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E-livros: como transformar "piratas" em consumidores

Eu sinto pena das editoras de livros, especialmente no Brasil. Elas tem o comportamento de velhinhos chatos que vivem reclamando que o mundo não é como deveria ser.

É como se a gente escutasse eles conversando: - "Porque no meu tempo não tinha essa sem-vergonhice de pílula anticoncepcional. A garota de família namorava em casa sentada no sofá..."

Por que o livro digital custa tão caro?

Enquanto isso, há uma imensa oportunidade batendo na porta de quem está nesse mercado. Nunca foi tão fácil distribuir conteúdo intelectual. Se você tem uma coisa que as outras pessoas desejam, elas mesmas ajudam a espalhar a notícia para viver a experiência coletivamente de consumo desse conteúdo.

Em vez de tirar proveito disso, as editoras batem o pé e querem que as pessoas continuem tendo que se deslocar até as livrarias e tendo que carregar esse objeto físico para onde elas forem ou cobram quase o mesmo preço pelo produto digital, o que é ridículo.

O consumidor se sente mais explorado do que feliz pelo produto que adquire. O que fica nas entrelinhas é: estamos oferecendo esse conteúdo, mas na verdade nós não queremos que você compre. Porque não queremos abrir mão do esquema tradicional.

Parece que eles não entenderam que não estão lutando contra concorrentes, mas contra os próprios consumidores. Quem gera e compartilha esses arquivos - como nos casos que relatei aqui - não faz isso para ganhar dinheiro; faz porque considera que os preços estão errados.

Ninguém prefere usar conteúdo irregular

As editoras continuam apegadas à "religião do analógico". Por medo não abrem os olhos para encarar o mostro-pirata frente a frente. Então, vamos fazer essa experiência aqui de ver quem são esses contraventores.

Pense no trabalho que dá digitalizar um livro: o tempo, a disponibilidade de equipamento, o know-how e até o perigo de se expor a processos legais que isso tudo custa. E as pessoas que fazem isso não estão atrás de remuneração, mas por amor às obras.

Digo mais: não acredito que elas se sintam bem roubando o conteúdo legalmente adquirido pelas editoras e prejudicando seus autores prediletos. Elas gostariam de participar positivamente do sucesso da obra que elas adquirem, mas entendem que seja mais importante promover a obra e o preço cobrado prejudica sua circulação.

Ganhar mais cobrando menos

Agora pense na possibilidade de a editora oferecer um catálogo compatível com o entendimento de que o digital custa menos e pode ser mais facilmente distribuído.

Nesse sentido, em vez de oferecer o digital pela metade do preço do impresso ou algo em torno disso, o impresso sairia pelo custo atual (algo como 50 reais) e o digital pelo valor de um app, algo como dois reais. Ou alternativamente uma versão básica do livro é oferecida de graça, mas a versão premium custa cinco reais.

Há, então, a experiência de consumo positiva: em vez de você consumidor se sentir um idiota sendo explorado, você se sente fazendo um bom negócio, se sente economizando. E a editora ganha em escala por conta da facilidade da venda e da distribuição e pelo ganho de novos compradores que já não se sentirião motivados a procurar a versão irregular.

O trabalho que o potencial consumidor teria gasto para procurar o livro compartilhado ilegalmente (e que, muitas vezes, implica em aceitar um conteúdo de qualidade editorial inferior), esse esforço pode ir para ajudar a editora a promover aquele produto querido.

Utopia ou pragmatismo?

Uma versão anterior deste texto recebeu críticas oportunas e generosas de participantes do grupo Amigos dosEditores Digitais (EAD), em funcionamento pelo Facebook. Graças a essas participações, entendo, por exemplo, a perspectiva de quem acha a minha fala utópica. Estar fora da realidade das editoras me liberta do condicionamento de quem depende e dependeu do impresso.

Fui informado dos debates sobre precificação dos livros e entendo que a editora não gasta só com papel e tinta. Ao mesmo tempo, percebo o receio que existe de queda de faturamento se houver uma passagem rápida do impresso (caro) pelo digital (barato) - um raciocínio que não considera o potencial lucro trazido pelo ganho na escala de vendas.

Reconheço também que o meu entendimento de livro digital seja de um produto específico, não necessariamente o livro impresso em versão digital, mas algo na linha de conteúdos feitos para o consumo em tablets ou celulares - como estes. Mas acho que a reflexão vale para os demais produtos que se encaixam dentro do termo e-livro.

Ter uma editora sempre foi um pouco profissão de fé. Não que o objetivo de uma empresa não seja ganhar dinheiro, mas o publisher tem também um amor pela cultura que o fazendeiro de soja ou o banqueiro não necessariamente compartilham. Esse é um mercado que prospera paralelamente à expansão do universo de leitores, que tem a ver com a promoção da educação.

Pensem em apps e em quem anda de ônibus

Desafio as editoras a fazerem experimentos pensando menos paranoicamente em proteger a distribuição irregular; e apostem em oferecer produtos que, além de bons, desejados, relevantes, atendam usuários de dispositivos portáteis e tenham preços que desincentivem o compartilhamento ilegal.

Pensem em apps e nas pessoas que passam horas sentadas nos ônibus indo e voltando para casa. Pensem em esquemas alternativos - como a disponibilização do conteúdo gratuitamente por patrocínio. Porque o livro digital não é apenas a versão digital de um produto analógio. É o contrário: o analógico é que é um dos formatos do produto digital.

E para não ficar no blablablá, termino citando casos interessantes. A Zahar lançou a coleção Expresso Zahar com livros com livros custando menos que cinco reais mas majoritariamente menos que dois reais. A Imã Editorial aponta para alternativas para a distribuição tradicional. A e-Galaxia diminui a distância entre autores e profissionais do ramo editoral e também oferece uma solução para distribuir esses livros que ficam prontos. E há ainda soluções como a PressBooks, que em breve terá versão funcionando no Brasil, e que simplifica o trabalho de pessoas interessadas em produzir livros.

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Piratear não é preciso

Dizem que “de graça, até injeção na testa”. Se o remédio for um livro bom, essa injeção pode ser a melhor alternativa para expandir o consumo e melhorar a qualidade dos livros.

É que hoje, quem lê em inglês têm pela internet um serviço correspondente ao de uma fantástica biblioteca de bairro, completíssima, eficiente e atualizada.

A “Amazon dos PDF” - Esse manancial de informação e cultura – que é ilegal – é conhecido principalmente dentro de espaços acadêmicos, entre estudantes que não podem depender das bibliotecas de suas faculdades para ter acesso a livros.

Mas as facilidades oferecidas pelo ambiente digital ampliaram a variedade de títulos.

Hoje, qualquer livro em inglês razoavelmente conhecido e que foi disponibilizado nos últimos dez anos pode ser encontrado em sites como Libgen – uma espécie de “Amazon dos arquivos PDF” – e Pirate Bay. Individualmente ou em coleções de centenas ou milhares de títulos.

(A chegada da Amazon ao Brasil trazendo apenas livros digitais deve também contribuir para que mais livros em português, devidamente “crackeados”, circulem por esses canais.)

No lugar das bibliotecas - Se o caso da indústria fonográfica serve de exemplo, o esforço para evitar o compartilhamento de conteúdo proprietário é vão. A natureza do digital é se espalhar.

A injeção contínua de livros digitalizados na rede alimenta acervos pessoais que facilmente podem ser recirculados quando um ou outro site de distribuição sai do ar.

Muitos livros impressos desaparecem depois da primeira edição por perderem o apelo comercial. A pirataria, então, indica uma possibilidade de reaproveitamento dos catálogos das editoras.

Seria possível que empresas comprem os direitos de pacotes desses livros que desaparecem no limbo para disponibilizá-los como coleções patrocinadas? Apareceriam assim: “Biblioteca Vale do Rio Doce de Autores Contemporâneos”. Ou “Coleção Banco do Brasil de obras de Economia”.

A rede se torna oficialmente essa biblioteca que muitos não têm e não terão a oportunidade de ir.

Outro modelo de negócio - Quem é mais velho tende a analisar esse fenômeno atribuindo a ele a responsabilidade por uma possível desestabilização do mercado editorial. Mas a questão pode ser relativizada.

O “pirateamento” de um livro é também uma expressão do sucesso dessa obra. As pessoas tanto querem ler que ajudam – informalmente – a fazer sua distribuição.

Se o livro puder ser grátis como a TV aberta para financiar a curadoria do editor e o trabalho de revisores, designers, etc, a obra digitalizada e relevante terá um alcance muito maior via recomendações boca-a-boca por redes sociais, por exemplo.

O patrocinador / mecenas não paga impressão nem distribuição. E uma tiragem normal do impresso, que hoje é de três mil exemplares ou menos, pode se ampliar radicalmente com a migração para o digital.

Auto-publicações – O mesmo meio digital que multiplica as opções de acesso a livros também facilita as possibilidades de produção de livros fora dos domínios tradicionais.

Livro publicado pode trazer prestígio, mas raramente compensa financeiramente o autor, que investe meses ou anos trabalhando. E se der para compartilhar o esforço e a recompensa?

Em 2009, eu levei 45 dias para reunir as participações para uma coletânea chamada Para Entender a Internet, publicada por mim mesmo.

Os co-autores, além de escrever, ajudaram a promover o lançamento e em uma semana o número de downloads ultrapassou o número de exemplares impressos do meu primeiro livro, lançado dois anos antes e cuja edição não tinha ainda esgotado.

Balanço final – Há milhares de livros já disponíveis em espaços de compartilhamento informal na internet. Muitos desses livros nunca chegariam aos leitores, por falta de dinheiro ou de bibliotecas.

Isso é um prejuízo? É para a gente celebrar ou para lamentar que mais pessoas queiram ler?

Fico pensando se, contra-intuitivamente à racionalidade comercial, a dita pirataria não pode gerar um efeito inesperado de ampliar o interesse pelos livros. E também de estimular empreendimentos criativos que “surfem essa onda”.

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A Enciclopédia da Nuvem de Luli Radfahrer

O Luli é um dos poucos que vai além do óbvio na hora de falar de internet e comunicação digital.

Ele é também um cara na academia que não se contenta em conversar com seus pares; ele sempre buscou se comunicar com o grande público.

Temos aí uma boa mistura: ele tem conteúdo e busca incrementar o conhecimento da sociedade sobre um assunto importante como é a comunicação depois da rede.

Esse livro novo dele é, em certo sentido, um filho autêntico da rede. O mundo online adora listas e esta é uma listona. (Lançamento em SP: segunda, 9 de maio.)

Sua grande contribuição é organizar o assunto. Você quer saber como a computação em núvem pode te ajudar nos mais diversos âmbitos. Lá você encontra vários caminhos a seguir.

Não precisa ser futurologista para saber que este livro será um grande sucesso. Merecido. A importância da internet na vida do brasileiro ainda está subrepresentada nas prateleiras das livrarias.

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Library.nu não pode ser comparada a outros sites de compartilhamento ilegal

É sempre interessante notar as coisas que ecoam pela internet. No caso do fim do Library.nu, estou com a impressão que a análise que melhor capturou o entendimento e o sentimento dos usuários desse site foi a do antropólogo americano Chris Kelty, da Universidade da California, Berkeley - leia aqui, em inglês.. Para quem não sabe, o Library.nu disponibilizava gratuitamente entre 400 mil e um milhão de livros.

Kelty chama a atenção para o fato de que a saída do ar do Library.nu atenta contra o desejo de se adquirir conhecimento. A maior parte do conteúdo compartilhado é do tipo que estudantes e cidadãos em geral de países desenvolvidos têm acesso nas bibliotecas públicas. A Library.nu era o que vinha balanceando essa relação ao permitir ao resto do mundo ter contato com obras científicas de todas as áreas. (Note a quantidade de mensagens sobre o fim do site publicadas via Twitter e que não estão em inglês.)

Legalmente havia violação de direito autoral, mas o assunto fica confuso na medida em que a gente para de pensar no livro como um produto voltado ao entretenimento para vê-lo como algo fundamental para o desenvolvimento dos potenciais da sociedade. (Buscando uma comparação na medicina: pense na Aspirina e nas vacinas, uma vendida e a outra dada gratuitamente e obrigatória.) Kelty argumenta que o Library.nu não pode ser classificado junto com outros sites semelhantes por esse motivo.

Imagino que uma pessoa qualquer convidada a avaliar a situação teria mais facilidade para chamar de "furto" a apropriação não remunerada de softwares, filmes ou músicas do que de um livro de filosofia ou química. Talvez a gente tenha consciência de que o livro é um produto diferente e que a sociedade já dispõe de uma solução para fazer o livro chegar a quem não pode adquiri-lo: a biblioteca. É por isso, Kelty lembra, que o site se chamava "library".

Fico pensando em como essa situação pode ser comparada aos casos em que o Brasil licenciou compulsoriamente patentes de medicamentos para o tratamento da AIDS. Podemos argumentar, sim, que ninguém vai morrer por falta de acesso a livros. Também podemos argumentar que a disponibilidade no Brasil não comprometeria o comércio dos mesmos medicamentos em outros países. De certa forma, é verdade que não se morre (diretamente) de desnutrição de conhecimento. E a existência do Library.nu estimulava o acesso gratuito não apenas a quem não tinha alternativas, mas a qualquer pessoa. Por que comprar o livro físico se o exemplar digitalizado está online e grátis?

Ainda assim, a resposta a esse dilema não é obvia. Primeiro, uma grande parte das obras disponibilizadas no Library.nu ainda tem direito autoral vigente mas está fora de catálogo; ou seja, nem querendo se pode comprar o exemplar. Segundo, há indícios de que a disponibilização do arquivo do livro tende a estimular a venda do volume impresso. E ainda deve-se considerar que boa parte do conteúdo disponibilizado lá não é comprado pelo consumidor comum, mas principalmente por instituições, especialmente por bibliotecas e centros de pesquisa. E essas instituições continuarão comprando pelo mesmo motivo que elas não usam software ilegal.

Tentei resumir os argumentos do Kelty, mas acabei escrevendo bastante também. Mas não rivaliza com o dele porque é uma alternativa para quem preferir ler em português.

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Você quer pagar pelo livro, até aceita as restrições de uso, mas a Amazon não vende. Por que?

Esta é a história de um cara que queria muito ler um livro.

Queria tanto que visitou um site chamado Amazon.com e encontrou o livro em formato Kindle, o que permitiria a ele ter o arquivo imediatamente.

Tudo bem que o livro viria em formato fechado, com várias restrições de uso, para emprestá-lo, por exemplo. Não importa, ele queria ler.

Daí o nosso leitor procurou um botão de compra que não estava na página. Devia ser por ele ter se mudado de país recentemente. Mas isso é fácil resolver: ele alterou seu endereço e inseriu os dados do novo cartão de crédito para cobrança.

Feliz por ter resolvido o problema, nosso heroi fez uma nova busca pelo nome do autor e estranhou encontrar uma outra lista, menor e menos interessante, de obras. Foi, então, ao histórico de navegação no site, achou o livro novamente e acessou sua página. Foi quando se deu a grande revelação na forma de uma frase:

- "This title is not available for customers from your location in: Latin Am. & Caribbean".

E tinha mais: - "Due to copyright restrictions, certain Kindle Titles are not available everywhere. If the country or region displayed is incorrect, you may change it at http://www.amazon.com/manageyourkindle."

E ele entendeu tudo e também não entendeu nada. Por que, oh Senhor Deus, impor essa limitação? O que pode justificar a existência desse obstáculo injusto e aparentemente irracional?

Seria para forçar a compra de exemplares impressos? Ou será uma restrição imposta pela editora ou pelo autor? Mas por que, se o livro não está disponível nesta região do mundo, só o exemplar impresso encomendado?

Alguém tem outra hipótese para iluminar a situação?

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14 maneiras como a Internet está afetando a produção e o consumo de livros

Este não é um post com previsões sobre o futuro do livro. A maioria dos itens listados a seguir já são realidade. Reuni-os aqui porque contempla-los em conjunto permite à gente perceber as várias interligações das partes, ou seja, a já delineação de uma dinâmica produtiva para substituir ou pelo menos completar a que existe hoje.

Longe de estar provocando a morte do livro - nem a TV conseguiu a façanha -, a existência da plataforma digital com suas peculiaridades está criando novas oportunidades inclusive para se fazer dinheiro. E a vantagem será maior se a norma se confirmar e as editoras ficarem presas ao modelo anterior e não tirarem proveito da posição que têm hoje para ocupar novos espaços.

Seu comentário é bem-vindo para contestar ou adicionar outras perspectivas a este panorama.

  1. Redução do tamanho – para “caber” no ritmo de uso dos dispositivos móveis; é um livro condensado, com capítulos do tamanho de uma ou duas páginas, para ser lido em trânsito.
  2. Modular – vários autores contribuem com pedaços pequenos para a constituição de coletâneas. Exemplo: Para Entender a Internet - baixe o PDF. Professores montam seu livro didático como oferece o CK12.org com os "flexbooks".
  3. Reciclagem - Existe muito material disponível, mas disperto pela Rede. Ele precisa ser identificado, selecionado e ordenado para virar livro. Uma seleção de posts de diversos blogs é um livro esperando para acontecer.
  4. Grátis e vendido – documento integral fica disponível em formato digital, indicando ao leitor o link para compra de exemplar impresso, caso haja interesse. Aqui um exemplo.
  5. Leitor faz a divulgação – como o livro é grátis, o leitor se encarregará de recomendar a leitura dentro de seus círculos de relacionamento. A promoção espontânea reduz ou substitui o custo de promoção.
  6. Impressão sob demanda – O livro em papel será impresso sob demanda em sites que oferecem a possibilidade de compra sob demanda como, no Brasil, faz o www.clubedeautores.com.br.
  7. Produção facilitada – versões do programa IBooks que facilita a edição e formatação de livros, devem se popularizar oferecendo condições de uso ainda menos restritivas do que as do produto da Apple.
  8. Divulgação – da mesma maneira como o músico faz discos mas ganha dinheiro com shows, o autor fará livros para divulgar seu trabalho e expandir suas oportunidades de trabalho.
  9. “One-man publisher” – Com tanto conteúdo disponível, o curador que garimpa produtos bons para determinados públicos pode existir independente da estrutura produtiva da editora. Ele terá um selo de qualidade para referendar produtos.
  10. Publicidade – um livro grátis e com potencial para se tornar popular abre a possibilidade para a venda de espaço promocional (de forma mais comedida, não como em revistas). O anunciante se torna o “mecenas” que dá as condições para o trabalho ser feito.
  11. Assinatura – outro recurso para a remuneração do autor é pela venda de assinaturas para exemplares impressos como faz a revista Orsai.
  12. Participação – o "monólogo" do autor nas páginas do livro pode ser incrementado com a possibilidade de interação de leitores entre si e destes com os autores.
  13. Atualização dinâmica - O livro não precisa esperar uma tiragem se esgotar para ser revisado; o(s) autor(es) pode(m) manter o conteúdo revisado e atualizado no mesmo ritmo dos softwares.
  14. Conteúdo multimídia - Livros oferecem a possibilidade de explorar temas usando recursos multimídia como vídeos e animações.
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Textbooks da Apple e a cirurgia estética para deixar o livro popozudo

A Apple é mesmo a cara do Steve Jobs. Pode ser ao mesmo tempo genial e não ter escrúpulos quando a meta é vender e ganhar um mercado.

Fiquei muito mal impressionado com a propaganda - abaixo - sobre o novo campo de atuação da empresa: livros escolares digitais.

O que há de novo e verdadeiramente relevante nesse produto? Uma coisa: reduz muito o peso que o estudante leva na mochila.

Agora, assisto a propaganda e me lembro de outro produto, pré-internet, que fez certo sucesso e desapareceu: o CD-room. (Lembram da enciclopédia Encarta?)

A retórica é a mesma: falar para pais que não entendem nada do assunto e que ficam deslumbrados com animações.

E fica a pergunta: onde está a interatividade do produto? Esses meninos vão poder aprender uns com os outros, entre pares, que é o novo da comunicação em redes digitais, que é o que está por trás da transformação trazida por Wikipédia, YouTube e Flickr, para citar alguns?

Resposta: Não existe. Esses produtos não se ligam entre si. Esse tipo de "livro" não serve para isso.

A traição deste comercial é vender algo genuinamente ultrapassado e obtuso com uma roupagem nova, siliconada.

As "novidades" que eles colocam dentro desses livros, os estudantes já encontram pesquisando na rede há muito tempo. Não é novidade.

E o que é entregue junto mas não está explicado é uma plataforma de venda de livros digitais. (Leia, se quiser, o post em inglês deste advogado especializado em licenças de uso falando sobre o software de produção de livros lançado pela Apple.)

Em uma das falas de professores defendendo o produto, há uma que argumenta que o livro físico perde a função. E o que a gente faz com o livro digital da Apple: devolve e recebe o dinheiro de volta?

Aliás, será que dá para emprestar esse livro? Ou revender para um sebo? Ou passar adiante para um amigo? Não sei e gostaria de saber.

O comercial é intelectualmente desonesto, inclusive por se fazer passar por documentário quando a gente sabe que as falas foram escolhidas para vender o produto. Não há poréns...

Acho que essa iniciativa é uma furada e, mais, ele tem cara daqueles produtos que governos compram de baciada só porque parece ser a "grande novidade do momento". Como se isso fosse resolver o problema do aprendizado.

ps. 1 Quem está "pensando diferente", "fora da caixa" nesse quesito da educação são os finlandeses - leia aqui - e até os americanos estão tentando repetir a fórmula.

ps. 2 Tem um professor no comercial que fala que usar livros impressos é condenar os estudantes a usarem tecnologia de ensino dos anos 1950. OK, ele está se referindo a livros didáticos, mas, antes dos didáticos, como as pessoas estudavam?

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O escambo da AirBNB aplicado a livros: o negócio da intermediação da troca

Existem hoje alguns sites para a troca de livros - aqui, aqui e aqui. Eles funcionam da mesma maneira: você lista os livros que quer se desfazer e, ao mandar um livro a alguém, ganha um ponto que vale um livro de outra pessoa da comunidade.

Funciona, mas fiquei pensando que a solução ainda pode evoluir. Pense comigo: se todos os livros têm o mesmo valor (1 ponto), eu tenderei a não querer me desfazer daqueles mais caros. Isso provavelmente restringe o conteúdo que circula.

Por que não, por exemplo, permitir que os usuários coloquem preço em seus livros? Se é um livro mais caro, o usuário pede mais. Ao mandar um livro, seu perfil recebe o crédito-livro valendo aquele montante.

A pessoa pode começar a participar comprando créditos. Ele transfere dinheiro de seu cartão para sua conta no site. A partir daí pode adquirir livros de outras pessoas.

Outra maneira de ela participar é oferecendo livros para outros participantes adquirirem. Assim ela não compra créditos. Na medida em que se desfaz de suas obras, têm dinheiro em caixa para encomendar livros para si.

Essa solução é parecida com o que oferece hoje a Estante Virtual. Eles não vendem livros, apenas aproximam vendedores (sebos) de compradores. E cobram uma taxa por esse serviço que é retirada na hora do pagamento.

Mas a nova ideia da troca direta entre leitores pode ser potencialmente mais lucrativa porque baixa o preço da transação. Os participantes entrarão com bem menos dinheiro porque podem pagar livro com livro.

Já escrevi em outro texto sobre como a compra de livros da maneira como fazemos hoje parece ser um contra-senso. Ao mesmo tempo em que o livro tem uma vida útil potencial de anos ou décadas, depois de lido (quando é lido) ele se torna objeto de decoração; perde sua função original.

Não estou dizendo que a realização do projeto de escambo de livros seja simples. Ele dependerá, por exemplo, de oferecer um esquema seguro e eficiente para os participantes se avaliarem em relação a entrega.

Vou além: esta solução não impede o livreiro do sebo de participar das transações. Ele pode usar o serviço para adquirir bons livros abaixo do preço de mercado para alimentar suas vendas presenciais. Se ficar "expert" no site, saberá de quem e quando comprar. Ele pode também oferecer por ali uma parte de seu acervo.

E se o serviço permitir transformar crédito-livro em dinheiro, o site potencialmente atrairá pessoas que, por exemplo, herdam livros e querem se desfazer deles. Terão uma maneira de identificar obras raras de alto valor e de fazer mais dinheiro do que fariam vendendo "o lote" para sebos ou para fábricas de papel.

No fundo, essa ideia de serviço vai na linha do AirBNB, um site que transforma quartos de "pessoas físicas" em albergues e pequenos hoteis. O espírito é o mesmo: para abrir a casa a um estranho, é importante confiar. O mesmo vale para quem oferece: muitas resenhas positivas aumentam sua confiabilidade.

No caso do escambo de livros (ou de qualquer coisa física), o potencial lucrativo é aparentemente baixo. Afinal, quantas pessoas lêem. Mas o livro pode ser o primeiro passo para atrair participantes. A comunidade de leitores pode ser menor do que muitas outras, mas é apaixonada.

Veja que não foi por acaso que a Amazon começou vendendo livros e depois se tornou um grande mercado para todos os tipos de itens. Além de atender a uma comunidade que compra com constância, o livro tem outra vantagem. Seu tamanho facilita o transporte para o Correio e depois para o envio.

Penso, finalmente, no que isso representa para o comprador: poder consumir independente das lojas. O que se torna inútil na casa não é mais encaixotado e trancado, mas volta a circular. Faz sentido?

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Por que você compra livros? (versão resumida)

A maior parte dos livros a gente só lê uma vez, quando lê. Daí a gente guarda porque, afinal, custaram caro.

Não consigo pensar em outro objeto com as mesmas características. Mesmo o supérfluo é utilizado continuamente até acabar ou ser passado adiante.

O livro não: a gente estoca e usa como uma espécie de decoração de paredes.

Um pequeno acervo privado ocupa espaço e é difícil de ser transportado porque pesa muito.

É uma matemática esquisita: o produto tem condições de ter uma vida útil, ser lido por muitas pessoas, mas fique recluso.

Pense, por exemplo, em todos os livros que os moradores do mesmo prédio poderiam juntar para fazer uma sala de leitura e isso não acontece.

Cada um quer ter o seu. E depois de servir para transmitir cultura, o livro se torna objeto de decoração de parede.

(Veja: não estou me referindo àqueles 30 livros do coração, mas os outros, menos importantes.)

Se a gente em geral lê o livro uma vez só e se ele pode ser reutilizado muitas vezes, deduz-se que seu "habitat natural" seja a biblioteca pública.

Essa reflexão me ocorreu depois de me matricular na biblioteca pública do meu bairro e de encontrar lá uma coleção muito boa.

O fato de ser um bairro de classe média talvez explique por que a coleção seja boa, mas não justifica que a comunidade aparentemente continue comprando livros em vez de aproveitar o equipamento público.

A ida à biblioteca me fez perceber o mercado de livros como algo induzido e não como algo necessário. A gente faz sem precisar porque acha que é vantajoso.

Daí, fui um passo adiante: se o livro é algo que funciona melhor como um item de circulação pública, por que restringir sua digitalização para ele ser "emprestado" pela rede?

Esse é o resumo da argumentação. Se você tiver tempo e quiser entender melhor o contexto que estimulou esta reflexão, pode ler o post anterior.

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Você já pensou em ficar sócio de uma biblioteca pública?

Bibliotecas, parte 1

Frequentei com uma certa assiduidade a biblioteca "infanto-juvenil" do nosso bairro, aqui em São Paulo, quando eu era meninote e cursava o fundamental 1.

Dava-se o nome de fazer "pesquisa" ao ato de reproduzir palavra a palavra determinados verbetes enciclopédicos, geralmente os mais longos.

A ida à biblioteca condenava à morte uma tarde perfeita assistindo desenhos na TV. No entorno, bibliotecárias de avental parecidas com as professoras da minha escola e um pouco também com guardas carcerários.

Não chegava a ser uma experiência traumática, mas a lembrança física que ficou é parecida com a experiência de ir ao dentista: um aborrecimento que não podia ser evitado.

Bibliotecas, parte 2

O fato é que no ano passado tive a oportunidade (na verdade, um presente do Céu) de parar de trabalhar para, durante um ano, "apenas" estudar.

Ficamos em Londres, mas, na prática, vivi entre as salas de aula e bibliotecas, a da própria universidade e a British Library.

Biblioteca, neste caso, é mais do que um arquivo público de livros. É o ambiente propício ao estudo: cadeiras, mesas e iluminação específicas para acomodar o corpo em certas posições durante horas e - luxo para quem é distraído - bastante silêncio.

Comecei a sentir saudades da Inglaterra antecipadamente, no dia frio de janeiro em que me inscrevi para usar a British Library: salas intermináveis, silêncio, acomodações confortáveis, internet grátis e 150 milhões de itens disponíveis para pesquisa.

Da biblioteca à livraria

Alguns anos depois de "ter alta" das idas compulsórias à biblioteca da minha infância, passei a frequentar voluntariamente a livraria do meu bairro. Mas diferente daquela, esta tinha pessoas simpáticas e livros que me interessavam.

Troquei a biblioteca pela livraria. A ponto de ter transformado a ida a livrarias em passeio. Difícil não levar alguma coisa para casa, mas, reconheço, a maior parte eu deixei para depois. Comprei por impulso e muitos acabaram entrando para uma fila grande e desordenada de coisas para ler "em algum momento".

Tenho muito mais livros do que eu posso ler e, pasme, continuo tendo o desejo de comprar. Mas voltei a São Paulo disposto a buscar um equilíbrio novo entre ganhar dinheiro e ter tempo e, nesse novo contrato, me ocorreu que poderia ficar sócio de uma biblioteca pública.

Por que eu não tinha pensado nisso antes? Será que eu não tinha tempo por estar no escritório nas horas que as bibliotecas abrem? Será que eu pensava que não encontraria livros que me interessariam? Suspeito que, no fundo, haja um certo orgulho de ter poder de compra.

Alceu Amoroso Lima

É um prédio meio arrojado, de concreto mas elegante, na esquina da Cardeal Arco Verde com Henrique Schaumann. Vi pela internet que precisava de comprovante de residência e RG para ficar sócio.

A especialidade deles é literatura, mas com a mesma inscrição eu posso retirar livros em qualquer outra biblioteca municipal. O acervo pode ser consultado por computador. Quem não puder ir no horário de funcionamento, pode ligar e o livro será reservado para ser retirado até as 19h.

Encontrei livros usados mas em bom estado. Livros da Cosac, da Cia das Letras, de outras boas editoras. Publicações recentes e também outros que, tendo perdido o valor comercial, geralmente as livrarias não têm.

Comprar para que?

A experiência de ser bem atendido e de encontrar livros atuais e em boas condições na biblioteca pública do bairro me fez repensar o sentido de ter criado e manter a minha modesta coleção privada.

Veja: o livro (enquanto livro) tem vida útil de, em média, um mês ou menos. Depois disso, a imensa maioria se converte em itens de decoração que ocupam espaço e são difíceis de transportar em quantidade.

Neste cenário, a gente parece optar pelo gasto e pelo compromisso de armazenamento futuro (apesar de sua provável inutilidade) à perspectiva de não ter o produto ou para evitar a inconveniência de procurá-lo por outros meios.

Mas, por estranho que isso possa soar, acho que, como eu, muitas pessoas nem consideram a possibilidade de frequentar a biblioteca. Mesmo sabendo que ela abre aos sábados e sem investigar a qualidade do acervo.

Necessidade induzida

Estou considerando a hipótese de que o consumo de livros nas condições que descrevi seja uma necessidade induzida e em grande parte dispensável.

Se no seu bairro a biblioteca tem um acervo interessante, se ela abre nos finais de semana, se você pode escolher o que quiser e levar para casa sem pagar e sem ter que armazenar eternamente, você está gastando à toa.

Sim, a livraria tem livros atuais, mas acho importante mencionar o esforço das editoras para alimentar essa imagem da atualidade. Eu já comprei muitos livros impulsivamente, seduzido por capas e recomendações.

Outros apareceram, perdi o prazo de devolução e eles entraram na lista do "um dia quem sabe".

"Emprestar" da rede

Não sei se as bibliotecas públicas do passado eram muito ruins ou se a gente cultiva a noção de que emprestar livros é coisa de quem não tem dinheiro para comprar.

O fato é que encontrei um acervo atualizado e bem-cuidado na biblioteca do meu bairro. É grátis ficar sócio e não tenho ansiedade de pegar ou não pegar um livro. Se não tiver na hora, tem outros. Se eu não gostar, devolvo.

Isso me faz pensar em fazer uma boa "rapa" no meu acervo pessoal e doar para a Amoroso Lima. Eles cuidam bem e meus livros servirão a outros.

E finalmente, isso me faz pensar também no livro digital. Se eu posso emprestar da biblioteca, por que não "emprestar" da rede?

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