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entrevista | Não Zero

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Da história da Internet à Antropologia Digital: entrevista para TV PUC

Em 2012, a convite do professor José Luiz Goldfarb, tive uma conversa relativamente longa gravada para o programa Nova Estella da TV PUC de São Paulo.

A primeira parte dessa conversa foi recém disponibilizada no YouTube - abaixo. Traz uma reflexão sobre o meu trajeto como profissional da indústria da Internet, o entendimento que fui formando sobre a história da Internet para chegar ao assunto principal da entrevista: o que a antropologia tem a contribuir para o entendimento da sociedade após a chegada da Internet.

Compartilho também impressões sobre o curso de mestrado em Antropologia Digital, criado em 2009 na University College London, do qual eu fui aluno.

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O que o Facebook tem de novo - ou de velho?

Na semana passada compartilhei alguns comentários com uma jornalista interessada em apurar uma notícia sobre a existência de um sistema parecido com o do Facebook utilizado no século 16. Como a maior parte desses comentários acaba não sendo aproveitado, aqui está a versão integral. (A versão que saiu impressa está em PDF e nao encontrei o link para a página na Web.)

Foi a partir dessa "conversa" que escrevi o post anterior sobre o que a anthropologia tem a dizer sobre a internet.

Você concorda com a comparação feita pela Royal Holloway University? Há semelhanças entre o Facebook e os grupos de relacionamento estabelecidos há muitos anos?

A gente relaciona internet com novidade, modernidade, futuro; mas a internet na verdade é apenas mais uma demonstraçao da vontade que a gente tem de estar com outras pessoas e de conversar. A gente associa a internet com modernidade e futuro porque até recentemente o computador e a conexao para se usar a internet eram coisas caras e difíceis de se ter; nem todo mundo entendia o valor, entao, a gente associou a internet aos nerds, aos geeks, essas pessoas que vivem no futuro. Mas mais recentemente o computador e a internet vem se integrando à mobilia das casas; é mais um elemento para comunicaçao. O motivo da curiosidade da notícia está em ela mostrar como a internet, na verdade, nao tem a ver com futuro, ela mostra só como a gente adora conversar. Então, respondendo diretamente à sua pergunta, sim, há semelhanças entre esse sistema de comunicaçao dos academicos antigos e o Facebook, da mesma maneira como há semelhança entre chats e conversas de bar, entre SMS (mensagens de texto por celular) e telegramas. A ideia de "rede social" não foi inventada por programadores junto com a internet; rede social, para as ciencias sociais, é a rede de relacionamentos que qualquer pessoa tem. Esse termo existe nas ciencias sociais há mais de um século. A internet apenas tornou isso mais explícito porque a gente pode "ver" o nosso perfil e "ver" as ligaçoes com os nossos amigos.

O Facebook é tratado muitas vezes como uma grande revolução que mudou a forma com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Mas o método é mesmo tão diferente, ou ele apenas se aproveita da internet para "formalizar" os costumes que já tínhamos há séculos, quando se tratava se conversar ou observar pessoas?

É isso: acho que muita gente vai concordar que o Facebook se parece muito com a vida em tribos indígenas. Antes do Face e antes de todo mundo ter entrado na internet, era muito mais fácil ter a vida da gente compartimentada: os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos do clube, a família, etc. A gente sabia gerir esses relacionamentos e tinha controle sobre como a gente se apresentava enquanto estivesse em contato com cada um desses grupos. Agora, de repente, todos esses grupos estao "perigosamente" juntos uns dos outros; o que voce fala no Face (ou o que falam de voce), o que voce publica ou publicam sobre voce fica exposto para outras pessoas verem. Se colocam uma foto comprometedora sua, a sua mae pode ficar sabendo, ou os seus colegas do trabalho e eventualmente o seu chefe. O Face traz essa experiencia de cidade do interior em que as pessoas veem umas às outras, ficam sabendo da vida umas das outras; é dai que vem a sensaçao de perda de privacidade. Entao, sim, um jeito interessante de se rever o Facebook e as redes sociais em geral é pensando em quanto elas estao nos levando de volta a um tipo de sociabilidade anterior à que a gente se acostumou a viver até recentemente; ele pode estar tornando a gente mais "tribal", mas nao "tribal" no sentido de gueto ou grupo separado e sim no sentido de ter todas as pessoas que fazem parte da minha vida existindo no mesmo ambiente.

Você consegue ver uma relação entre os métodos que eles usavam e as ferramentas existentes hoje na internet? Algo como acadêmicos = membros de uma comunidade / atividades = jogos online / yearbooks = timeline? Os métodos mudaram ao longo dos anos, ou eles apenas ganharam nomes novos ao longo dos anos? Há coisas que se fazia na época e que não se faz hoje, e vice-versa?

A relaçao entre a internet e esse mundo academico, da ciencia da informaçao, não está apenas aí. Veja o Google: a ideia que diferenciou a busca do Google é a mesma usada na biblioteconomia para dar reputaçao a publicaçoes academicas. A pagina que aparece em destaque na pesquisa do Google é aquela que tem mais links apontando para ela; se mais pessoas "citam" (linkam) para uma página, ela ganha pontos e sobe na lista do Google. O mesmo acontece com artigos academicos: o intelectual e sua produçao sao avaliados pelo numero de publicaçao em revistas cientificas e pelo impacto dessas publicaçoes, ou seja, no numero de citacoes feitas em publicacoes futuras para os artigos dessa pessoa. Não existe um inventor para a internet - houve inventores para determinados elementos da internet - porque ela "aconteceu"; era um projeto do Departamento de Defesa dos EUA para computadores trocarem dados entre si até o momento em que um engenheiro, extra-oficialmente, instalou um programinha de email. Em menos de dois anos, 3/4 do fluxo de dados era constituido por mensagens enviadas. Ninguem inventou a internet como ninguem inventou uma lingua ou uma cultura: isso é consequencia do nosso desejo de comunicaçao e das maneiras que a gente encontra para fazer isso.

Você consegue imaginar esses acadêmicos usando o Facebook hoje, um ambiente tomado por vídeos do YouTube, depoimentos emocionais e memes? O Facebook é uma ferramenta que poderia ter os mesmos "poderes" das academias, para a disseminação do conhecimento e colaboração científica?

Nao preciso imaginar. Sou pesquisador e participo de vários grupos relacionados a pesquisa via Facebook. A questao é olhar para o Facebook não como se ele fosse igual para todo mundo, mas como se ele fosse uma espécie de casa e bairro. Voce mora em um bairro (rede de amigos) e decora a sua casa (perfil, time line) com as coisas que voce quer. A estrutura é criada a partir da motivação. Conheço vários academicos importantes que se comunicam intensamente via Facebook. Da mesma maneira como a internet ja nao é um playground de nerds e geeks, as redes sociais já nao sao o pátio da escola de adolescentes. Todo mundo está la dentro, de pobres a milionários, de funcionários publicos a empresários, de crianças a pessoas de todas as idades. E cada um constroi a sua internet a partir dos valores e do entendimento que tem sobre o mundo e sobre a ferramenta. Alem disso, existem redes sociais para utilizaçao para fins especificos. Uma das mais famosas para fins cientificos é a Academia.edu.

Assim como as academias foram substituídas até chegarmos ao Facebook, você prevê outro tipo de rede social conquistando o público em breve? Como ela seria?

Acho que a academia nao substituiu o Facebook. A academia é um tipo de ambiente social, com uma determinada finalidade, onde as pessoas trabalham em seus projetos, mas tambem se divertem, brincam, fazem piada. O mesmo pode ser dito sobre o ambiente das redaçoes dos jornais. Já trabalhei como jornalista e sei que as redaçoes, alem de serem um espaço de trabalho, tambem sao ambientes divertidos e ricos em trocas de ideias e humor. Meu ponto é que nao dá para comparar Facebook com Academia porque sao elementos de categorias diferentes. Dá para comparar o Face com espaços sociais como um bairro ou um condominio; sao espaços neutros até que as pessoas que moram neles criam os significados do espaço a partir da convivencia que elas têm entre si.

Na sua opinião, as pessoas têm essa necessidade de criar meios que facilitem a interação social? Por quê?

Porque se nao a vida seria muito silenciosa e solitaria :-)

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Sobre antropologia e internet e assuntos relacionados; reciclando conversas

Na linha do nada se perde, tudo se recicla... No fim do ano passado respondi a algumas perguntas enviadas por jornalistas da revista TPM. Ainda nao recebi o link, mas logo deve chegar e incluirei. Como eu não tenho tido chance de escrever com mais frequencia sobre as coisas que venho vivendo e pensando e como, no caso dessas entrevistas, uma parte pequena das respostas é aproveitada, vou publicar aqui o conteúdo integral "a quem possa interessar".

As questoes sao sobre vários temas: valor de se estudar tecnologia como antropólogo, influencia da internet na sociedade, valor de gestos como o "curtir" no Facebook, popularidade do Instagram, estudo sobre engajamento e participaçao política pelas redes, bullying pela internet e se a internet aumenta a felicidade das pessoas. Ou seja, tem um pouco de tudo.

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Íntegra da entrevista com Jurema, participante da Wikipédia em português

Esta é a íntegra da entrevista com a Jurema Oliveira, participante da comunidade lusófona da Wikipédia. Volte ao artigo principal com o resumo dos assuntos debatidos nesta conversa.

Queria começar sabendo a que voce se dedica profissionalmente hoje.

Atualmente trabalho como promotora de vendas para uma agência contratada por grandes empresas para atuar em redes de supermercados. Sou aposentada e complemento minha renda com esse serviço.

Na primeira semana de trabalho, pensei que fosse morrer. Tomava Dorflex todos os dias para aliviar a dor dos braços e das pernas, mas como nosso corpo acostuma com tudo, na segunda semana não precisei mais, e descobri que era exatamente o que eu estava precisando.

Levanto às 5:30, tomo um banho, café da manhã e saio para pegar o primeiro ônibus, depois o segundo. Quando desço, ando um quilômetro à pé até chegar no primeiro supermercado onde fico até às 10:00. Pego dois ônibus e vou para o outro supermercado, trabalho um pouco, tenho uma hora de almoço e termino meu turno às 15:00 horas.

Já estou nesse emprego há 9 meses, experiência inédita pra mim. Estou fazendo coisas que nunca pensei em fazer na vida, estou aprendendo muita coisa nova e conhecendo pessoas que tempos atrás eu nem notava que existiam. Detalhe, não preciso pagar academia de ginástica, nem psicólogo, estou me fortalecendo física e mentalmente com esse trabalho.

O que voce fazia antes de se aposentar?

Já fiz de tudo um pouco. Comecei a trabalhar aos 13 anos na cartonagem de uma fábrica de perfumes. Depois em uma fábrica de camisas, balconista de loja, com 18 anos entrei na Prefeitura de São Paulo onde trabalhei na contabilidade das finanças 20 anos, paralelamente trabalhei na Servimec como operadora de computadores Ecodata.

Recebi uma proposta indecente para ganhar 10 vezes o que ganhava na prefeitura.Pedi exoneração do cargo e aceitei, fui ser gerente administrativa de uma rede de postos de gasolina e uma construtora. Depois de 4 anos e meio, pedi para ser mandada embora para resolver problemas pessoais.

Depois de resolver meus problemas pessoais, tentei de várias formas voltar ao mercado de trabalho mas não consegui, primeiro por causa da idade, já tinha passado dos quarenta, e segundo por que não terminei a faculdade. Nos últimos anos tenho encontrado empregos para ganhar bem pouco, mas dá para sobreviver.

Como foi a sua descoberta da wikipedia?

Já estou na internet desde o início. Fazia sites sobre candomblé. Muitos nem existem mais. Além das páginas, sempre participei de grupos de discussão sobre candomblé, por fazer parte da religião desde 1975. Conheci a Wikipédia fazendo buscas pelo Google. Resolvi consultar a palavra "candomblé" e não tinha nenhum artigo na Wikipédia. Isso foi em 2004. Resolvi escrever algumas linhas e criar o artigo. No começo, tive alguma dificuldade porque achava que usava-se a linguagem html para editar as páginas, mas aos poucos fui aprendendo.

Você sempre gostou de ler e escrever? Em que medida a sua participação voluntária como editora aumentou o seu domínio da língua escrita?

Sempre gostei de ler e escrever, mas não é qualquer livro ou texto que prende minha atenção. Aprendi muita coisa na Wikipédia e acho que melhorei minha forma de escrever. Estava acostumada com o "internetês", mas, aos poucos, fui me forçando a usar a escrita mais formal, para poder editar os artigos. Nas discussões sobre os artigos, relaxo um pouco e às vezes rodo a baiana. Sou conhecida como briguenta.

Como era a comunidade de editores wikipedistas falantes do português quando você começou em relaçao a como ela é hoje?

Quando comecei, encontrei uma comunidade acolhedora e amigável com novatos. Tive orientação de quase todos os veteranos. Cada artigo que eu editava logo em seguida recebia mensagem de alguém me parabenizando pelo trabalho e avisando a correção que tinha feito e o motivo. A minha primeira página de discussão pode confirmar isso.

A quantidade de editores era menor que hoje, mas na época o objetivo de todos era o mesmo: o crescimento da Wikipédia em quantidade de artigos. Os menos experientes criavam [artigos] "mínimos" http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:M%C3%ADnimo e esboços e os veteranos verificavam e faziam os artigos maiores. Existia os mesmos problemas de hoje, mas em número bem menor.

Com o tempo o número de editores aumentou bastante; o número de IPs acessando as páginas, de vândalos e de discussões sobre normas ortográficas também cresceram. Muitos dos veteranos da época saíram de cena por vários motivos.

Com a entrada de novos editores, houve uma modificação nas prioridades: novas ideias, novas filosofias. O antigo se tornou obsoleto, conflitos de ideias conservadoras com as inovadoras, disputas por títulos de artigos entre portugueses e brasileiros foram motivo para discussões de várias páginas. Os eventos do Acordo Ortográfico mobilizaram muitas páginas de discussão e diversos debates entre inclusionistas e delecionistas http://pt.wikipedia.org/wiki/Delecionismo_e_inclusionismo_na_Wikip%C3%A9dia para manter ou eliminar artigos.

Não dá para fazer uma comparação entre a comunidade do passado e a do presente. A Wikipédia é a mesma, mas são outras pessoas e quanto mais pessoas, maior é o número de ideias a serem discutidas, e mais trabalho a ser feito.

Como é a sua rotina de trabalho hoje na Wikipédia?

O tempo que dedico à Wikipédia é bem variado. Atualmente edito bem menos que antes, cerca de três à cinco horas por dia, dependendo dos meus compromissos. Às vezes passo dias sem editar nada. Quando fui administradora http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Administradores de 2004 à 2008, tinha outras tarefas e uma participação maior. Desempregada, eu tinha todo o tempo só para a Wikipédia.

Comecei editando sobre candomblé, depois passei a editar todo e qualquer artigo sobre coisas conhecidas. Faço correções, traduzo, faço predefinições, categorização, participo das discussões que envolvem mudanças ou páginas para eliminar, acompanho as discussões da Esplanada http://wikimedia.pt/Esplanada , mas participo pouco.

Os temas que mais edito são geografia, história, ciências, religião. Não gosto de editar biografias, mas adoro quebrar a cabeça com tabelas feitas com predefinição como esta http://pt.wikipedia.org/wiki/Predefini%C3%A7%C3%A3o:Artigos_sobre_divis%... . Quanto mais complicadas, melhor. No início, fiz muitos esboços sobre lugares, prédios e faculdades de São Paulo. Carreguei imagens no Commons http://commons.wikimedia.org/wiki/Main_Page . Muitas foram apagadas por não estarem de acordo com as regras de lá, mas ainda ficaram muitas.

Você acha que existe um momento desfavorável aos delecionistas?

Sim, o momento está um pouco desfavorável para o delecionistas em virtude de discussões anteriores. Eles andaram colocando para exclusão em massa artigos inclusive com referências de bairros, shoppings, times de futebol, bandas de rock, biografias. Um colocava a tag "ESR" (Eliminação Semi-Rápida) http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:ESR e eliminadores apagavam. Outras foram para "PE", que é a indicação para que os editores votem se o artigo deve ser apagado. Deu muita confusão. Veja as discussões que ainda estão em aberto http://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Eventos_atuais .

Você entende que delecionistas e inclusionistas têm argumentos válidos para defender suas posições?

Concordo, mas o que está acontecendo é um exagero delecionista, beirando ao vandalismo. Tenho a seguinte opinião: os artigos pequenos são insignificantes para os doutores, mas podem ser um grande orgulho para quem os fez. A pessoa que tiver um artigo eliminado tende a desistir, perde o interesse e vai para o Facebook, ao passo que, se for incentivado a continuar editando e sendo orientado, permanecerá.

Este é um exemplo do que combato. Acabei de fazer o artigo sobre uma sacerdotiza do candomblé chamada Maria Emiliana Piedade dos Reis http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Emiliana_Piedade_dos_Reis ontem a noite, incluindo no artigo fontes impressas de livros acadêmicos e poucas horas depois ela já está na lista para Eliminação Sime-Rápida. Por que? Por se tratar de pessoa do candomblé? Por ser negra a biografada? É relevante, é notória e é verificável conforme as fontes, então, qual é o problema? O artigo acabou sendo mantido, mas precisei começar mais uma briga http://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o:Maria_Emiliana_Piedade_dos_Reis . O usuário ocasional ou inexperiente provavelmente não vai ter a mesma disposição para fazer isso. Com uma "recepção" dessas, quem não vai desistir?

Será que esses artigos pequenos não seriam apenas um dano colateral da atividade essencial (e muito desgastante e cansativa de ser feita) de policiar a Wikipédia contra ataques de vândalos e tentativas de manipulação de informação? Metaforicamente falando: a deleção rápida seria o antibiótico necessário para curar a doença, mesmo provocando outros problemas no organismo?

Não! Acho que poderia existir uma outra forma de lidar com o problema. Por exemplo: só deveriam aparecer nas pesquisas do Google artigos verificados e aceitos. Outros artigos seriam visíveis apenas pelos editores; quem está logado, vê todos os artigos e pode editá-los, corrigi-los até que chegue a ser pelo menos um mínimo ou esboço verificado, sem erros, com referências. Enquanto isso, poderiam ser analisados, se for caso de vaidade [a pessoa escrever sobre ela mesma], conversar com o editor e explicar o que está fazendo não é aceito, etc. Restariam só os casos de palavrões, brincadeiras, vandalismo que já são eliminados de imediato.

Você pode comentar sobre as tensões entre a comunidade lusitana e a brasileira? Quais são os principais pontos de atrito?

Muitos foram os casos que estive envolvida nessas tensões. Eles escrevem no português europeu e os brasileiros como a nossa versão da língua, os angolanos no português africano. Houve muitas discussões sobre isso. Tentou-se fazer normas para decidir, mas até para discutir as normas tinha briga. Uma delas foi sobre o nome dos países como, por exemplo: Irã e Irão. Toda palavra que termina em "an ou ã" os portugueses mudam para "ão". Chegamos a fazer acordos de se colocar na primeira linha do artigo as duas formas de escrita. Isso resolveu uma parte do problema. Mas o problema maior são os títulos do artigo: quem cria o artigo, escreve como é de seu costume e é proibida a mudança de uma versão para outra. Você sabe o que é "Naquichevão"? é a cidade "Nakhichevan" do Azerbaijão. Como uma criança brasileira vai encontrar essa cidade e outras no mapa? O mesmo ocorre com palavras brasileiríssimas que vão trazer problemas nas escolas de Portugal. Os africanos adoram nosso brasileirismo e até adotam algumas palavras. A tensão é mesmo entre lusitanos e brasileiros. Uma das discussões foi esta e eu perdi feio. http://pt.wikipedia.org/wiki/Discussão:Mascate

O termo "delecionismo" é uma forma de tratamento que pode ser considerada ofensiva pelos que defendem a prática?

Acho que ofensiva não, mesmo por que os delecionistas escolheram essa posição na comunidade e entre eles se orgulham disso. São tribos opostas e, logicamente, cada um é a favor do seu partido. (Usei a referência a partidos políticos figurativamente, assim como poderia ter usado times de futebol. O que acontece com quem entra de camisa verde no meio da torcida do Corinthians!?) O outro lado carrega a bandeira de delecionista com orgulho e os que tiveram artigos eliminados querem fritá-los, claro!

Existem pessoas moderadas, que tentam manter o equilíbrio, outras não conseguem e extrapolam. Além disso, o delecionismo pode ser perigoso no momento em que é movido por paixões, bairrismo, preconceito, religião de mais ou de menos, fanatismo, patriotismo exagerado, perfeccionismo exagerado. Isso tudo não da tempo de ser analisado por quem usa ferramentas rápidas como Huggle e Wab http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:Huggle. Existe a função de eliminador e de administrador que precisam analisar caso por caso e não simplesmente ir apagando sem sequer ler uma linha do artigo.

Você acha que neste momento, pelos exemplos que você apresentou, que o delecionismo está cambaleante e que a comunidade está tomando partido do inclusionismo?

Acho que "cambaleante" não é o termo certo. Eles sempre vão existir, porém, agindo com mais cautela, por que agora tem muita gente de olho neles. A comunidade está insatisfeita, sim. Os participantes estão tomando partido do inclusionismo, e usuários com histórico de intransigência nesse aspecto, que apagam tudo aquilo que não gostam, estão sendo mais observados.

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Wikipédia: um mundo dentro do mundo e as tensões para que ele exista

A Wikipédia é um mundo à parte, dada a complexidade da operação e o fato de esse projeto acontecer prioritariamente pela participação de voluntários. Só quem chega perto percebe isso de verdade.

Quantas pessoas refletem, ao acessar um artigo dessa enciclopédia, sobre a teia de negociações e de esforços que está por trás de sua existência? E quantos se dão ao trabalho de imaginar quem são os protagonistas desse projeto? Como a gente imagina que eles sejam e como eles são de verdade?

Pedi para entrevistar a Jurema por ela não se encaixar na imagem desse internauta típico e estereotipado a quem creditamos muito do que acontece nos bastidores da internet. Mas o assunto principal da nossa conversa foi a polarização dos wikipedistas entre aqueles que defendem filtros rigorosos para a entrada de conteúdo e os opositores a essa visão que denunciam uma postura anti-democrática e até racista na lógica usada para aprovar ou apagar contribuições.

A entrevista aconteceu ao longo de um mês e consumiu mais de cinquenta emails trocados. Você pode escolher ir direto à íntegra da entrevista ou ler a síntese dos assuntos principais indicados pelos links neste texto.

Aproveito a ocasião para mencionar o nome de Pietro Roveri, um wikipedista engajado e com atuação intensa como participante da comunidade e estudioso do tema Wikipédia, que faleceu enquanto esta entrevista estava sendo produzida.

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Facebook versus Email: Notas sobre técnicas de condução de entrevista online

Estou entrevistando para este blog duas pessoas com práticas relevantes na internet. Não vou falar sobre isso agora, mas sobre a maneira como estou conversando com cada uma.

A primeira tem 14 anos. Perguntei à irmã dela - que nos apresentou - se ela usava email. A resposta me deixou pensativo: "ela acha que sabe".

É que, para esse grupo, o email é uma espécie de comprovante de residência virtual, um instrumento com função apenas burocrática que serve quase exclusivamente para a inscrição em serviços online.

É interessante considerar o que há de diferente entre o email e o Facebook, que é a central de comunicação para adolescentes conectados.

Ambos são ferramentas sociais de comunicação, mas o email privilegia o contato de um para um. Ele cobra um custo alto de atenção porque as mensagens tendem a ser escritas individualmente para serem lidas apenas pelo interlocutor em questão.

O Facebook inverte essa lógica. É possível conversar individualmente com alguém lá dentro, mas esse não é o atrativo principal da ferramenta e sim as mensagens genéricas que demandam pouca ou nenhuma atenção. Como a mensagem não é para ninguém em específico, há menor expectativa de resposta.

Sinto a diferença do efeito das duas ferramentas no resultado das conversas que estou tendo.

Na entrevista por email, posso mandar várias perguntas porque a minha interlocutora dará, quando puder, atenção integral à tarefa de me responder. Trocamos mensagens relativamente longas.

A minha outra entrevistada responde às minhas perguntas ao mesmo tempo em que faz muitas outras coisas. Comenta, cutuca, compartilha. O resultado é que estou me condicionando a mandar uma pergunta por vez para não pedir demais de sua atenção inquieta.

Em breve, publicarei o resultado das entrevistas e vamos ver como o uso de plataformas diferentes implicará em diferenças na particpação de cada uma.

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Como pedir uma entrevista ou como perder uma oportunidade

Esses dias vi a Ana Brambilla dando um toque pelo Twitter sobre a maneira como ela gostaria de ser abordada por estudantes que interessados em entrevista-la para trabalhos universitários - aqui e aqui.

Recebi hoje uma solicitacao parecida. Primeiro eu pensei em ignora-la, depois achei que podia responder, mas com a mesma falta de empolgação demonstrada pelo estudante. Mas acabei respondendo de outro jeito, não com o conteúdo esperado, mas dizendo como eu gostaria de ter sido abordado.

Incluí abaixo versões editadas da minha mensagem de resposta, depois uma proposta indicando o que uma solicitação como esta poderia conter e, finalmente, o texto adaptado do email que recebi, omitindo os nomes das pessoas citadas e da instituição.

Estou compartilhando essa experiência aqui para deixar como referência para, quem sabe, ele servir para algum tipo de conversa produtiva em sala de aula.

Se você tentou fazer uma entrevista dessa forma e o entrevistado não aceitou ou nem se deu ao trabalho de responder, talvez não seja falta de sorte nem desinteresse ou descaso. Se somos procurados para ajudar ou apoiar, não queremos nos sentir como se tivéssemos a obrigação de fazer isso.

Minha resposta

Caro Fulano, vou te dar um feedback que talvez voce nem esteja interessado em ouvir. Mas talvez esteja e eu estou apostando nisso.

do jeito que voce escreveu, tive duas impressoes:

1) de que você poderia ter encontrado muito do que me pede para responder fazendo uma pesquisa rápida na internet

2) e que, portanto, você não está muito interessado nas minhas respostas, quer cumprir uma solicitação - um pouco na linha daquelas pesquisas escolares em que a gente copia maquinalmente o texto da enciclopédia

Veja a seguir uma proposta de mensagem mais simpatica e interessada.

abraços

Sugestao de mensagem

caro juliano, como vai? eu sou o Fulano e estou te escrevendo por conta de um trabalho assim e assim para a disciplina tal. a proposta do trabalho é tal e acho que com a sua participaçao o resultado pode ficar mais bacana por isso e isso.

estou contatando voce, mas ja fiz uma pesquisa sobre o assunto sobre o qual quero falar. vi que voce fez tal e tal coisas, o que me fez pensar nisso e naquilo. isso que voce fez me levou a deduzir tais e tais coisas. o que voce acha? faz sentido?

imagino que voce tambem trabalhe e tenha outras prioridades, entao, queria saber se voce pode me responder até a data tal. se nao puder, me avise para eu pensar em outras possibilidades.

muito obrigado pela atençao. um abraço - Fulano

A mensagem recebida

Olá Juliano,

Meu nome é Fulano, estudante de comunicacao na Universidade tal, estou desenvolvendo um trabalho para uma disciplina do Prof. Sicrano, sobre o ebook Para Entender as Mídias Sociais, tenho alguma perguntas que eu gostaria que você respondesse:

1 - Qual sua área de estudo e qual sua contribuição na contrução do livro?

2- Quais as vantagens e desvantagens em produzir um livro como o Para Entender as Mídias Sociais em versão digital, gratuito e com tantos autores?

3- Qual a contribuição que este livro trás aos estudos sobre mídias sociais?

Muito obrigado, Fulano.

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Faz sentido tuitar por SMS no Brasil? - exemplo de uma reportagem que substitui entrevista por conversa

O que voce vai ver a seguir exemplifica como dá para montar um texto substituindo a entrevista pela conversa.

O Twitter surgiu nos EUA para facilitar que grupos de conhecidos conversassem entre si - posto de outra forma, eles estava explorando o promissor filão resultante do cruzamento entre sites de redes sociais e plataformas móveis. Nesse contexto, ao invés de mandar o mesmo SMS para todo mundo, você mandava um SMS e a mensagem ficava publicada na Web para todos lerem. Faz todo o sentido e, no entanto, eu nunca tinha ouvido falar de pessoas que usassem SMS para atualizar o Twitter aqui no Brasil. Resolvi perguntar: voce acha que teria alguma vantagem mandar e receber updates pro Twitter via SMS? #duvida. (Continue lendo.)

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Marcelo Camelo fala sobre internet e cultura; eu fui a 1999 e voltei para a Virada Cultural

Esse último sábado, eu estava no centro de São Paulo, eu e a Tati, já era madrugada, milhares de pessoas, tribos misturadas, carecas e cabeludos, um festa popular, assistindo o show do Marcelo Camelo na Virada Cultural. Fiquei admirando o improvável, aquele cara meio desengonçado, finão, acompanhado de uma banda sofisticada, que passava na mesma canção da melodia de caixinha de música para solos abstratos, um trompetista muito do abusado, a voz dele Camelo às vezes encharcando tudo, uns timbres raros, desafinado, gritado, folk, sendo assistido por uma molecada, garotada de faculdade, que literalmente entrava em extase durante algumas canções. Um cara atrás de mim gritava, como se estivesse possuído: "CARALEO!", dava saltos e repetia "CARALEO!", várias vezes, falando sozinho. (Continue lendo.)

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Brincando de Roberto Marinho (ou "Sejamos imperialistas! Cadê?")

Esses dias, participei de um evento apresentado pelo Marcelo Tas e ele falou sobre como a internet, para ele, é como brincar de Roberto Marinho. Ele falou isso se referindo a como, quando ele começou a trabalhar com comunicação, era complicado e caro falar com audiências.

Depois de todo o buzz da Web 2.0 se espalhar pelo mundo, é até chavão dizer que a internet abriu oportunidades infinitas, revolucionárias. Mas o Tas falava de como isso ainda é pouco explorado e de como existem possibilidades de combinar serviços gratúitos para testar os limites dessa plataforma.

Estou dizendo isso para convidar quem quiser / se interessar para brincar de Roberto Marinho de uma maneira diferente, que está saindo do forno do nosso Talk Labs e que se chama Talk Show. A brincadeira consiste em participar de uma conversa em rede, descentralizada e auto-organizada, realizada a partir de um streaming de audio.

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