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Da história da Internet à Antropologia Digital: entrevista para TV PUC

Em 2012, a convite do professor José Luiz Goldfarb, tive uma conversa relativamente longa gravada para o programa Nova Estella da TV PUC de São Paulo.

A primeira parte dessa conversa foi recém disponibilizada no YouTube - abaixo. Traz uma reflexão sobre o meu trajeto como profissional da indústria da Internet, o entendimento que fui formando sobre a história da Internet para chegar ao assunto principal da entrevista: o que a antropologia tem a contribuir para o entendimento da sociedade após a chegada da Internet.

Compartilho também impressões sobre o curso de mestrado em Antropologia Digital, criado em 2009 na University College London, do qual eu fui aluno.

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Quem inventou a internet? Ninguém.

Não sei se voces acompanharam - houve um debate recentemente nos Estados Unidos, que surgiu a partir da declaração do Obama de que o governo dos Estados Unidos teria criado a internet. A intenção da frase era mostrar a importância do incentivo governamental para o desenvolvimento econômico (*). Aqui tem um resumão desse debate em inglês com todos os links para os textos originais, que eu não terei condição de publicar agora.

Cada um nomeou um inventor diferente:

O mercado - Um analista do Wall Street Journal contestou a versão do presidente dizendo que a internet teria sido criada, na verdade, por empresas, precisamente pela Xerox PARC, que contratou um dos engenheiros do governo depois do projeto original e que este, sim, teria sido o ponto de partida, via a Ethernet, uma solução criada para interconectar computadores.

O governo - Na sequencia, o analista da revista Times entrou na conversa defendendo o presidente ao apontar que sim, o elemento criador daquilo que permite a comunicaçao em rede é a comutaçao de pacotes (package switching). É graças a isso que pedaços de dados podem ser transmitidos em blocos pequenos dentro de redes de computadores e remontados no destino final. Essa foi a grande contribuição do projeto Arpanet, financiado pelo Departamento de Defesa dos EUA.

Indivíduos - Outro analista da Times se envolveu no debate para dizer que a internet era o produto de indivíduos, mentes brilhantes como a do Vannevar Bush, que conceitualizou algo parecido com uma parte da internet em 1945, ou de Engelbart (mouse e hipertexto), Vince Serf (TCP/IP), Tim Berners-Lee (hiperlink), Andressen (Mosaic, primeiro navegador), etc.

Nós mesmos - Finalmente, para encerrar a discussão, entrou Steven Johnson, publicando sua posiçao via New York Times, defendendo que todos estavam errados e que o inventor da internet "somos nós". Aqui ele se refere ao movimento open source, Linux e as possibilidades abertas pelo trabalho colaborativo feito de forma descentralizada.

Ninguém - Não estou aqui querendo dizer que nós tropeçamos na internet como Aladim tropeçou na lampada mágica do gênio. Minha ideia é um pouco mais sutil e em parte pode-se dizer que deriva da argumentação do Steven Johnson, mas se diferencia da dele no sentido em que ele enxerga que houve "agência" (no sentido de uma ação com propósito) enquanto, para mim, o processo ocorreu em outro nível, meio que como da mesma maneira com que se criam cidades: há alguns estímulos e as pessoas vão construindo suas casas umas próximas das outras.

A essência da internet - O meu argumento não é filosófico; é que eu localizo o surgimento da internet a partir da transformação que eu entendo que ela trouxe pra sociedade: a possibilidade de comunicação grupal interativa à distância. Antes da internet havia dois modelos predominantes de tecnologia de comunicação: ou você fala e escutava (telefone) ou voce só falava ou só escutava, mas atingia grupos (televisao, rádio, etc). A novidade da internet é permitir que algo parecido com a conversa em torno da mesa, em que várias pessoas escutam todos e falam com todos, aconteça independente do tempo e da distância. É isso que vemos desde os murais de mensagem, das listas de discussão, até hoje nas conversas que acontecem pelo Facebook: sao conversas "semi-públicas".

Foi sem querer - O momento que eu considero iniciador dessa experiência; o momento em que se descubriu essa possibilidade, não foi planejado, ao contrário. A Arpanet, como muitos sabem, não tinha o propósito de fazer pessoas conversarem; era para computadores compartilharem seus dados. Em resumo, a história que me interessa é a do engenheiro Ray Tomlisson, um engenheiro contratado para trabalhar no projeto Arpanet e que, extra-oficialmente, instalou no sistema o programa de troca de mensagens eletrônicas desenvolvido no MIT.

Acontece que, no MIT, esse programa servia para outra finalidade; não havia redes de computadores porque eles eram caros, apenas instituições tinham computadores. O acesso a eles era compartilhado e o programinha servia para pessoas trabalhando no mesmo projeto deixarem recados entre si. Foi no Arpanet, portanto, que se experimentou a possibilidade de conversa grupal à distância, na medida em que existiam vários computadores interligados e as pessoas podiam mandar a mesma mensagem para várias pessoas e elas responderem para os mesmos múltiplos destinatários.

Conclusão - Como você vê, não houve propósito porque não existiu antecipação de resultado. Apesar de ter sido feito de forma extra-oficial, Tomlisson não estava conduzindo um experimento de comunicação grupal; o entendimento que ele tinha do programa derivava da experiencia prévia com ele como mural eletrônico para pessoas co-utilizando um computador. Para esses estudantes no MIT, não fazia sentido ficar mandando mensagens grupais porque eles podiam se encontrar fisicamente e era mais rápido e prático conversar ao vivo.

A vantagem da comunicação eletrônica grupal se estabelece na medida em que os meios que existiam até o momento (rádio amador ou conferência telefonica) não comportam muitas pessoas e dependem da participação simultânea dos envolvidos. O email dispensa isso: você fala coletivamente e escuta coletivamente sem que as mensagens se confundam umas com as outras (como acontece com pessoas falando ao mesmo tempo via conferencia telefonica) e na hora mais conveniente para voce.

Ninguém inventou a internet da mesma forma como ninguém inventou a fala, a cidade ou a cultura. A internet é o resultado de um processo contínuo de experimentação social: na medida em que as pessoas foram usando-o umas com as outras, foram fazendo modificações, que não são necessariamente tecnológicas, mas em relação a maneira de entender e usar um determinado elemento: por exemplo, ter a possibilidade de mandar mensagens com cópia oculta ou reproduzir a mensagem anterior no fim da mensagem atual. Mais interessante do que ver quem é ver a velocidade como nós recriamos e inventamos coletivamente espaços de socialização, como adaptamos aquilo que não serviria originalmente para se conversar e transformamos isso em uma plataforma para conversa. E isso não pertence a ninguem especificamente, nem a governos, nem a universidades, nem a individuos. E da gente, de forma plural; a internet é só uma nova expressão dessa vontade de nos comunicarmos.

(*) Essa declaração repercutiu pelos meios de comunicação porque se remete ao que está no cerne da diferença entre republicanos e democratas: estes (como Obama) acham que o governo tem um papel mais importante na sociedade, enquanto aqueles acham que os mercados se auto-regulam (assim como as redes) e que o estado deve ter uma função bem reduzida e fazer o máximo para não atrapalhar a economia com impostos para ajudar os mais pobres, por exemplo.

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Uma camera na cabeça e uma ideia na mão - é o espírito do concurso da @inter_gen

Adoro coisas com "a cara da internet". Coisas que aparecem feitas sob medida para acomodar como a gente tem inventado jeitos de ser e se expressar pela internet.

Esse concurso, por exemplo http://www.if.org.uk/filmcompetition, realizado pela Intergenerational Foundation (IF) e promovido pelo respeitado jornal inglês The Guardian.

Feito para pessoas entre 16 e 30 anos. O participante é convidado a gravar uma história. Qualquer história com até 3 minutos.

O que é tão brilhante em relação a isso:

1) Não distingue entre "video makers" e "nao video makers"; é para qualquer pessoa, considerando que a realizaçao pode ser simples, mas o conteúdo ser especial - e muitos serão.

2) tem um elemento de registro pessoal como o I Thought My Father Was God, que inspirou a criaçao do Viva São Paulo. A ideia de mostrar a beleza muitas vezes singela (outras nem um pouco) da vida comum.

3) o fato de que o resultado estará em um meio do caminho interessante entre exploraçao artistica (roteiro, realizaçao) e documento social; quantas possibilidades de a sociedade se reconhecer e conversar a partir das vozes que circularam via o concurso.

4) o fato de demandar apenas a mais simples infraestrutura de produçao que é uma camera de video (até de um celular) e um editor de imagens (tem grátis no YouTube).

5) esse projeto expressar esse potencial de retorno à oralidade que deu origem ao meu Naum Eh Tv. Neste caso a gente quase cai na tentaçao de dizer que "mais simples que isso seria fazer um concurso de redaçao" e de algum modo este é isso, mas tenho a sensaçao que aprender a escrever é mais difícil que aprender a fazer um vídeo nessas condiçoes.

Adoraria ver coisas assim acontecendo no Brasil, lugar tao receptivo ao video (6o maior mercado do YouTube) e que atravessa um momento de tantas mudanças. Será que alguma organizaçao forte no Brasil teria as manhas de dar um empurraozinho?

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Parte 2: os dois mundos de Jurema

Volte ao artigo principal ou leia a íntegra da entrevista

Nos conhecemos em uma reunião de voluntários da Wikipédia que aconteceu em janeiro aqui em São Paulo. Ex-funcionária concursada da Prefeitura de São Paulo, hoje com 64 anos, ela complementa a renda da aposentadoria atuando como representante de vendas em supermercados.

Ela é ativa na internet desde os anos 1990, quando começou a se embrenhar na rede para fazer sites amadores e participar de listas de discussão sobre o candomblé, movimento no qual ela está envolvida há quase 40 anos.

Ela entrou para o grupo de voluntários da Wikipédia em 2004 por não ter encontrado na enciclopédia na época um artigo sobre candomblé. O acolhimento dos editores veteranos e a disponibilidade de tempo quando esteve desempregada contribuíram para ela se envolver no trabalho.

Durante seus primeiros quatro anos ela serviu a comunidade como administradora, que é um tipo de usuário que atua para resolver disputas e que tem poderes para proteger, apagar ou restaurar páginas.

Hoje, apesar de ter menos tempo, ela continua ativa. Faz correções, traduz, relaciona artigos a categorias temáticas e também acompanha os debates da comunidade. E, como a maioria dos wikipedistas, considera o site uma espécie de segunda casa pela qual ela se sente responsável por ajudar a manter.

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Ser voluntário para reconhecer as bençãos da vida e viver melhor

Escrevi este texto e o seguinte para participar da blogagem coletiva do Dia do Voluntário.

Faz tempo que eu quero me oferecer para fazer um trabalho voluntário, mas sempre "falta tempo".

Fiz uma nova tentativa recentemente e estou esperançoso de que, finalmente, vá rolar.

Fala-se muito do papel de cada um na sociedade e de como nós, que temos um pouco mais, deveríamos dar um pouco mais também.

Mas esse não é o motivo que está me levando a procurar uma oportunidade de trabalho voluntário.

Tenho sentido que eu e a minha mulher estamos muito ensimesmados nos nossos planos.

Temos muitas metas, que envolvem esforços, sacrifícios, negociações, etc. E, consequência disso, apesar de termos muito, fica a impressão de estarmos cercados de dificuldades.

Meu interesse em trabalhar como voluntário é para, uma vez por semana ou quinzena, me afastar dos meus problemas e olhar para o de outras pessoas.

Para ver os meus problemas em perspectiva e talvez sofrer menos e reclamar menos da vida.

No post seguinte vou contar o que vou fazer.

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História oral de vida: a técnica que eu aprendi com o professor Sebe nos anos 1990

um amigo me pediu para contar para ele sobre a técnica usada nos projetos de historia oral que eu participei junto com o professor José Carlos Sebe no departamento de historia da USP no começo dos anos 1990. Como isso pode interessar outras pessoas, compartilho-o a seguir. Quem tiver mais interesse no assunto pode ler o Guia Prático de História Oral.

eu nao participei de projetos de temática. a diferença é que as entrevistas tinham uma pauta / questionário sobre o assunto pesquisado. em projeto de HO de vida, as entrevistas nao tem roteiro definido. o entrevistado sabe o assunto do projeto e, ao longo da conversa, ele encaminha a sua narrativa nessa direçao. por exemplo, no livro sobre os kaiowaa, o assunto era o suicido dos adolescentes kaiowaa. os entrevistados sabiam disso e a entrevista seguia naturalmente para esse tema. a questão inicial feita ao entrevistado pede para a pessoa falar sobre suas primeiras lembranças, como era a casa em que vivia, etc. a partir daí, o entrevistados apenas ecoa aquilo que vai ouvindo.

ao longo da entrevista, o entrevistado menciona pessoas que tambem estao de alguma forma relacionadas ao assunto da pesquisa. essas pessoas vao constituindo a rede de informantes. essa é a rede de pessoas entrevistadas. se voce olhar o livro dos kaiowaa, vai ver que cada capitulo traz a historia de uma pessoa. esse grupo de entrevistados é o que estou chamando de rede.

outro ponto importante da técnica é a interferencia do pesquisador no trabalho. vou falar disso listando cada ponto:

1) o objetivo do entrevistador nao é revelar o que o entrevistado nao quer falar. nesse sentido, o processo é muito diferente do da entrevista jornalistica. o que o historiador quer é ter a versao da pessoa que conta, da maneira que essa pessoa quer que sua historia seja contada. voce nao confronta o entrevistado e nao tenta fazer com que ele fale alguma coisa que possa estar escondendo. tanto isso é importante que nada é publicado da entrevista da pessoa antes de ela ter lido (ou alguem lido a entrevista final para ela) e ela ter concordado. ela concorda oficialmente assinando um documento ou com uma gravaçao dela falando estar de acordo.

2) o historiador tem liberdade para interferir no texto. o processamento das entrevistas acontece em tres etapas: transcrição, textualizacao e transcriaçao. textualizacao é o trabalho de arrumar otexto: colocar as partes da historia contada em ordem, completar as frases deixadas pela metade, corrigir os problemas de linguagem. depois que isso está pronto, vem a transcriaçao, que é o momento em que o historiador acrescenta o que nao foi falado, mas foi dito no contexto da conversa e que ficou implicito. é um trabalho subjetivo, mas que é nao é ficçao porque a entrevista trabalhada deve ser aprovada pelo entrevistado antes de ser publicada.

3) o resultado do trabalho de historia oral permite que o leitor conheça o assunto que está sendo pesquisado pelo ponto de vista das diversas pessoas que constituiram a rede de informantes. as contradicoes aparecerao no confronto das historias.

4) a participacao do historiador no livro se encerra com a producao dos textos de abertura e encerramento. ele situa o leitor em relacao às motivacoes para fazer a pesquisa e tambem conta a historia da pesquisa - os problemas que enfrentou, as duvidas e como ele as resolveu.

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Agora sem as mãos: como um projeto que eu abandonei continua vivo, mais do que nunca

Criei o Viva São Paulo em 2003, na véspera da celebração dos 450 anos da cidade. A idéia era aproveitar a data redonda e o clima propício às recordações para fazer um projeto de história oral online onde a cidade conversasse consigo através das histórias de seus moradores. Graças à participação da rádio Eldorado, que transmitia uma história tirada do site por dia, a ação criou massa crítica e começou a andar sozinha. Passados seis anos, já não tenho mais nenhum envolvimento com o projeto mas a comunidade recusa-se a fechar o site. (Continue lendo.)

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Wave: se essa é a proposta do Google para dominar o mundo, me diz onde eu assino

O email é a plataforma de comunicação online mais usada hoje, mas é uma ferramenta que existe há mais de 40 anos. O que aconteceria se pegássemos tudo o que foi desenvolvido nessas últimas décadas em termos de técnologia de comunicação em rede para criar uma versão atual do email? Vamos pegar blogs, fóruns, chat, wiki e o que mais existir por aí para montar alguma coisa que ocupe o lugar do email.

O problema do email é que ele copia informação. Quando voce manda um email para alguém, essa pessoa receberá no computador dela uma cópia do arquivo de texto que você escreveu. Nenhum problema nisso até você adicionar outros participantes na conversa e cada pessoa começar a ter versões diferentes de um monte de mensagens (des)organizadas umas sobre as outras, com comentários feitos em cores diferentes entre frases e parágrafos, muitas variedades de formatação e tudo mais que quem usa email conhece bem. O email é inspirado na carta, que serve para a comunicação entre duas pessoas. Como torná-lo mais eficiente para conversas em rede? Esse é o desafio da equipe que desenvolve o Wave. (Continue lendo - é mais rápido - ou assista a apresentação de 1h20 em inglês a seguir.)

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off-topic: Você acredita em fantasma?

Sexta-feira passada eu saí tarde do escritório para um outro compromisso. Já começava a escurecer e eu peguei o primeiro taxi livre do ponto da rua de trás.

Geralmente eu gosto de trocar idéias com taxistas, mas esse dia o motorista não tava inspirado e eu também não, então, seguimos calados, eu deixando a cabeça viajar pela janela do carro.

Pegamos a Rebouças e depois a Doutor Arnaldo. O trânsito deu uma apertadinha e do nada, quebrando o silêncio, ele virou para trás e me perguntou:

- Você acredita em fantasma?

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Brincando de gato e rato: a incrível história do destravamento do IPhone no Brasil

Quando eu me dei conta da importância - histórica, até, falo como historiador - daquele depoimento, já estávamos no meio do relato e o registro ficaria incompleto.

Quem me passou o contato do Breno foi o Cazé Peçanha, que é uma das milhares (literalmente) de pessoas que pagou para o Breno desbloquear o IPhone dele. Mas eu não fazia idéia da história que ele contaria no MobileCamp, deixando todos os presentes hipnotizados por mais de 40 minutos.

Se houve uma unanimidade no evento, foi o Breno. E até o momento dele falar - foi um dos últimos - ele acompanhou as dez palestras anteriores discretamenta.

A título de explicação, "jogo de gato e rato" é a expressão usada por Steve Jobs para descrever a corrida entre a Apple, fabricante do IPhone, e os crackers que a cada versão do aparelho encontravam novas maneiras de destravá-lo.

Escrevi este texto de memória, mas ele foi lido, corrigido e aprovado pelo Breno.

Origem

Como o próprio Breno se descreveu, ele é um rapaz que, como muitos, gostava fuçar equipamentos e fazer as coisas funcionarem. E acaba ficando conhecido dentro do círculo familiar e de amigos por isso.

É aquela pessoa a quem pedimos ajuda quando um eletrônico repentinamente pára de funcionar.

Não sei se ele fez faculdade, mas até pouco mais de um ano, ele trabalhava como suporte técnico e ganhava R$ 600 por mês.

Paralelamente, meio que por acaso, para complementar a renda, começou desbloquear celulares que vinham de outros países. Um trabalho informal e que rendia pouco.

Junto com sua família, ele morava em um predinho sem porteiro no encontro de duas ladeiras, na Zona Sul de São Paulo. São quatro andares: um apartamento para ele e a mãe, outro para a avó e dois para outros moradores.

Lançamento do IPhone

Se eu me lembro bem, foi o médico do Breno quem trouxe um dos primeiros IPhones para o Brasil e, sabendo da experiência do Breno debloqueando aparelhos e sem ter outra pessoa a quem recorrer, confiou a ele a novidade.

Até então, para ele, os computadores Macs eram sinônimo de dor de cabeça. (A incompatibilidade de sistema com Linux e Windows sempre impedia que um certo documento fosse impresso em cima da hora e sobrava para ele resolver o problema correndo contra o relógio.) Mas pressentindo a oportunidade, Breno decidiu comprar um Mac para acessar o sistema operacional do IPhone e tentar fazer o desbloqueio.

O valor do micro era aproximadamente R$ 4 mil e para comprá-lo, Breno juntou seu cartão de crédito com o da namorada, dividiu o valor em dois e parcelou em dez vezes em cada cartão.

Foi dada a largada

Daí começa propriamente a aventura. Breno e um amigo resolveram mergulhar na corrida para desbloquear o primeiro aparelho. E para isso, recorreram a fóruns e comunidades online.

Por coincidência ou não, Breno acabou estabelecendo uma dinâmica de cooperação intensa pela internet com o geek americano chamado Geo Hot, que viria a ser o primeiro a desbloquear um IPhone no mundo. Minutos antes do Breno.

Breno tinha o IPhone do médico e Geo Hot, outros cinco aparelhos para testar. O que cada um descobrisse, mandava para o outro.

Depois de algum tempo, acabaram concordando que para desbloquear o aparelho, eles teriam que mexer no hardware. Breno consultou o dono do aparelho e recebeu autorização para a tirar a tampa.

"Matando" IPhones

Na medida em que exploravam o aparelho, concluíram que a trava estava no equipamento e não no sistema operacional. Isso quer dizer que teriam que arriscar "matar" aparelhos para ter sucesso.

O americano, que tinha cinco, fez o primeiro teste e um dos IPhones foi para o saco. O mesmo aconteceu com o segundo e com o terceiro.

Já havia se passado quase cinco dias e noites que eles estavam trabalhando sem dormir, mas cada vez mais perto da soluçao.

Para o parceiro americano não desistir da empreitada, Breno conseguiu autorização para fazer sua tentativa e correr o risco de perder o único aparelho que ele tinha para testar. Foi quando, na quarta tentativa, o
americano finalmente quebrou a trava física. Breno recebeu a instrução e, em seguida, fez o mesmo aqui no Brasil.

Carros importados e a fila que só crescia

O americano imediatamente pôs o aparelho desbloqueado para leilão no EBay. Ele estava vendendo uma peça de colecionador, o primeiro IPhone desbloqueado do mundo.

Breno fez diferente: subiu ao YouTube um filminho mostrando ele ligando pelo IPhone para o telefone dele mesmo. Sim, era possível usar o IPhone no Brasil.

O que aconteceu a partir daí com a vida do Breno é parecido com uma viagem de montanha-russa.

Antes dele conseguir dormir depois da maratona de cinco dias explorando o aparelho, seu telefone começou a tocar com pessoas pedindo para ele destravar seus aparelhos.

Carros importados começaram a estacionar na frente do prédio humilde e, em poucas horas, já tinha uma fila na porta do apartamento. Um fila incomum, que só crescia, de executivos e jovens vestindo roupas da moda, que possivelmente nunca tinham estado naquela vizinhança.

Com o tempo, Breno gastaria aproximadamente 8 minutos para fazer o desbloqueio, mas naquele momento, cada aparelho tomava dele 2 horas.

Os 50 primeiros desbloqueios ele fez de graça. Não tinha empresa constituída e nem idéia de quanto cobrar.

As soluções começaram de improviso: a empregada parou de trabalhar na casa para distribuir senhas na porta. Todos na casa acabaram envolvidos, a rotina foi esquecida.

É tudo verdade

O que aconteceu a seguir com a vida do Breno para muitas pessoas só poderia acontecer no cinema.

O difícil para o ex-técnico de TI era julgar quando um determinado pedido era trote.

- A Xuxa no telefone? Magina!

Mas era verdade.

Passado alguns meses de sua nova vida, Breno estava começando a desfrutar dos resultados de seu trabalho. Escritório próxino à Avenida Paulista, carro novo, ele estava embarcando para fazer seu primeiro salto de para-quedas, quando toca o telefone.

A voz do outro lado dizia que o Presidente da República estava em Congonhas e pedia para ele ir até lá para destravar o IPhone presidencial.

Desconfiado, Breno pediu para falar e a voz era muito parecida. Resolveu arriscar - quem quer criar inimizade com o cara que controla a Receita e a Polícia Federal? - mas só se convenceu quando entrou no avião presidencial.

Missão diplomática para destravar IPhones

Breno tinha rejeitado duas vezes o convite do Governo de Angola para viajar ao país para atender à solicitação presidencial.

Um dia, chegando para trabalhar, ele encontra a rua interrompita pela Polícia Federal. E a movimentação está justamente na porta do prédio onde ficava o escritório.

Receoso de ter infringido alguma lei, Breno ligou para a portaria e foi informado que o presidente angolano estava esperando para ser atendido.

O Presidente de Angola cruzou o Oceano Atlântico, veio em comitiva para São Paulo, só para destravar 17 aparelhos para ele e para assessores.

Sociedade do espetáculo

A fama do ex-técnico de informática se espalhava e começaram a aparecer convites para participar de eventos internacionais.

Aceitou ir a Barcelona apenas como visitante para o GSM Mobile World Congress.

O estande mais popular era o da Nokia, que estava apresentando seu novo aparelho, o N96.

Breno estava admirando um IPhone gigante no estande da Apple quando encontrou com um alto-executivo da operadora Vivo.

Quando caiu a ficha, Breno estava fazendo uma demonstração pública de destravamento do IPhone. A ação era transmitida para telões do lado de fora do estante e em minutos, a multidão da loja da Nokia se transferiu para a da Apple.

Depois de fazer o primeiro, outros pedidos foram aparecendo. Ele destravou, nesse dia, mais de duzentos telefones, e só parou porque já não sentia os dedos, o que aumentava o risco de estragar aparelhos.

Parceiro da Apple

Esses foram alguns dos casos que ele contou para deleite da pequena platéia do MobileCamp no último sábado.

E se ele tivesse o dia inteiro, provavelmente teríamos ouvido outras histórias parecidas, como a vez em que o piloto Michael Schumacher mandou seu jatinho para levá-lo encontrá-lo no Desafio Internacional das Estrelas, uma prova de kart que reúne as estrelas do automobilismo em Florianópolis, SC.

Destravou o aparelho, assistiu o espetáculo e saiu de lá com mil dólares mais um capacete e um macacão.

Assistiu shows de camarote, foi o primeiro no mundo a destravar outras versões do aparelho, ganhou um desafio do Steve Jobs e foi citado nominalmente em uma apresentação dele.

Recebeu a visita de representantes da Apple na madrugada, a serviço do presidente da empresa, para confirmar que o procedimento para fazer o destravamento não era ilegal. E não era.

Seu parceiro americano Geo Hot também não está mal. Depois de receber uma oferta milionária para trabalhar na segurança do IPhone, aceitou a proposta do Google para ganhar US$ 16 milhões por ano para desenvolver o Android, o sistema operacional mobile da empresa.

Já o Breno finalmente cumpriu a promessa feita à sua mãe e já não destrava IPhones. É que ele se tornou parceiro da empresa e sua FingerTips está desenvolvendo aplicativos para IPhone.




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