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conceitual | Não Zero

conceitual

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Caetano e a "magia benigna da internet"

Quero aproveitar o post sobre o blog da Bethânia para falar da declaração - também muito criticada e ironizada na Web - feita pelo Caetano Veloso repercutindo essa mesma história. Ele disse:

"E essa história [de Bethânia] pode ser essa vontade de derrubar Ana porque acreditam demais na magia benigna da internet. É uma bolha mítica. Não é nada além disso. Há muita mitologia do novo mundo da internet, do admirável muito novo. É uma espécie de bolha conceitual. Sou velho o suficiente pra dizer que é bobagem."

Essa é um comentário tão incômodo quanto lúcido. Mas, em vez de defender esse comentário, vou primeiro citar um trecho escrito pelo Tim Wu, um pensador celebrado pelos maiores gurus da internet de hoje e que no ano passado publicou um livro chamado The Master Swith. Lessig descreveu esse livro como um "masterpiece", Chris Anderson o apontou como uma "leitura importante" e Shirky afirmou que essa obra "delineia o futuro da idade digital". Na introdução dessa obra, Wu diz o seguinte (tradução livre):

De fato, graças principalmente a este carácter aberto da Internet, tem tem se tornado um lugar-comum do início do século XXI pensar que, em matéria de cultura e de comunicação, a nossa seja uma época sem precedentes,
fora da história. … No entanto, quando olhamos atentamente para o século XX, podemos descobrir rapidamente que a Internet não foi a primeira tecnologia de informação a trazer a promessa de mudar tudo para sempre. ... Muitas e muitas vezes nos últimos cem anos, a mudança radical prometida por novas formas de receber informações parecereu, no mínimo, mais dramática do que hoje. Graças ao rádio, predisse Nikola Tesla, um dos pais da eletricidade comercial, em 1904, ‘a terra será transformada em um cérebro grande, como se fosse capaz de responder em cada uma de suas partes.’ A invenção do cinema, escreveu D.W.Griffith em 1920, significava que ‘as crianças nas escolas públicas aprenderiam praticamente tudo por imagens em movimento. Certamente eles não serão mais obrigados a ler história outra vez.’ Em 1970, um relatório da Sloan Foundation comparou o advento da televisão a cabo ao da dos tipo de móveis [de Guttenberg]: ‘a revolução agora à vista não será nada menos... pode eventualmente ser mais.’ Como um personagem de Tom Stoppard no livro A Invenção do Amor, [cuja história se passa] em 1876, comenta: 'Cada idade pensa que é a idade moderna, mas esta realmente é.’

Wu também é um entusiasta da Internet e escreveu esse livro porque quer preservá-la, mas tamb[em é lúcido ao reconhecer que várias gerações nos últimos cem anos viveram o período de deslumbre por uma tecnologia de comunicação. Mas para além da ideia da internet benigna, é importante localizar historicamente na Califórnia - dos caubóis, da corrida do ouro, da expansão americana - a origem desse discurso techno-utópico. É o lugar que concentra a expressão do liberalismo individualista e meritocrático dos Estados Unidos. (Esse foi um dos temas da minha contribução para o livro Para Entender as Mídias Sociais, lançado recentemente online.)

Tecno-utopia e o pensamento liberal

Considere o que a escritora americana Paulina Borsook chamou de "a verdadeira vingança dos nerds". Ela se refere ao o ambiente político que prevalece no Vale do Silício – a Meca do mundo digital – que, ao mesmo tempo em que abraça causas como direito ao aborto, casamento gay e descriminalização do uso de drogas, também repudia enfaticamente as práticas – consideradas assistencialistas - de subvenção e controle governamental. Isso se traduz, por exemplo, na crença de que o setor privado pode resolver tudo e que pesquisa acadêmica não pode ser avaliada no curto prazo pelo teste do mercado.

O vínculo da tecno-utopia com o pensamento liberal aparece com clareza, por exemplo, na recusa enfática de Lessig em aceitar que Kevin Kelly chame o que motiva o compartilhamento na internet de novo socialismo ou socialismo 2.0. Para Lessig, o que há de bom nesse chamado socialismo é produto das conquistas capitalistas como liberdade de expressão e direito à propriedade, práticas combatidas nos experimêntos de governos socialistas vistos no século 20.

Ao se abraçar a causa da internet, é importante perceber de que maneira o discurso da internet benigna se desenvolve a partir das noções do que é bom e justo forjadas no Ocidente nos últimos 200 anos. É importante ver que o que se percebe como sendo o ápice da socialização democrática do conhecimento é também o ápice do projeto capitalista - de suas conquistas e também de suas contradições. É importante ver o que está por trás do determinismo tecnológico embutido na percepção de que a internet provocará uma transformação benigna no mundo. Será que isso representa uma versão atualizada do racionalismo iluminista?

Manguezal de conceitos

Os gurus da internet dizem que ela precisa ser protegida, defendem a noção de o Estado e as velhas corporações conspiram para sequestrar da humanidade a oportunidade de democratizar o conhecimento, mas não vêem nada de errado nas grandes conferencias patrocinadas por multinacionais do setor que investem os tubos para manter o buzz sobre a internet redentora. Ouço falar sobre a fragilidade da internet e penso na quantidade de dinheiro e influência que têm hoje empresas como Facebook e Google, que há 15 anos não existiam. Enfim, há muitas áreas cinzentas nesse mangue conceitual e essas imprecisões acabam dando margem para o uso oportunista e não muito transparente.

Talvez a internet nao precise ser defendida porque ela não esteja sendo atacada. Talvez a internet seja apenas a estrela da vez no processo de criação, desenvolvimento e consolidação dos meios de comunicação. E o que - contraditoriamente - todo esse buzz sobre a vulnerabilidade da internet livre esteja contribuindo para que haja mais interesse na assimilação dessa plataforma, não às custas da liberdade, mas apenas para nos levar dialeticamente ao estágio seguinte desse processo evolutivo.

Mas cada um escuta o que quer.

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