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antropologia digital | Não Zero

antropologia digital

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Da história da Internet à Antropologia Digital: entrevista para TV PUC

Em 2012, a convite do professor José Luiz Goldfarb, tive uma conversa relativamente longa gravada para o programa Nova Estella da TV PUC de São Paulo.

A primeira parte dessa conversa foi recém disponibilizada no YouTube - abaixo. Traz uma reflexão sobre o meu trajeto como profissional da indústria da Internet, o entendimento que fui formando sobre a história da Internet para chegar ao assunto principal da entrevista: o que a antropologia tem a contribuir para o entendimento da sociedade após a chegada da Internet.

Compartilho também impressões sobre o curso de mestrado em Antropologia Digital, criado em 2009 na University College London, do qual eu fui aluno.

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O que o Facebook tem de novo - ou de velho?

Na semana passada compartilhei alguns comentários com uma jornalista interessada em apurar uma notícia sobre a existência de um sistema parecido com o do Facebook utilizado no século 16. Como a maior parte desses comentários acaba não sendo aproveitado, aqui está a versão integral. (A versão que saiu impressa está em PDF e nao encontrei o link para a página na Web.)

Foi a partir dessa "conversa" que escrevi o post anterior sobre o que a anthropologia tem a dizer sobre a internet.

Você concorda com a comparação feita pela Royal Holloway University? Há semelhanças entre o Facebook e os grupos de relacionamento estabelecidos há muitos anos?

A gente relaciona internet com novidade, modernidade, futuro; mas a internet na verdade é apenas mais uma demonstraçao da vontade que a gente tem de estar com outras pessoas e de conversar. A gente associa a internet com modernidade e futuro porque até recentemente o computador e a conexao para se usar a internet eram coisas caras e difíceis de se ter; nem todo mundo entendia o valor, entao, a gente associou a internet aos nerds, aos geeks, essas pessoas que vivem no futuro. Mas mais recentemente o computador e a internet vem se integrando à mobilia das casas; é mais um elemento para comunicaçao. O motivo da curiosidade da notícia está em ela mostrar como a internet, na verdade, nao tem a ver com futuro, ela mostra só como a gente adora conversar. Então, respondendo diretamente à sua pergunta, sim, há semelhanças entre esse sistema de comunicaçao dos academicos antigos e o Facebook, da mesma maneira como há semelhança entre chats e conversas de bar, entre SMS (mensagens de texto por celular) e telegramas. A ideia de "rede social" não foi inventada por programadores junto com a internet; rede social, para as ciencias sociais, é a rede de relacionamentos que qualquer pessoa tem. Esse termo existe nas ciencias sociais há mais de um século. A internet apenas tornou isso mais explícito porque a gente pode "ver" o nosso perfil e "ver" as ligaçoes com os nossos amigos.

O Facebook é tratado muitas vezes como uma grande revolução que mudou a forma com que as pessoas se relacionam umas com as outras. Mas o método é mesmo tão diferente, ou ele apenas se aproveita da internet para "formalizar" os costumes que já tínhamos há séculos, quando se tratava se conversar ou observar pessoas?

É isso: acho que muita gente vai concordar que o Facebook se parece muito com a vida em tribos indígenas. Antes do Face e antes de todo mundo ter entrado na internet, era muito mais fácil ter a vida da gente compartimentada: os amigos da faculdade, os amigos do trabalho, os amigos do clube, a família, etc. A gente sabia gerir esses relacionamentos e tinha controle sobre como a gente se apresentava enquanto estivesse em contato com cada um desses grupos. Agora, de repente, todos esses grupos estao "perigosamente" juntos uns dos outros; o que voce fala no Face (ou o que falam de voce), o que voce publica ou publicam sobre voce fica exposto para outras pessoas verem. Se colocam uma foto comprometedora sua, a sua mae pode ficar sabendo, ou os seus colegas do trabalho e eventualmente o seu chefe. O Face traz essa experiencia de cidade do interior em que as pessoas veem umas às outras, ficam sabendo da vida umas das outras; é dai que vem a sensaçao de perda de privacidade. Entao, sim, um jeito interessante de se rever o Facebook e as redes sociais em geral é pensando em quanto elas estao nos levando de volta a um tipo de sociabilidade anterior à que a gente se acostumou a viver até recentemente; ele pode estar tornando a gente mais "tribal", mas nao "tribal" no sentido de gueto ou grupo separado e sim no sentido de ter todas as pessoas que fazem parte da minha vida existindo no mesmo ambiente.

Você consegue ver uma relação entre os métodos que eles usavam e as ferramentas existentes hoje na internet? Algo como acadêmicos = membros de uma comunidade / atividades = jogos online / yearbooks = timeline? Os métodos mudaram ao longo dos anos, ou eles apenas ganharam nomes novos ao longo dos anos? Há coisas que se fazia na época e que não se faz hoje, e vice-versa?

A relaçao entre a internet e esse mundo academico, da ciencia da informaçao, não está apenas aí. Veja o Google: a ideia que diferenciou a busca do Google é a mesma usada na biblioteconomia para dar reputaçao a publicaçoes academicas. A pagina que aparece em destaque na pesquisa do Google é aquela que tem mais links apontando para ela; se mais pessoas "citam" (linkam) para uma página, ela ganha pontos e sobe na lista do Google. O mesmo acontece com artigos academicos: o intelectual e sua produçao sao avaliados pelo numero de publicaçao em revistas cientificas e pelo impacto dessas publicaçoes, ou seja, no numero de citacoes feitas em publicacoes futuras para os artigos dessa pessoa. Não existe um inventor para a internet - houve inventores para determinados elementos da internet - porque ela "aconteceu"; era um projeto do Departamento de Defesa dos EUA para computadores trocarem dados entre si até o momento em que um engenheiro, extra-oficialmente, instalou um programinha de email. Em menos de dois anos, 3/4 do fluxo de dados era constituido por mensagens enviadas. Ninguem inventou a internet como ninguem inventou uma lingua ou uma cultura: isso é consequencia do nosso desejo de comunicaçao e das maneiras que a gente encontra para fazer isso.

Você consegue imaginar esses acadêmicos usando o Facebook hoje, um ambiente tomado por vídeos do YouTube, depoimentos emocionais e memes? O Facebook é uma ferramenta que poderia ter os mesmos "poderes" das academias, para a disseminação do conhecimento e colaboração científica?

Nao preciso imaginar. Sou pesquisador e participo de vários grupos relacionados a pesquisa via Facebook. A questao é olhar para o Facebook não como se ele fosse igual para todo mundo, mas como se ele fosse uma espécie de casa e bairro. Voce mora em um bairro (rede de amigos) e decora a sua casa (perfil, time line) com as coisas que voce quer. A estrutura é criada a partir da motivação. Conheço vários academicos importantes que se comunicam intensamente via Facebook. Da mesma maneira como a internet ja nao é um playground de nerds e geeks, as redes sociais já nao sao o pátio da escola de adolescentes. Todo mundo está la dentro, de pobres a milionários, de funcionários publicos a empresários, de crianças a pessoas de todas as idades. E cada um constroi a sua internet a partir dos valores e do entendimento que tem sobre o mundo e sobre a ferramenta. Alem disso, existem redes sociais para utilizaçao para fins especificos. Uma das mais famosas para fins cientificos é a Academia.edu.

Assim como as academias foram substituídas até chegarmos ao Facebook, você prevê outro tipo de rede social conquistando o público em breve? Como ela seria?

Acho que a academia nao substituiu o Facebook. A academia é um tipo de ambiente social, com uma determinada finalidade, onde as pessoas trabalham em seus projetos, mas tambem se divertem, brincam, fazem piada. O mesmo pode ser dito sobre o ambiente das redaçoes dos jornais. Já trabalhei como jornalista e sei que as redaçoes, alem de serem um espaço de trabalho, tambem sao ambientes divertidos e ricos em trocas de ideias e humor. Meu ponto é que nao dá para comparar Facebook com Academia porque sao elementos de categorias diferentes. Dá para comparar o Face com espaços sociais como um bairro ou um condominio; sao espaços neutros até que as pessoas que moram neles criam os significados do espaço a partir da convivencia que elas têm entre si.

Na sua opinião, as pessoas têm essa necessidade de criar meios que facilitem a interação social? Por quê?

Porque se nao a vida seria muito silenciosa e solitaria :-)

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Sobre antropologia e internet e assuntos relacionados; reciclando conversas

Na linha do nada se perde, tudo se recicla... No fim do ano passado respondi a algumas perguntas enviadas por jornalistas da revista TPM. Ainda nao recebi o link, mas logo deve chegar e incluirei. Como eu não tenho tido chance de escrever com mais frequencia sobre as coisas que venho vivendo e pensando e como, no caso dessas entrevistas, uma parte pequena das respostas é aproveitada, vou publicar aqui o conteúdo integral "a quem possa interessar".

As questoes sao sobre vários temas: valor de se estudar tecnologia como antropólogo, influencia da internet na sociedade, valor de gestos como o "curtir" no Facebook, popularidade do Instagram, estudo sobre engajamento e participaçao política pelas redes, bullying pela internet e se a internet aumenta a felicidade das pessoas. Ou seja, tem um pouco de tudo.

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Virtual Open Day do mestrado em Antropologia Digital da UCL

Durante muitos anos, eu acho, a melhor forma de se aprender sobre a Internet era se envolvendo com ela, arrumando um trabalho na area ou apenas passando horas "brincando" na rede. (Continua sendo, mas finalmente estao surgindo outras.)

Meu diagnostico precario eh que esta area de atuacao rompe a separacao tradicional das universidades e do conhecimento. A atuacao na internet envolve (pelo menos) duas coisas, um interesse por tecnologia - inclusive no sentido literal do termo, de fazer com as maos, de criar artesanalmente - e tambem por pessoas e grupos sociais.

Acho que eh por isso que a Internet nao foi inventada - outros inventos foram sendo apropriados, mas ninguem a anteviu - e tambem por isso que as universidades continuam tentando - para atender a demanda - criar cursos superiores nesse campo.

Quem estiver procurando um caminho menos obvio mas muito promissor - profissionalmente e em relacao a oportunidade de desenvolvimento intelectual - pode acompanhar o Open Virtual Day da University College London.

Sera uma sessao interativa de 1 hora em que os interessados - particularmente no curso de Antropologia Digital - poderao fazer suas perguntas aos professores e mestrandos.

Tem mais informacao aqui, horario, etc. Tambem no "reclame" abaixo.

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