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oralidade | Não Zero

oralidade

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Uma camera na cabeça e uma ideia na mão - é o espírito do concurso da @inter_gen

Adoro coisas com "a cara da internet". Coisas que aparecem feitas sob medida para acomodar como a gente tem inventado jeitos de ser e se expressar pela internet.

Esse concurso, por exemplo http://www.if.org.uk/filmcompetition, realizado pela Intergenerational Foundation (IF) e promovido pelo respeitado jornal inglês The Guardian.

Feito para pessoas entre 16 e 30 anos. O participante é convidado a gravar uma história. Qualquer história com até 3 minutos.

O que é tão brilhante em relação a isso:

1) Não distingue entre "video makers" e "nao video makers"; é para qualquer pessoa, considerando que a realizaçao pode ser simples, mas o conteúdo ser especial - e muitos serão.

2) tem um elemento de registro pessoal como o I Thought My Father Was God, que inspirou a criaçao do Viva São Paulo. A ideia de mostrar a beleza muitas vezes singela (outras nem um pouco) da vida comum.

3) o fato de que o resultado estará em um meio do caminho interessante entre exploraçao artistica (roteiro, realizaçao) e documento social; quantas possibilidades de a sociedade se reconhecer e conversar a partir das vozes que circularam via o concurso.

4) o fato de demandar apenas a mais simples infraestrutura de produçao que é uma camera de video (até de um celular) e um editor de imagens (tem grátis no YouTube).

5) esse projeto expressar esse potencial de retorno à oralidade que deu origem ao meu Naum Eh Tv. Neste caso a gente quase cai na tentaçao de dizer que "mais simples que isso seria fazer um concurso de redaçao" e de algum modo este é isso, mas tenho a sensaçao que aprender a escrever é mais difícil que aprender a fazer um vídeo nessas condiçoes.

Adoraria ver coisas assim acontecendo no Brasil, lugar tao receptivo ao video (6o maior mercado do YouTube) e que atravessa um momento de tantas mudanças. Será que alguma organizaçao forte no Brasil teria as manhas de dar um empurraozinho?

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História oral de vida: a técnica que eu aprendi com o professor Sebe nos anos 1990

um amigo me pediu para contar para ele sobre a técnica usada nos projetos de historia oral que eu participei junto com o professor José Carlos Sebe no departamento de historia da USP no começo dos anos 1990. Como isso pode interessar outras pessoas, compartilho-o a seguir. Quem tiver mais interesse no assunto pode ler o Guia Prático de História Oral.

eu nao participei de projetos de temática. a diferença é que as entrevistas tinham uma pauta / questionário sobre o assunto pesquisado. em projeto de HO de vida, as entrevistas nao tem roteiro definido. o entrevistado sabe o assunto do projeto e, ao longo da conversa, ele encaminha a sua narrativa nessa direçao. por exemplo, no livro sobre os kaiowaa, o assunto era o suicido dos adolescentes kaiowaa. os entrevistados sabiam disso e a entrevista seguia naturalmente para esse tema. a questão inicial feita ao entrevistado pede para a pessoa falar sobre suas primeiras lembranças, como era a casa em que vivia, etc. a partir daí, o entrevistados apenas ecoa aquilo que vai ouvindo.

ao longo da entrevista, o entrevistado menciona pessoas que tambem estao de alguma forma relacionadas ao assunto da pesquisa. essas pessoas vao constituindo a rede de informantes. essa é a rede de pessoas entrevistadas. se voce olhar o livro dos kaiowaa, vai ver que cada capitulo traz a historia de uma pessoa. esse grupo de entrevistados é o que estou chamando de rede.

outro ponto importante da técnica é a interferencia do pesquisador no trabalho. vou falar disso listando cada ponto:

1) o objetivo do entrevistador nao é revelar o que o entrevistado nao quer falar. nesse sentido, o processo é muito diferente do da entrevista jornalistica. o que o historiador quer é ter a versao da pessoa que conta, da maneira que essa pessoa quer que sua historia seja contada. voce nao confronta o entrevistado e nao tenta fazer com que ele fale alguma coisa que possa estar escondendo. tanto isso é importante que nada é publicado da entrevista da pessoa antes de ela ter lido (ou alguem lido a entrevista final para ela) e ela ter concordado. ela concorda oficialmente assinando um documento ou com uma gravaçao dela falando estar de acordo.

2) o historiador tem liberdade para interferir no texto. o processamento das entrevistas acontece em tres etapas: transcrição, textualizacao e transcriaçao. textualizacao é o trabalho de arrumar otexto: colocar as partes da historia contada em ordem, completar as frases deixadas pela metade, corrigir os problemas de linguagem. depois que isso está pronto, vem a transcriaçao, que é o momento em que o historiador acrescenta o que nao foi falado, mas foi dito no contexto da conversa e que ficou implicito. é um trabalho subjetivo, mas que é nao é ficçao porque a entrevista trabalhada deve ser aprovada pelo entrevistado antes de ser publicada.

3) o resultado do trabalho de historia oral permite que o leitor conheça o assunto que está sendo pesquisado pelo ponto de vista das diversas pessoas que constituiram a rede de informantes. as contradicoes aparecerao no confronto das historias.

4) a participacao do historiador no livro se encerra com a producao dos textos de abertura e encerramento. ele situa o leitor em relacao às motivacoes para fazer a pesquisa e tambem conta a historia da pesquisa - os problemas que enfrentou, as duvidas e como ele as resolveu.

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