a regra, Serra tuitando é a novidade

O triste do debate sobre o Blog do Planalto é que as críticas ao produto têm mais a ver com a posição política de quem fala do que com o blog em si.

OK, o blog não permite comentários. Deduz-se que quem tem a palavra final sobre a comunicação do Presidente não entende de comunicação em rede. Nenhuma novidade nisso. Aliás, os jornais do mundo estão falindo pelo mesmo motivo.

O Blog do Planalto têm méritos. Contratou "insiders" da Web para a equipe - falo do Daniel (Duende) Carvalho e do Daniel Pádua. Se fosse a Voz do Brasil online, a assessoria de imprensa teria sido incumbida de atualizar a página e o resultado não seria diferente da grande maioria dos blogs institucionais de hoje, mantidos com conteúdo frio.

A grande surpresa, portanto, não é o Blog do Planalto ser como é. Ele é a regra, é o que se espera do blog de uma grande organização, sujeita a ataques e administrada tendo como referência o paradigma do controle da informação. O surpreendente não é o blog sem blog e sem presidente. O que não tem recebido a devida importância é um governador cara a cara com sua audiência, tuitando com a desenvoltura de um nerd.

José Serra é um político da geração do Lula, com uma trajetória que inclui combate à Ditadura e exílio. Atualmente governa o Estado mais rico da União. E está dando olé em burocracias e protocolos, passando por cima de assessores e assessorias, para se dirigir diretamente às pessoas.

O Gabeira que é o Gabeira não fez isso na disputa pela Prefeitura do Rio e não faz isso hoje, tinha na época e continua tendo uma equipe para blogar e tuitar por ele. Já o Serra - nota-se - tem o mesmo comportamento compulsivo com o Twitter que os tuiteiros mais envolvidos com o serviço: tuita de dia e de noite, inclusive pelo celular.

Isso é tão fora do esperado que já faz alguns meses que o Serra é o único governador que tuita. Nenhum outro teve a ousadia de segui-lo, nem Aécio Neves, seu rival à candidatura presidencial pelo PSDB, nem a provável candidata do Presidente, ministra Dilma Roussef.

O problema do Blog do Planalto não é ele ter ou não espaço para comentários. É ele, na prática, servir mais para jornalistas produzirem notícias do que para os cidadãos e eventuais leitores / interlocutores se informarem / conhecerem as perspectivas do Presidente. Quantas pessoas vão acompanhar esses debates, ainda mais se a área for moderada? É quase insignificante.

Se os responsáveis pela comunicação do Presidente estão com receio de liberar o diálogo, poderiam pensar no Twitter, que é mais público que comentários em blog, e podem usar o Serra como referência para ver que isso não será um bicho de sete cabeças, que dá para ser feito e que vale a pena abrir o canal de comunicação.

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Chegaram algumas críticas pertinentes ao último post

A Web dá muita margem para troll, que é quando as pessoas ficam brigando, se provocando e se ofendendo sem chegaram a lugar nenhum. Em relação ao meu último post, diferente de troll, recebi algumas críticas pertinentes e quero retribuir a boa vontade e o interesse dessas pessoas respondendo a alguns pontos aqui.

A minha amiga e jornalista Ariane Mondo me mandou um direct pelo Twitter dizendo:

A única coisa que me deixou reflexiva foi o fato de não sabermos da existência do site da campanha até as discussões explodirem. Daí fica uma sensação estranha ao, de repente, retuitar um link legal que contém a marca de uma campanha sem saber que se está fazendo isso.

Na área de comentários do blog, o huno disse algo parecido:

Enfim, se o objetivo é ganhar uns trocados, que se ganhe com mais transparência: "eu também vou usar esse espaço para publicidade a partir de hoje, ok, seguidores? Quando for usada a tag-ganha-pão, não se assustem". ... Se isso não ficar claro, é publicidade velada sim. Não adianta espernear.

Os dois têm razão. Vejo, no entanto, alguns problemas em relação a isso no texto do Maurício:

1. Da maneira como está dito, parece que isso foi parte da estratégia da campanha, quando não foi. Os participantes tanto tiveram liberdade para falar sobre a campanha que vários deles postaram.

2. O texto dele dá margem para se pensar que eu tentei manipular as pessoas escondendo a participação na campanha. Quem me acompanha por este blog sabe - e quem não acompanha, pode verificar - que a síntese do meu trabalho é ser ao mesmo tempo o cientista e a cobaia explorando e relatando o que eu vivo na e pela Rede. Essa experiência, para mim, transcende a busca por popularidade e pagamento.

Conforme expliquei na resposta, outros participantes falaram da ação e divulgaram o link para o site antes do início da campanha. Lá está o meu nome, foto, bio, link para blog, etc.

Em relação a isso, ainda, poderíamos aprofundar essa discussão, de maneira que ela não se parecesse com uma caça às bruxas, mencionando, por exemplo, que vários participantes informaram seu envolvimento com a campanha via Twitter, mas muitas pessoas que os seguem certamente não viram essas mensagens no meio da enxurrada de informação que recebem por esse canal a cada dia. E mesmo fazendo o anúncio em um espaço menos ruidoso como um blog, isso não garantiria que todos os recebessem posteriormente as mensagens da ação saberiam dela.

O que fazer? Toda mensagem deve ter uma tag #publicidade?

E como ficam as campanhas de guerrilha? A Guerrilhapedia fala que o marketing invisível também tem como objetivo expor uma marca ao consumidor, fazendo-o interagir com um produto, sem ele perceber que se trata de uma experiência de comunicação. ... Geralmente ela é utilizada em pré-lançamentos ou lançamentos de produtos, sendo possível mensurar a reação e o interesse do público diante de um produto ou serviço de forma imediata. O segredo está em assimilar o público como parte integrante da disseminação da mensagem, e não um simples receptor do conteúdo (que tranforma-se em conteúdo-mentira para o mesmo).

A mesma Guerrilhapedia apresenta cases brasileiros: Divulgação da Série O Continente Gelado, da National Geographic onde a agência Espalhe colocou envelopes com o nome do velejador e um número de telefone em vários lugares de São Paulo. Dentro, havia fotos da aventura. Julgando estar com um material importante, ou apenas por curiosidade, muitas pessoas ligaram para o telefone e ouviram uma mensagem de Amyr divulgando o novo programa.

Ao invés de julgar e condenar, a matéria poderia ter aberto a discussão de maneira a expandir a compreensão dos leitores sobre o assunto.

Outro comentário publicado no post foi da Lígia Dutra. Ela escreveu:

"Os curadores são profissionais da Web, atuantes, conhecidos, que receberam uma proposta e assinaram contratos por concordar com os termos e aceitar a remuneração oferecida. Não houve aliciamento e nem pagamento com 'bonés e camisetas' e sim uma relação trabalhista, como a que o Maurício tem com o empregador dele."

Juliano, em primeiro lugar admiro muito seu trabalho, maaaaas neste trecho acima acho que você comeu bola, amigo. O Maurício falou das camisetas e bonés apenas no caso da Puma. Ele começa a matéria assim:

"Demorou um pouco, mas as agências de publicidade descobriram que o Twitter pode ser uma eficiente ferramenta de divulgação de produtos e marcas." E o primeiro caso citado, pelo que entendi, era o exemplo positivo deste tipo de ação.

Ele reconhece que a ação do Club Social foi bem aceita neste trecho: "Nem todas as campanhas são tão bem aceitas quanto a do Club Social. A marca Puma acaba de experimentar um vexame na tentativa de promover um novo produto, um tênis chamado Puma Lift."

Bom, creio que é uma questão de interpretação. Espero ter ajudado.

Comi bola, mesmo, em relação ao ponto "bonés e camisetas", mas o fato dele dizer que a campanha foi bem aceita não indica que ele considera a ação correta. Acho que existiu, sim, um julgamento que está implícito e que foi feito de forma rasteira, simplificadora, sem medir consequências, apelando para o medo de conspirações que muitos de nós cultivamos.

Finalmente, o Thiago Rosa falou o seguinte:

Avaliar o jornalismo de uma pessoa pelo grupo que ele trabalha é perigoso e incorreto. Jornalistas fazem estes grupos, mas não necessariamente precisam concordar com os fatos expressos em todas as áreas. A exposição do jornalista é muito maior do que do grupo que ele trabalha. Isso é injusto com ele. Acho que a reportagem foi boa e esclarecedora, e abre uma série de discussões dentro do mundo do marketing digital, do mundo dos blogs e porque não, da sociedade brasileira.

Apesar de não concordar que a reportagem tenha sido esclarecedora, admito que essa cobrança foi injusta e peço desculpas a ele por isso.

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