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antropologia | Não Zero

antropologia

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Inscrições abertas para curso online grátis sobre a antropologia das mídias sociais

Escrevo para anunciar a abertura de inscriçoes para o curso online grátis:
"Por que postamos: a antropologia das mídias sociais".

O programa traz em primeira mão os resultados de uma pesquisa etnográfica comparativa sobre os usos das mídias sociais em nove localidades do mundo, incluindo Brasil, Índia e China.

Esse MOOC é oferecido pela University College London (UCL) em parceria com a FutureLearn em português e mais oito línguas

Para se increver e fazer o curso em inglês, clique no link a seguir https://www.futurelearn.com/courses/anthropology-social-media/1

Para português, espanhol e outras línguas, clique neste outro link: https://extendstore.ucl.ac.uk/catalog?pagename=why-we-post

O curso começa em fevereiro e dura apenas 5 semanas. a programaçao pede uma dedicaçao média de 3 horas por semana do aluno.

Recomendo o curso principalmente por dois motivos. O primeiro é por ele oferecer uma visao de fora da redoma da indústria da internet pra ver como pessoas comuns (e nao o geek de classe média) entendem e aplicam essas ferramentas.

O outro motivo é que fizemos esse curso e os livros tambem pensando na pessoa que não vem da academia e nao é antropologo. É um caso meio raro (infelizmente) que pesquisa cujos autores querem falar com publicos de fora da academia.

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Curso grátis e em português sobre a antropologia das mídias sociais (mas não precisa ser antropólogo pra fazer)

caros amigos de travessia - em 2 de outubro de 2010 eu mandei pra pessoas do meu círculo de amizade e trabalho uma mensagem com o título de "com frio na barriga". eu anunciava ali uma mudança de país e o início de um processo (muito mais duro do que eu antecipava, mas igualmente recompensante) de reinvensão profissional.

esse mestrado me levou a um doutorado, que por sua vez levou a mim e à Thais pra uma vila trabalhadora no interior da Bahia, para estudar como o brasileiro emergente entende e usa a internet. ficamos 17 meses trabalhando e vivendo nesse povoado.

faz pouco mais de um ano que voltamos pra inglaterra - nós e os outros oito antropólogos que fizeram a mesma pesquisa em outras localidades pelo mundo. e desde então estamos trabalhando em livros e em um curso online que traz os resultados desse longo esforço de aprendizado e análise.

o meu livro sobre a pesquisa no Brasil e o doutorado em só ficam prontos no ano que vem, mas o curso, um "MOOC" dentro da grade da incrível Future Learn, está com inscriçoes abertas desde ontem. Ele é grátis e está disponível nas oito línguas dos países que foram pesquisados - inclusive o Português.

aqui o link: http://www.futurelearn.com/courses/anthropology-social-media

convido voces a participarem dele. começa em fevereiro e dura apenas 5 semanas. a programaçao pede uma dedicaçao média de 3 horas por semana do aluno. e além disso, caso voces queiram, peço também pra repassarem essa notícia pra quem mais se interessar.

recomendo o curso principalmente por dois motivos. o primeiro é por ele oferecer uma visao de fora da redoma da indústria da internet pra ver como pessoas comuns (e nao o geek de classe média) entendem e aplicam essas ferramentas.

o outro motivo é que fizemos esse curso e os livros tambem pensando na pessoa que não vem da academia e nao é antropologo. É um caso meio raro (infelizmente) que pesquisa cujos autores querem falar com publicos de fora da academia.

Voces podem me dizer depois de tivemos sucesso nesse esfoço.

Obrigado antecipadamente pelo interesse de ler essa mensagem, um abraço e seguimos em contato.

juliano / juca

com frio na barriga - 02/10/10

caros amigos e parceiros do crime - com frio na barriga e também com
muita alegria, conto a vocês que estou de mudança para londres por um
ano. viajo já amanhã logo depois da apuração dos votos.

não deu tempo de avisar nem de armar uma despedida por conta da
loucura de viagens da campanha e da corrida atrás de documentos.

vamos levar uma vida modesta de estudantes, mas quem estiver de
passagem pela cidade, avise!

abraços e até a volta

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Especial da revista Cultural Anthropology sobre os protestos no Brasil

Desde 2010 estou estudando antropologia, primeiro pelo mestrado em Antropologia Digital e agora pelo doutoramento. Não tenho muito a manha de escrever artigo científico, mas me sinto honrado por estar entre os autores convidados para participar da publicação digital da revista Cultural Anthropology sobre os protestos que aconteceram em 2013 no Brasil.

Os textos tem até mil palavras em inglês; curtos e escritos pensando em públicos dentro e fora da academia.

Eu escrevi sobre como os protestos chegaram na vila onde estou fazendo trabalho de campo. Aqui moram 15 mil pessoas, principalmente trabalhadores manuais empregados pela indústria do turismo. É uma perspectiva que parece nao ter sido contemplada pelos meios de comunicaçao.

Se o assunto te interessa, acesse, leia, comente, compartilhe!

Aqui o link: http://www.culanth.org/fieldsights/426-protesting-democracy-in-brazil

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Pausa

Este espaço ficará mais ou menos dormente por um tempo indefinido. Enquanto isso, vou continuar participando / compartilhando coisas nestes espaços:

* Blog do Social Sciences and Social Networking Research Project

* Facebook e Twitter do mesmo projeto, que, fora da academia, tem o nome de Global Social Media Impact Study.

* PartEstranho, um espaço que ainda usei pouco mas talvez venha a habitar para registrar "viagens" mais pessoais sobre antropologia e etnografia

Saudações - Juliano

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Da história da Internet à Antropologia Digital: entrevista para TV PUC

Em 2012, a convite do professor José Luiz Goldfarb, tive uma conversa relativamente longa gravada para o programa Nova Estella da TV PUC de São Paulo.

A primeira parte dessa conversa foi recém disponibilizada no YouTube - abaixo. Traz uma reflexão sobre o meu trajeto como profissional da indústria da Internet, o entendimento que fui formando sobre a história da Internet para chegar ao assunto principal da entrevista: o que a antropologia tem a contribuir para o entendimento da sociedade após a chegada da Internet.

Compartilho também impressões sobre o curso de mestrado em Antropologia Digital, criado em 2009 na University College London, do qual eu fui aluno.

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O que o Facebook tem de novo - ou de velho?

Na semana passada compartilhei alguns comentários com uma jornalista interessada em apurar uma notícia sobre a existência de um sistema parecido com o do Facebook utilizado no século 16. Como a maior parte desses comentários acaba não sendo aproveitado, aqui está a versão integral. (A versão que saiu impressa está em PDF e nao encontrei o link para a página na Web.)

Foi a partir dessa "conversa" que escrevi o post anterior sobre o que a anthropologia tem a dizer sobre a internet.

Você concorda com a comparação feita pela Royal Holloway University? Há semelhanças entre o Facebook e os grupos de relacionamento estabelecidos há muitos anos?

A gente relaciona internet com novidade, modernidade, futuro; mas a internet na verdade é apenas mais uma demonstraçao da vontade que a gente tem de estar com outras pessoas e de conversar. A gente associa a internet com modernidade e futuro porque até recentemente o computador e a conexao para se usar a internet eram coisas caras e difíceis de se ter; nem todo mundo entendia o valor, entao, a gente associou a internet aos nerds, aos geeks, essas pessoas que vivem no futuro. Mas mais recentemente o computador e a internet vem se integrando à mobilia das casas; é mais um elemento para comunicaçao. O motivo da curiosidade da notícia está em ela mostrar como a internet, na verdade, nao tem a ver com futuro, ela mostra só como a gente adora conversar. Então, respondendo diretamente à sua pergunta, sim, há semelhanças entre esse sistema de comunicaçao dos academicos antigos e o Facebook, da mesma maneira como há semelhança entre chats e conversas de bar, entre SMS (mensagens de texto por celular) e telegramas. A ideia de "rede social" não foi inventada por programadores junto com a internet; rede social, para as ciencias sociais, é a rede de relacionamentos que qualquer pessoa tem. Esse termo existe nas ciencias sociais há mais de um século. A internet apenas tornou isso mais explícito porque a gente pode "ver" o nosso perfil e "ver" as ligaçoes com os nossos amigos.

O Facebook é tratado muitas vezes como uma grande revolução que mudou a forma com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Mas o método é mesmo tão diferente, ou ele apenas se aproveita da internet para "formalizar" os costumes que já tínhamos há séculos, quando se tratava se conversar ou observar pessoas?

É isso: acho que muita gente vai concordar que o Facebook se parece muito com a vida em tribos indígenas. Antes do Face e antes de todo mundo ter entrado na internet, era muito mais fácil ter a vida da gente compartimentada: os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos do clube, a família, etc. A gente sabia gerir esses relacionamentos e tinha controle sobre como a gente se apresentava enquanto estivesse em contato com cada um desses grupos. Agora, de repente, todos esses grupos estao "perigosamente" juntos uns dos outros; o que voce fala no Face (ou o que falam de voce), o que voce publica ou publicam sobre voce fica exposto para outras pessoas verem. Se colocam uma foto comprometedora sua, a sua mae pode ficar sabendo, ou os seus colegas do trabalho e eventualmente o seu chefe. O Face traz essa experiencia de cidade do interior em que as pessoas veem umas às outras, ficam sabendo da vida umas das outras; é dai que vem a sensaçao de perda de privacidade. Entao, sim, um jeito interessante de se rever o Facebook e as redes sociais em geral é pensando em quanto elas estao nos levando de volta a um tipo de sociabilidade anterior à que a gente se acostumou a viver até recentemente; ele pode estar tornando a gente mais "tribal", mas nao "tribal" no sentido de gueto ou grupo separado e sim no sentido de ter todas as pessoas que fazem parte da minha vida existindo no mesmo ambiente.

Você consegue ver uma relação entre os métodos que eles usavam e as ferramentas existentes hoje na internet? Algo como acadêmicos = membros de uma comunidade / atividades = jogos online / yearbooks = timeline? Os métodos mudaram ao longo dos anos, ou eles apenas ganharam nomes novos ao longo dos anos? Há coisas que se fazia na época e que não se faz hoje, e vice-versa?

A relaçao entre a internet e esse mundo academico, da ciencia da informaçao, não está apenas aí. Veja o Google: a ideia que diferenciou a busca do Google é a mesma usada na biblioteconomia para dar reputaçao a publicaçoes academicas. A pagina que aparece em destaque na pesquisa do Google é aquela que tem mais links apontando para ela; se mais pessoas "citam" (linkam) para uma página, ela ganha pontos e sobe na lista do Google. O mesmo acontece com artigos academicos: o intelectual e sua produçao sao avaliados pelo numero de publicaçao em revistas cientificas e pelo impacto dessas publicaçoes, ou seja, no numero de citacoes feitas em publicacoes futuras para os artigos dessa pessoa. Não existe um inventor para a internet - houve inventores para determinados elementos da internet - porque ela "aconteceu"; era um projeto do Departamento de Defesa dos EUA para computadores trocarem dados entre si até o momento em que um engenheiro, extra-oficialmente, instalou um programinha de email. Em menos de dois anos, 3/4 do fluxo de dados era constituido por mensagens enviadas. Ninguem inventou a internet como ninguem inventou uma lingua ou uma cultura: isso é consequencia do nosso desejo de comunicaçao e das maneiras que a gente encontra para fazer isso.

Você consegue imaginar esses acadêmicos usando o Facebook hoje, um ambiente tomado por vídeos do YouTube, depoimentos emocionais e memes? O Facebook é uma ferramenta que poderia ter os mesmos "poderes" das academias, para a disseminação do conhecimento e colaboração científica?

Nao preciso imaginar. Sou pesquisador e participo de vários grupos relacionados a pesquisa via Facebook. A questao é olhar para o Facebook não como se ele fosse igual para todo mundo, mas como se ele fosse uma espécie de casa e bairro. Voce mora em um bairro (rede de amigos) e decora a sua casa (perfil, time line) com as coisas que voce quer. A estrutura é criada a partir da motivação. Conheço vários academicos importantes que se comunicam intensamente via Facebook. Da mesma maneira como a internet ja nao é um playground de nerds e geeks, as redes sociais já nao sao o pátio da escola de adolescentes. Todo mundo está la dentro, de pobres a milionários, de funcionários publicos a empresários, de crianças a pessoas de todas as idades. E cada um constroi a sua internet a partir dos valores e do entendimento que tem sobre o mundo e sobre a ferramenta. Alem disso, existem redes sociais para utilizaçao para fins especificos. Uma das mais famosas para fins cientificos é a Academia.edu.

Assim como as academias foram substituídas até chegarmos ao Facebook, você prevê outro tipo de rede social conquistando o público em breve? Como ela seria?

Acho que a academia nao substituiu o Facebook. A academia é um tipo de ambiente social, com uma determinada finalidade, onde as pessoas trabalham em seus projetos, mas tambem se divertem, brincam, fazem piada. O mesmo pode ser dito sobre o ambiente das redaçoes dos jornais. Já trabalhei como jornalista e sei que as redaçoes, alem de serem um espaço de trabalho, tambem sao ambientes divertidos e ricos em trocas de ideias e humor. Meu ponto é que nao dá para comparar Facebook com Academia porque sao elementos de categorias diferentes. Dá para comparar o Face com espaços sociais como um bairro ou um condominio; sao espaços neutros até que as pessoas que moram neles criam os significados do espaço a partir da convivencia que elas têm entre si.

Na sua opinião, as pessoas têm essa necessidade de criar meios que facilitem a interação social? Por quê?

Porque se nao a vida seria muito silenciosa e solitaria :-)

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O que a antropologia tem a dizer sobre a internet

Esses dias, pesquisando uma das revistas científicas do Brasil na área de antropologia, fiz uma busca para ver artigos que mencionam "facebook". Mais de um bilhão de pessoas está interconectada hoje a partir dessa plataforma; é um fenômeno de dimensão planetária. Daí a surpresa ao encontrar apenas uma referência que é de uma entrevista feita em 2009 com um antropólogo estrangeiro.

Pretendo, então, neste post, dizer por que a antropologia é "A Área" de estudo para quem quer pesquisar e pensar de forma original e crítica a internet. E isso pode, a princípio, parecer contraditório ou estranho na medida em que a antropologia ainda é relacionada pela maior parte das pessoas (e tambem de uma parte dos cientistas sociais) com o estudo de grupos indígenas e comunidades tradicionais.

Estamos imersos em um grande deslumbre coletivo sobre a internet porque ela nos pegou de surpresa e vem nos surpreendendo desde o começo. Primeiro, por ela ter acontecido de forma inesperada nos anos 1970. Depois porque, contra a opinião geral de analistas no fim dos anos 1980 e início do 1990 ["Quem vai trocar o conforto da TV por um teclado?"] , ela se tornou parte intrinseca da vida de mais de um terço dos habitantes do planeta hoje.

A surpresa parece que é com a tecnologia, com essa antecipação do futuro, com a velocidade com que tudo fica mais rápido; parece ser isso porque é assim que se explica tanta mudança, mas quero sugerir que a surpresa é por outra coisa. Estamos deslumbrados não pela novidade, mas pela rapidez com que a novidade entrou nas nossas vidas; a velocidade com que todo mundo abraçou esse meio e transformou o computador, antes uma coisa futurista, em parte normal da nossa mobília.

A gente nem se lembra mais - os um pouco mais velhos - da surpresa que se tinha antes quando descobria alguém com computador em casa. E hoje a gente se pergunta como conseguia viver sem ele; como ele e o celular - que, na verdade, deixou de ser um telefone para ser também um computadorzinho - viraram pontos de encontro a partir do qual gerimos muitos dos nossos relacionamentos. E mais: fazer parte desse jeito de se comunicar não foi exatamente uma opção; algumas pessoas foram entrando e agora está "todo mundo lá".

A gente não pensa em sair da internet da mesma maneira como não pensa em deixar de receber amigos em casa, participar de festas de Natal, pular carnaval, ir dançar, jogar futebol; a internet é mais um espaço para socialização.

Não acho que haja futuro no debate sobre o quanto a internet seja o céu ou o inferno; quem participa desse debate em geral não quer pensar, mas defender sua opinião. O que o grupo coordenado pelo professor Daniel Miller - do qual eu participo - vem prestando atenção é: em como a internet (especialmente pelas redes sociais) reverteu um processo de sociabilidade que apontava para uma constante individualização e agora mostra um cenário diferente: é como se a gente tivesse se mudado para uma cidade do interior onde todo mundo se conhece.

Em vez de separar as pessoas, Facebook e similares parece ter colocado todo mundo perto - até demais. Todo mundo em torno da mesma fogueira que é esse computador luminoso, conversando, jogando conversa fora, aprendendo, falando bobagem, contando piada, compartilhando desilusões e conquistas, mostrando coisas que acha interessante, brigando, xingando, celebrando nascimentos, homenageando os mortos e confortando os que precisam. É isso que acontece nesses sites e é isso que a antropologia está há tanto tempo prestando atenção.

Há um século essa disciplina vem aperfeiçoando sua técnica central de pesquisa chamada "observação participante" e que consiste em aprender, a partir de longos períodos de imersão e vivência, sobre esses grupos, clãs, tribos e comunidades tradicionais que se comunicam. Não é por acaso que "etnografia" - que é o resultado da aplicação dessa técnica de pesquisa - foi um dos assuntos quentes do último congresso dos pesquisadores de internet que aconteceu no fim do ano passado em Manchester.

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Sobre antropologia e internet e assuntos relacionados; reciclando conversas

Na linha do nada se perde, tudo se recicla... No fim do ano passado respondi a algumas perguntas enviadas por jornalistas da revista TPM. Ainda nao recebi o link, mas logo deve chegar e incluirei. Como eu não tenho tido chance de escrever com mais frequencia sobre as coisas que venho vivendo e pensando e como, no caso dessas entrevistas, uma parte pequena das respostas é aproveitada, vou publicar aqui o conteúdo integral "a quem possa interessar".

As questoes sao sobre vários temas: valor de se estudar tecnologia como antropólogo, influencia da internet na sociedade, valor de gestos como o "curtir" no Facebook, popularidade do Instagram, estudo sobre engajamento e participaçao política pelas redes, bullying pela internet e se a internet aumenta a felicidade das pessoas. Ou seja, tem um pouco de tudo.

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A antropologia tem hoje um grande divulgador?

Publiquei em maio um post entitulado Sobre o fato de os executivos da ONU não "sacarem" a antropologia. Esse texto gerou um comentário bacana do Rafael Barba. Demorei para responder para dar a atenção merecida, mas, tendo respondido, achei que vale a pena transformar esse conteúdo em um novo post.

O assunto debatido é a (falta de) divulgação de pesquisas antropológicas fora do ambiente acadêmico.

Comentário do Barba:

"Antropologia e’ tipo uma psicologia para grupos - antropologos, nao me apedrejem! -, mostra como somos iguais na diferenca e diferentes na semelhanca - nao vou poder elaborar mais sobre isso agora, mas e’ verdade."

Acho que essa de mostrar esse tipo de coisa é uma das consequências do fazer antropológico, não seu pressuposto como ciência. O primeiro motivo que você enumerou ilustra melhor. Acho que o melhor define o que é antropologia é a expressão cunhada pelo Lévi-Strauss: antropologia é a ciência do observado. O que está em jogo é apreender aquele que se observa em seus próprios termos, claro, sempre traçando analogias, comparações. E no final é porque o antropólogo quer conhecer a diferença que é possível que ele afirme que "somos iguais na diferenca e diferentes na semelhanca". "Raça e História" talvez seja o melhor texto feito nesse sentido, um grande tratado contra o racismo.

Já sobre a austeridade dos textos eu não sei muito bem o que dizer. Alguns autores têm textos difíceis porque tentar apreender complexidades que parecem estar fora das nossas noções cartesianas de pensamento. Outros só escrevem mal mesmo, rs. Mas eu só comecei a gostar de antropologia porque passei a ler mais etnografias. É que ficamos lendo livros que contém teorias elaboradas posteriormente a ótimos trabalhos de campo, mas quase nunca lemos as etnografias que os originaram. Aí complica!

Acho que a questão que você levanta no post não é exatamente algo que é sintomático da antropologia. Temos problemas similares com outras áreas da academia, cujo trabalho é super mal compreendido e divulgado. De toda forma, a antropologia precisa de divulgação e escrita para um público maior sim. Os antropólogos precisam escrever mais na imprensa, divulgar seu trabalho para um público não especialista, trabalhar para dissipar um senso comum perverso - por má fé ou desinformação - sobre alguns conceitos e políticas balizadas pelo fazer antropologia.

Quem sabe assim a gente chega a algum lugar!

Minha resposta:

nunca li levi-strauss - a minha entrada para a antropologia aconteceu de uma maneira meio torta -, mas registrei a recomendacao.

tambem acho que as outras disciplinas enfrentam o problema de nao divulgarem ou divulgarem mal seus resultados, mas tenho a impressao que a antropologia é um caso a parte por trabalhar com um tema potencialmente tao interessante (universal?) e ao mesmo tempo manter essa pesquisa murada - particularmente pela linguagem.

veja, por exemplo, o caso dos grandes best-sellers de divulgacao cientifica como Steven Pinker para linguistica e cognicao, Richard Dawkins e Matt Ridley para biologia e genetica, ou Oliver Sacks para a neurologia. existe um antropologo nessa mesma posicao de divulgador e nessa mesma posicao como grande "guru" do assunto? se existe, eu nao conheco.

de todo modo, ja estou muito contente por ter encontrado o blog sevage minds, que cumpre um pouco e com muitas qualidade essa funçao de divulgar e debater as pesquisas e os temas da antropologia com o leitor nao especialista.

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O seminário inglês - a esgrima intelectual e seu propósito

Imagine uma luta de faixas-preta de Karatê.

Os lutadores se conhecem e, mesmo não sendo exatamente aquilo que a gente costuma chamar de "amigos", se respeitam.

O programa inclui uma hora de apresentação do paper. Ao redor, estão estudantes de vários níveis (ou faixas) e também vários faixa preta (professores).

Um lutador do mesmo ranking assume o posto de mestre de cerimônias. Ele anuncia os grandiosos feitos do guerreiro, mas a pompa aristocrática inclui pitadas de sarcasmo inteligente quase invisíveis aos não iniciados como eu.

A apresentação inicial é uma espécie de katá em que o lutador exibe sua perícia intelectual aplicada ao trabalho científico. Ele mostra o que fez, por que fez, como fez e as conclusões a que chegou. Terminada essa etapa, o apresentador costuma fazer a primeira pergunta e depois passar a palavra.

Daí o tempo fecha e é pancadaria (intelectual) para surpreender e voltar a surpreender quem, como eu, se acostumou com a cortesia da academia brasileira.

A intensidade desses espetáculos de esgrima acadadêmica dão a impressão que o limiar do aceitável no convívio civilizado será ultrapassado a qualquer instante e se transformar em agressão física- mas em um ano, eu nunca vi isso acontecer.

A tradição do seminário inglês

Alfred Gell foi uma das grandes promessas da atual geração da antropologia inglesa - junto com Tim Ingold -, mas morreu vítima de câncer precocemente. Porque me encantei com o texto dele sobre O Encanto da Tecnologia (e a Tecnologia do Encanto), li o texto introdutório dessa coletânea póstuma e lá ele fala sobre a tradição do seminário na Inglaterra.

Diferente da academia americana, que parece fazer o debate de forma mais esterelizada no espaço abstrato da publicação, os ingleses produzem suas pesquisas pensando que seu destino será apresentá-las (aos leões) nos seminários. A publicação em revistas acadêmicas, diz Gell, é apenas um subproduto desse processo.

Aprendendo a se defender

Apesar de me assustar com a intensidade dos embates, também admiro o fato de existir ali uma espécie de preparação para a guerra, bem no estilo do que acontece nas academias de luta. O lutador é honrado não por ser poupado, mas por ter que sobreviver ao ser testado.

O espaço do confronto é vivo - e carregado de emoções, apesar da quase imobilidade dos participantes. Existe um aqui e um agora nesses eventos que aparentemente fazem com que a disputa se torne mais real.

(O seminário é encarado e apresentado aos alunos como um atividade tão ou mais importante que as aulas - apesar de não haver avaliação relacionada a essa atividade. Você tem que ir porque tem e isso é respeitado - e eu diria, apreciado no sentido físico da palavra - pelos professores.)

Dentro do ringue cerimonial, os oponentes parecem ter a obrigação honrosa de dar o seu melhor atacando sem piedade cada brecha do paper apresentado. E vejo como esses ataques, mesmo os maliciosos, servem para a aprimoração da pesquisa, se não por outro motivo, pelo menos para que o autor reforce a blindagem.

Um trabalho que sobrevive a esse tipo de crítica direta, aberta, impiedosa, chega ao grande público com uma qualidade superior. É como se ele tivesse passado por uma espécie de ISO 9000.

Touché

Estou contando isso tudo porque outro dia encontrei no pub, - esse espaço da democratização do convívio na Inglaterra - por coincidencia, bebendo juntos, dois protagonistas dos principais confrontos em seminário deste ano letivo.

Eles são antropologos conhecidos e reconhecidos, com produção respeitada e relevante em suas áreas. E eu jurava que havia entre eles uma profunda inimizade, tendo em vista a intensidade dos ataques mútuos nas vezes em que eles apresentaram seus papers. Mas lá estavam, bebendo e conversando no pub.

Porque eu já tinha bebido e estava ficando corajoso, tomei a palavra e disse exatamente isso para eles, e que suspeitava que os confrontos fossem também uma espécie de representação.

Eles riram, em parte concordando, mas um deles fez o seguinte comentário:

- Melhor assim do que viver no ambiente hipócrita em que há o respeito formal entre os professores, ninguém se critica publicamente (mas se amaldiçoam nos bastidores) e cada um tem seus alunos-seguidores para se sentirem endeusados e intocáveis.

Pois é, meus amigos: touché?

Salvem o seminário

Recebi da Alesscar este texto curto, publicado no site da Times Higher Education, falando da tradição do seminário inglês e do perigo dela se perder.

É importante o que ela fala sobre o esforço de prestar atenção.

Nem todo seminário é bom e emocionante.

Nem só professores faixa-preta apresentam seus papers. Vêm cadidatos a doutores, pesquisadores, da própria instituição e de fora. Alguns falam baixo, alguns falam complicado, etc.

Esse é um preço do seminário: prestar atenção sempre, independente de quem está apresentando. É um esforço conjunto de quem assiste e de quem fala. E parece que mesmo aqui, esse esforço está se tornando desinteressante.

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