Transaforme a sua câmera digital em um scanner de livros

Neste último sábado, meu amigo e colega Cosimo Lupo e eu mostramos pela primeira vez em público o projeto de um scanner de livros chamado Homer. Homer é uma solução fácil de instalar no computador e fácil de usar para transformar uma câmera digital comum em um scanner de livros.

O resultado da aplicação dessa solução produz uma versão digital do livro que ao mesmo tempo mantém sua formatação original mas acrescenta sobre a imagem do texto o mesmo texto em formato digital. Isso significa que o leitor não apenas terá uma cópia digitalizada do livro, mas que poderá copiar porções do texto e fazer buscas em seu conteúdo. Veja o protótipo funcionando neste clipe.

Assista a seguir o vídeo de dez minutos e em inglês em que apresentamos o scanner, gravado durante o evento Whatever is to become of books?, parte do calendário de atividades do London Design Festival de 2011. Ou confira a documentação do projeto, inclusive a instrução para construir o protótipo e o passo a passo para instalação e uso dos programas. Ou assista o depoimento de Aquiles Alencar-Brayner, curador do acervo digital da British Library, sobre o scanner.

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A antropologia tem hoje um grande divulgador?

Publiquei em maio um post entitulado Sobre o fato de os executivos da ONU não "sacarem" a antropologia. Esse texto gerou um comentário bacana do Rafael Barba. Demorei para responder para dar a atenção merecida, mas, tendo respondido, achei que vale a pena transformar esse conteúdo em um novo post.

O assunto debatido é a (falta de) divulgação de pesquisas antropológicas fora do ambiente acadêmico.

Comentário do Barba:

"Antropologia e’ tipo uma psicologia para grupos - antropologos, nao me apedrejem! -, mostra como somos iguais na diferenca e diferentes na semelhanca - nao vou poder elaborar mais sobre isso agora, mas e’ verdade."

Acho que essa de mostrar esse tipo de coisa é uma das consequências do fazer antropológico, não seu pressuposto como ciência. O primeiro motivo que você enumerou ilustra melhor. Acho que o melhor define o que é antropologia é a expressão cunhada pelo Lévi-Strauss: antropologia é a ciência do observado. O que está em jogo é apreender aquele que se observa em seus próprios termos, claro, sempre traçando analogias, comparações. E no final é porque o antropólogo quer conhecer a diferença que é possível que ele afirme que "somos iguais na diferenca e diferentes na semelhanca". "Raça e História" talvez seja o melhor texto feito nesse sentido, um grande tratado contra o racismo.

Já sobre a austeridade dos textos eu não sei muito bem o que dizer. Alguns autores têm textos difíceis porque tentar apreender complexidades que parecem estar fora das nossas noções cartesianas de pensamento. Outros só escrevem mal mesmo, rs. Mas eu só comecei a gostar de antropologia porque passei a ler mais etnografias. É que ficamos lendo livros que contém teorias elaboradas posteriormente a ótimos trabalhos de campo, mas quase nunca lemos as etnografias que os originaram. Aí complica!

Acho que a questão que você levanta no post não é exatamente algo que é sintomático da antropologia. Temos problemas similares com outras áreas da academia, cujo trabalho é super mal compreendido e divulgado. De toda forma, a antropologia precisa de divulgação e escrita para um público maior sim. Os antropólogos precisam escrever mais na imprensa, divulgar seu trabalho para um público não especialista, trabalhar para dissipar um senso comum perverso - por má fé ou desinformação - sobre alguns conceitos e políticas balizadas pelo fazer antropologia.

Quem sabe assim a gente chega a algum lugar!

Minha resposta:

nunca li levi-strauss - a minha entrada para a antropologia aconteceu de uma maneira meio torta -, mas registrei a recomendacao.

tambem acho que as outras disciplinas enfrentam o problema de nao divulgarem ou divulgarem mal seus resultados, mas tenho a impressao que a antropologia é um caso a parte por trabalhar com um tema potencialmente tao interessante (universal?) e ao mesmo tempo manter essa pesquisa murada - particularmente pela linguagem.

veja, por exemplo, o caso dos grandes best-sellers de divulgacao cientifica como Steven Pinker para linguistica e cognicao, Richard Dawkins e Matt Ridley para biologia e genetica, ou Oliver Sacks para a neurologia. existe um antropologo nessa mesma posicao de divulgador e nessa mesma posicao como grande "guru" do assunto? se existe, eu nao conheco.

de todo modo, ja estou muito contente por ter encontrado o blog sevage minds, que cumpre um pouco e com muitas qualidade essa funçao de divulgar e debater as pesquisas e os temas da antropologia com o leitor nao especialista.

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Crowdsourcing para comprar o "hackermovel" e disseminar transparência

Continuo me surpreendendo com a vitalidade e a disposição da turma ligada ao projeto Transparência Hacker.

Vejo com admiração como esse projeto aproxima pessoas interessadas em contribuir com uma causa pública. No caso: criar maneiras de processar dados governamentais para a população ter recursos melhores para entender e fiscalizar os gastos e ações dos representantes públicos.

O que eles querem fazer agora é nada menos do que comprar um ônibus usado com o objetivo de transformá-lo em uma estação de trabalho móvel.

Esse equipamento permitirá que eles se desloquem para locais de atividades planejadas e também que desenvolvam ações junto com as comunidades que estiverem na rota.

Dou as boas vindas a esse sonho e a esses sonhadores, ao desejo que eles tem de fazer a parte deles, de dar o exemplo e assim atrair mais pessoas para a causa.

Já imagino ou pressinto as histórias, aventuras e emoções que esse laboratório móvel trará aos que participarem de suas andanças Brasil a fora e a dentro - como diz a Marina.

Desejo que eles consigam o dinheiro, inclusive de empresas interessadas em patrocinar a iniciativa - pode?

E desejo também e inclusive que esse projeto continue aproximando pessoas com perfil menos técnico, seguindo o movimento de popularização da cultura Hacker.

É importante ter quem faça o código, mas ativistas não-programadores são fundamentais para ajudar a construir o meio de campo entre a ideia e sua materialização e apresentação para o mundo.

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O que é criatividade para mim - o case do Minimix, o DJ marionete

Eu estava caminhando esses dias pelas ruas do Soho e dei de cara com a apresentação desse artista.

Fiquei tão fascinado pelo conceito e pela execução, que investi algumas horas para tentar melhorar o registro em vídeo que eu fiz na hora, sem tripé, gente passando, etc. O resultado não ficou mal.

Só quis poder compartilhar com quem se interessar essa experiencia explícita de encontro com a criatividade.

Todas as partes do que você vai ver já existiam - a ideia da marionete, do DJ, etc -, mas o produto final, a reunião dessas partes e a construção da linguagem corporal do boneco - isso é único. E é isso que produz a fascinação.

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O seminário inglês - a esgrima intelectual e seu propósito

Imagine uma luta de faixas-preta de Karatê.

Os lutadores se conhecem e, mesmo não sendo exatamente aquilo que a gente costuma chamar de "amigos", se respeitam.

O programa inclui uma hora de apresentação do paper. Ao redor, estão estudantes de vários níveis (ou faixas) e também vários faixa preta (professores).

Um lutador do mesmo ranking assume o posto de mestre de cerimônias. Ele anuncia os grandiosos feitos do guerreiro, mas a pompa aristocrática inclui pitadas de sarcasmo inteligente quase invisíveis aos não iniciados como eu.

A apresentação inicial é uma espécie de katá em que o lutador exibe sua perícia intelectual aplicada ao trabalho científico. Ele mostra o que fez, por que fez, como fez e as conclusões a que chegou. Terminada essa etapa, o apresentador costuma fazer a primeira pergunta e depois passar a palavra.

Daí o tempo fecha e é pancadaria (intelectual) para surpreender e voltar a surpreender quem, como eu, se acostumou com a cortesia da academia brasileira.

A intensidade desses espetáculos de esgrima acadadêmica dão a impressão que o limiar do aceitável no convívio civilizado será ultrapassado a qualquer instante e se transformar em agressão física- mas em um ano, eu nunca vi isso acontecer.

A tradição do seminário inglês

Alfred Gell foi uma das grandes promessas da atual geração da antropologia inglesa - junto com Tim Ingold -, mas morreu vítima de câncer precocemente. Porque me encantei com o texto dele sobre O Encanto da Tecnologia (e a Tecnologia do Encanto), li o texto introdutório dessa coletânea póstuma e lá ele fala sobre a tradição do seminário na Inglaterra.

Diferente da academia americana, que parece fazer o debate de forma mais esterelizada no espaço abstrato da publicação, os ingleses produzem suas pesquisas pensando que seu destino será apresentá-las (aos leões) nos seminários. A publicação em revistas acadêmicas, diz Gell, é apenas um subproduto desse processo.

Aprendendo a se defender

Apesar de me assustar com a intensidade dos embates, também admiro o fato de existir ali uma espécie de preparação para a guerra, bem no estilo do que acontece nas academias de luta. O lutador é honrado não por ser poupado, mas por ter que sobreviver ao ser testado.

O espaço do confronto é vivo - e carregado de emoções, apesar da quase imobilidade dos participantes. Existe um aqui e um agora nesses eventos que aparentemente fazem com que a disputa se torne mais real.

(O seminário é encarado e apresentado aos alunos como um atividade tão ou mais importante que as aulas - apesar de não haver avaliação relacionada a essa atividade. Você tem que ir porque tem e isso é respeitado - e eu diria, apreciado no sentido físico da palavra - pelos professores.)

Dentro do ringue cerimonial, os oponentes parecem ter a obrigação honrosa de dar o seu melhor atacando sem piedade cada brecha do paper apresentado. E vejo como esses ataques, mesmo os maliciosos, servem para a aprimoração da pesquisa, se não por outro motivo, pelo menos para que o autor reforce a blindagem.

Um trabalho que sobrevive a esse tipo de crítica direta, aberta, impiedosa, chega ao grande público com uma qualidade superior. É como se ele tivesse passado por uma espécie de ISO 9000.

Touché

Estou contando isso tudo porque outro dia encontrei no pub, - esse espaço da democratização do convívio na Inglaterra - por coincidencia, bebendo juntos, dois protagonistas dos principais confrontos em seminário deste ano letivo.

Eles são antropologos conhecidos e reconhecidos, com produção respeitada e relevante em suas áreas. E eu jurava que havia entre eles uma profunda inimizade, tendo em vista a intensidade dos ataques mútuos nas vezes em que eles apresentaram seus papers. Mas lá estavam, bebendo e conversando no pub.

Porque eu já tinha bebido e estava ficando corajoso, tomei a palavra e disse exatamente isso para eles, e que suspeitava que os confrontos fossem também uma espécie de representação.

Eles riram, em parte concordando, mas um deles fez o seguinte comentário:

- Melhor assim do que viver no ambiente hipócrita em que há o respeito formal entre os professores, ninguém se critica publicamente (mas se amaldiçoam nos bastidores) e cada um tem seus alunos-seguidores para se sentirem endeusados e intocáveis.

Pois é, meus amigos: touché?

Salvem o seminário

Recebi da Alesscar este texto curto, publicado no site da Times Higher Education, falando da tradição do seminário inglês e do perigo dela se perder.

É importante o que ela fala sobre o esforço de prestar atenção.

Nem todo seminário é bom e emocionante.

Nem só professores faixa-preta apresentam seus papers. Vêm cadidatos a doutores, pesquisadores, da própria instituição e de fora. Alguns falam baixo, alguns falam complicado, etc.

Esse é um preço do seminário: prestar atenção sempre, independente de quem está apresentando. É um esforço conjunto de quem assiste e de quem fala. E parece que mesmo aqui, esse esforço está se tornando desinteressante.

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Caetano e a "magia benigna da internet"

Quero aproveitar o post sobre o blog da Bethânia para falar da declaração - também muito criticada e ironizada na Web - feita pelo Caetano Veloso repercutindo essa mesma história. Ele disse:

"E essa história [de Bethânia] pode ser essa vontade de derrubar Ana porque acreditam demais na magia benigna da internet. É uma bolha mítica. Não é nada além disso. Há muita mitologia do novo mundo da internet, do admirável muito novo. É uma espécie de bolha conceitual. Sou velho o suficiente pra dizer que é bobagem."

Essa é um comentário tão incômodo quanto lúcido. Mas, em vez de defender esse comentário, vou primeiro citar um trecho escrito pelo Tim Wu, um pensador celebrado pelos maiores gurus da internet de hoje e que no ano passado publicou um livro chamado The Master Swith. Lessig descreveu esse livro como um "masterpiece", Chris Anderson o apontou como uma "leitura importante" e Shirky afirmou que essa obra "delineia o futuro da idade digital". Na introdução dessa obra, Wu diz o seguinte (tradução livre):

De fato, graças principalmente a este carácter aberto da Internet, tem tem se tornado um lugar-comum do início do século XXI pensar que, em matéria de cultura e de comunicação, a nossa seja uma época sem precedentes,
fora da história. … No entanto, quando olhamos atentamente para o século XX, podemos descobrir rapidamente que a Internet não foi a primeira tecnologia de informação a trazer a promessa de mudar tudo para sempre. ... Muitas e muitas vezes nos últimos cem anos, a mudança radical prometida por novas formas de receber informações parecereu, no mínimo, mais dramática do que hoje. Graças ao rádio, predisse Nikola Tesla, um dos pais da eletricidade comercial, em 1904, ‘a terra será transformada em um cérebro grande, como se fosse capaz de responder em cada uma de suas partes.’ A invenção do cinema, escreveu D.W.Griffith em 1920, significava que ‘as crianças nas escolas públicas aprenderiam praticamente tudo por imagens em movimento. Certamente eles não serão mais obrigados a ler história outra vez.’ Em 1970, um relatório da Sloan Foundation comparou o advento da televisão a cabo ao da dos tipo de móveis [de Guttenberg]: ‘a revolução agora à vista não será nada menos... pode eventualmente ser mais.’ Como um personagem de Tom Stoppard no livro A Invenção do Amor, [cuja história se passa] em 1876, comenta: 'Cada idade pensa que é a idade moderna, mas esta realmente é.’

Wu também é um entusiasta da Internet e escreveu esse livro porque quer preservá-la, mas tamb[em é lúcido ao reconhecer que várias gerações nos últimos cem anos viveram o período de deslumbre por uma tecnologia de comunicação. Mas para além da ideia da internet benigna, é importante localizar historicamente na Califórnia - dos caubóis, da corrida do ouro, da expansão americana - a origem desse discurso techno-utópico. É o lugar que concentra a expressão do liberalismo individualista e meritocrático dos Estados Unidos. (Esse foi um dos temas da minha contribução para o livro Para Entender as Mídias Sociais, lançado recentemente online.)

Tecno-utopia e o pensamento liberal

Considere o que a escritora americana Paulina Borsook chamou de "a verdadeira vingança dos nerds". Ela se refere ao o ambiente político que prevalece no Vale do Silício – a Meca do mundo digital – que, ao mesmo tempo em que abraça causas como direito ao aborto, casamento gay e descriminalização do uso de drogas, também repudia enfaticamente as práticas – consideradas assistencialistas - de subvenção e controle governamental. Isso se traduz, por exemplo, na crença de que o setor privado pode resolver tudo e que pesquisa acadêmica não pode ser avaliada no curto prazo pelo teste do mercado.

O vínculo da tecno-utopia com o pensamento liberal aparece com clareza, por exemplo, na recusa enfática de Lessig em aceitar que Kevin Kelly chame o que motiva o compartilhamento na internet de novo socialismo ou socialismo 2.0. Para Lessig, o que há de bom nesse chamado socialismo é produto das conquistas capitalistas como liberdade de expressão e direito à propriedade, práticas combatidas nos experimêntos de governos socialistas vistos no século 20.

Ao se abraçar a causa da internet, é importante perceber de que maneira o discurso da internet benigna se desenvolve a partir das noções do que é bom e justo forjadas no Ocidente nos últimos 200 anos. É importante ver que o que se percebe como sendo o ápice da socialização democrática do conhecimento é também o ápice do projeto capitalista - de suas conquistas e também de suas contradições. É importante ver o que está por trás do determinismo tecnológico embutido na percepção de que a internet provocará uma transformação benigna no mundo. Será que isso representa uma versão atualizada do racionalismo iluminista?

Manguezal de conceitos

Os gurus da internet dizem que ela precisa ser protegida, defendem a noção de o Estado e as velhas corporações conspiram para sequestrar da humanidade a oportunidade de democratizar o conhecimento, mas não vêem nada de errado nas grandes conferencias patrocinadas por multinacionais do setor que investem os tubos para manter o buzz sobre a internet redentora. Ouço falar sobre a fragilidade da internet e penso na quantidade de dinheiro e influência que têm hoje empresas como Facebook e Google, que há 15 anos não existiam. Enfim, há muitas áreas cinzentas nesse mangue conceitual e essas imprecisões acabam dando margem para o uso oportunista e não muito transparente.

Talvez a internet nao precise ser defendida porque ela não esteja sendo atacada. Talvez a internet seja apenas a estrela da vez no processo de criação, desenvolvimento e consolidação dos meios de comunicação. E o que - contraditoriamente - todo esse buzz sobre a vulnerabilidade da internet livre esteja contribuindo para que haja mais interesse na assimilação dessa plataforma, não às custas da liberdade, mas apenas para nos levar dialeticamente ao estágio seguinte desse processo evolutivo.

Mas cada um escuta o que quer.

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O covarde linchamento online de Maria Bethania

Estou chegando com mais de um mês de atraso neste debate sobre o blog da Bethania, mas talvez a relexão ainda seja válida.

Acho que o colega Julio Dario Borges errou a mão no texto publicado recentemente em seu Digestivo Cultural e intitulado O escandaloso blog de poesia de Maria Bethânia. Ele poderia ter feito a crítica necessária e sóbria, mas escolheu aderir à turba para participar do linchamento midiático do nome da Bethânia. (O tratamento mais simpático e condescendente que ela recebe no texto é de "laranja".)

Quanto vale a música?

O cálculo que causou o alvoroço é simples: um blog custa 5 minutos para ser criado logo pedir R$ 1,8 milhão por esse serviço é um descalabro, certo? É o que vamos ver.

O texto se refere ironicamente ao montante aprovado para a captação: "apenas" R$ 1,35 milhão, e é igualmente amargo ao dizer que o cachê da cantora seria de "apenas" R$ 600 mil. Mas quem concedeu ao Julio a autoridade para julgar moralmente o valor de um cachê artístico? Quando uma pessoa procura um trabalho, ela quer ser remunerada a partir de um valor correspondente ao que o mercado paga a outros que tenham as mesmas credenciais profissionais. Se a cifra de R$ 600 mil impressiona a maioria de nós, assalariados, há que se considerar que poucos têm um legado artístico e uma voz como os da Bethânia. Da perspectiva do mercado, ela é remunerada como um profissional que há 40 anos enche casas de espetáculo e vende álbuns.

Outro ponto importante da crítica diz respeito ao valor total do projeto: R$ 1,8 milhão. Sim, qualquer um com conexão e curso primário cria um blog gratuitamente, mas - repito - este não é um blog qualquer.

Se a Bethânia pretendia recitar poemas em vídeo, haverá uma equipe para planejar, produzir, gravar, editar e pós-produzir esse material. Isso tem custo. Quantos vídeos serão produzidos? Quantos minutos terá cada vídeo? Isso faz muita diferença. Haverá trabalho de pesquisa para a coleta desse material? Haverá curadoria para que a seleção de poemas seja original? Isso também custa.

Trincheiras contra a profissionalização

Agora, há um aspecto irônico nessa história: a grande maioria das pessoas que chiou por causa da aprovação da captação é da indústria online e muitos estão pelejando para serem reconhecidos e valorizados. No momento em que aparece um projeto que representa essa maturidade, que entende que a internet pode ter outras mídias, que a Web é uma plataforma que funde as anteriores, que uma produtora de internet não serve só pra “fazer site” e que existem outros profissionais envolvidos nessa produção além de “webmaster”, quando isso acontece e o projeto recebe a autorização para captar, em vez de festejarem, essas pessoas levantam trincheiras e fazem protestos.

Se a Bethânia quisesse ir para a Praça da Sé em São Paulo, sentar-se em um banquinho, tocar pandeiro, cantar e passar o chapéu, o custo de produção tambem seria baratinho. Mas se não há problema em usar leis de incentivo para produzir um show pago, qual é o problema de haver uma mega produção para a internet?

Conteúdo livre vs. conteúdo grátis

Tenho a impressão que a noção do "open" muitas vezes dá margem a esse tipo de mau uso. Parece que só é bom o que é “open”, mas “open” pode ser "livre" como também "grátis". O programador que desenvolve código para o Linux sobrevive porque o código que ele desenvolve e compartilha o credencia para vender seu trabalho, e quando melhor ele for, mais ele poderá pedir em remuneração.)

O caso é ainda mais irônico porque ninguém reclamaria - pelo menos dessa forma - se o valor fosse aprovado para a realização de um DVD, por exemplo, em que o conteúdo ficaria legalmente fechado. Mas neste caso, o conteúdo estava sendo feito para ser open (livre), poderia ser legalmente visto e distribuído mundo a fora e a dentro promovendo o Brasil, a cultura luso-brasileira e um gênero literário que poucos - a Bethânia eh exceção - promovem: a poesia.

O Júlio diz que a redação do projeto foi feita de forma quase infantil. Não vi e não posso confirmar, mas acho esse um ponto importante do ataque que ele publicou. Se o projeto não foi corretamente documentado e justificado, deveria ter sido, ou dá margem para que exista esse tipo de desconfiança. Mas esse ponto desaparece em meio à ferocidade do ataque. E ao atiçar o fogo, contribuímos para descredenciar a indústria de comunicação digital para projetos legais de grande porte. E assim nos resta aceitar remunerações medíocres para fazer coisas bacanas ou ter que encarar trampos chatos e burocráticos para ganhar um dinheirinho melhor.

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A internet não inventou a revolução

O vídeo da professora Amanda me dá a oportunidade de falar sobre a recorrente associação da internet com transformações sociais recentes.

1) A internet está recebendo o crédito em nome também da rede pública de TV que capta e transmite as sessões legislativas. Sem isso, não haveria o ótimo registro, disponível para a população.

2) A repercussão na rede foi maior porque conseguiu se tornar um fato noticioso e chegar às redações do país e de lá, a programas de audiência nacional como o do Faustão.

A fala sobre o poder revolucionário da internet é perigosa porque alterna dados de realidade e "dados de empolgação". Há uma percepção que passa subentendida de que basta acrescentar internet para o mundo se transformar para melhor.

Em relação a isso, consideremos o seguinte:

1) que acontecem revoluções no mundo muito antes da existência da Internet e a gente não precisa ir muito longo para acompanhar, nos anos de 1990, a queda dos regimes comunistas na Europa do leste.

A comunicação entre as pessoas é um aspecto fundamental desses processos, mas, em vez de se creditar uma parte da infraestrutura, faz mais sentido pensar o ecossistema midiático sem o qual a parte ou não funcionaria ou não teria a mesma força.

2) que por trás da internet existem pessoas, suas culturas e suas histórias. Essas pessoas interpretam e adotam a internet segundo seus pressupostos e dentro do possível permitido por suas conquistas coletivas.

É bacana ver que a mensagem da professora Amanda ecoar nos corações e mentes de tantas pessoas, mas apenas passar o link adiante, por enquanto, só foi suficiente para dar uma pauta aos jornalistas. Resolver o problema de educação no país vai exigir um pouco mais de trabalho.

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A prima da capoeira

Esse post e' em homenagem ao meu irmao Boricua.

Me lembro de uma conversa com a entao diretora do escritorio da StarMedia em Porto Rico e de escutar ela dizer que na Ilha nao tinham negros, so brancos e mesticos.

Depende de onde voce vai.

Porto Rico e' uma colonia por vontade propria. Foi tomada da Espanha pelos Estados Unidos - historiadores, me corrijam - mas acabou acostumando-se e hoje tem um estatus de governo hibrido, a politica interna eh administrada pelos caciques locais e a externa por Washington.

Dinheiro, telecomunicacoes, exportacao, etc, sao controlados pelos EUA. A ilha serve para testes de armas que sao proibidos em territorio americano. Em troca, os porto-riquenhos tem o direito aa cidadania e aos beneficios - seguro social, etc.

Eh curioso porque esse estado de coisas, na pratica, faz com que muitos boriquas escolham deixar a ilha para crescer na vida. Os que ficam, nao tem motivo para crescer porque o salario desemprego eh muito melhor que o emprego de segunda disponivel aos pobres.

Isso eh so o contexto para eu falar de uma manifestacao cultural tao viva e genuina e que nasce do meio desse estado ambiguo. Para mim, parece ser o unico primo ou irmao conhecido da capoeira, se chama Bomba.

Digo primo ou irmao da capoeira porque a bomba nao e' o que parece. A capoeira eh uma luta disfarsada de danca e a bomba, um telegrafo disfarsado de danca. Os cantos da bomba circulavam pelos terreiros da ilha levando mensagens que so quem era de dentro sabia interpretar.

Eh possivel cruzar Porto Rico de ponta a ponta em menos de tres horas, mas em cada area da ilha existe um traco cultural peculiar e que se nota pelo estilo da bomba.

Loisa era um manguesal que virou quilombo - o escravo que fugisse para la, escapava de ser perseguido pelos cachorros. Eh a Bahia ou Havana. E eh onde a bomba eh mais malandra e travessa.

Eh engracado como a bomba consegue existir e ser tao relevante para quem a conhece e completamente desconhecida do resto do mundo.

Gracas ao Youtube, isso tudo que eu falei pode deixar de ser blablabla. Vou por so dois videos, um de Loysa, recente, e outro que me comoveu a ponto de querer escrever este post: a uniao de duas coisas muito particulares da minha vida, a bomba e o programa Vila Sesamo. A sensibilidade dos criadores fica mais uma vez manifesta na sofisticacao do quadro, que inclui musica, danca e apresentacao.

O ponto a ser notado eh a conversa do bailarino ou da bailarina com a percussao. Isso, alias, me fez lembrar tambem da maneira surpreendente que comeca o livro Information, escrito pelo renomado James Gleick e lancado recentemente nos Estados Unidos. O primeiro capitulo eh sobre a tradicao - hoje aparentemente extinta - de comunicacao a distancia por tambores, uma especie de telegrafo auditivo com funcionamento muito mais sofisticado do que a gente imagina.

Agora, a bomba de Loysa:

E a bomba no Sesame Street:

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Sobre o fato de executivos da ONU nao "sacarem" a antropologia

Eu estava conversando com uma colega que participou ha pouco de um congresso sobre desenvolvimento. Ela relatou ter conversado com oficiais das ONU e escutado que eles nao conseguem entender a antropologia.

Como e’ possivel que executivos da Uniao das Nacoes Unidas, uma entidade que tem por finalidade especialmente mediar o relacionamento entre nacoes (e culturas) diferentes dizerem uma coisa dessas? E eu nao acho que seja culpa deles. Ler antropologia e’ maravilhoso, mas e’ muuuuito trabalhoso, mas nao deveria se por dois motivos:

- antropologia, em certo aspecto, devia ser a coisa mais obvia do mundo porque e’ o estudo de pessoas (em grupos pequenos como familia, tribo, etc), so que, me digam, qual de voces nao pode se considerar, de certa maneira, estudioso de pessoas? Para a gente viver (e sobreviver) em sociedade a gente precisa ficar o tempo todo sofisticando essa capacidade de decifrar o outro.

- O outro motivo e’ que, da mesma forma como as pessoas sao sempre surpreendentes quando a gente as conhece de perto, os bons estudos antropologicos sao sempre interessantes e surpreendentes. Quem nao leu nao faz ideia de como a vida ganha outras cores. Antropologia e’ tipo uma psicologia para grupos - antropologos, nao me apedrejem! -, mostra como somos iguais na diferenca e diferentes na semelhanca - nao vou poder elaborar mais sobre isso agora, mas e’ verdade.

Fiquei pensando, entao, o que ainda impede que a antropologia seja melhor divulgada, ou que os antropologos conversem mais com o publico nao-especialista, e me ocorreu a seguinte hipotese:

Quem e’ da academica sabe como existe preconceito entre academicos contra a Wikipedia porque o conteudo supostamente nao e’ confiavel. Acontece que qualquer um que tenha tentado publicar um texto na Wikipedia - como e’ o meu caso - sabe como isso e’ dificil em funcao das regras criadas para garantir a veracidade e a relevancia da informacao publicada.

Da’ a impressao que a comunidade da Wikipedia - falo isso com todo o respeito a ela - tem a auto-estima fraturada por conta (entre outros motivos) dessa rejeicao da academia e que, por isso, cria regras e controles ultra rigidos.

Pensei nisso porque essa atitude reativa tambem pode explicar a dificuldade dos antropologos de conversarem com quem nao e’ antropologo. A antropologia esta’ tao no limiar entre ciencia natural e humana que talvez acabe fazendo um grande esforco para mostrar que e’ ciencia. E esse esforco se reflete na austeridade e rigor com que os textos - pelo menos os que eu conheco - sao produzidos.

Enfim, e’ so uma ideia - mais uma - pra registrar por aqui.

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