Por que o Brasil é tão respeitado pelos gurus da internet? Conversa com José Murilo Junior

No Digital Age me chamou a atenção que Lessig e danah boyd tivessem falado tantas vezes e com tanta ênfase da importância do Brasil no cenário internacional em favor da defesa da cultura aberta, sem tantas restrições como as que são impostas pelas leis de direitos autorais hoje.

Aproveitei um papo via messenger com o José Murilo Junior - que é um dos evangelistas do governo federal nessa área, e que trabalha no MinC e acompanhou de perto o trabalho do Gil nesse âmbito, além de ter viajado muito trocando experiências pelo mundo - para perguntar até que ponto essa opinião sobre o Brasil era deslumbre e em que medida é uma percepção consistente.

A conversa foi rápida, mas elucidativa na medida em que me senti seguro de que o ex-ministro Gil sabia do que estava falando quando se referia à ética hacker, inclusive porque essa ética está intimamente relacionada ao projeto artístico de canibalismo cultural lançado pelos Modernistas e recuperado nos anos de 1960 pelos Tropicalistas.

Enfim, quem quiser, leia e tire suas conclusões.

JS - o exatamente o que estamos fazendo para merecer tanta admiração e elogios? qual é a nossa contriibuição?

JM - o lessig escuta muito o gil e o claudio prado. o conceito dos pontos de cultura é muito avançado. o gil, como ministro artista pregando a cultura livre no digital, é algo forte para os gringos.

JS - mas onde isso está sendo aplicado?

JM - sobre isso, indico meu post no open democracy: www.opendemocracy.net/article/gilberto-gill-open-minister

JS - o governo federal só usa open source?

JM - não é assim. mas existem alguns avanços interessantes. e o gil promoveu posições que refletiram em posições brasileiras diferenciadas, por exemplo, na ompi, a agenda do desenvolvimento na questão da propriedade intelectual.

JS - ao mesmo tempo, sinto que tem um certo deslumbre, que as coisas aqui são mais turvas e complicadas, que visto de dentro, o Brasil está, na verdade, muito atrás dos Estados Unidos, por exemplo.

JM - mas tem também uma tática do mainstream media brazuca em esconder as realizações do governo lula.

JS - escondendo os pontos de cultura, por exemplo?

JM - sim. e o ativismo da cultura digital que afronta o poder da mídia estabelecida.

JS - mas que se materializa em que e onde?

JM - pesquise sobre ancinav... aliás, está no post. a briga contra o drm na tv digital, a trombada no rolo compressor da lei azeredo. são posturas políticas dentro do governo. o forum de tvs públicas. são conceitos, que se traduzem em ações que fazem algum sentido.

JS - ultima pergunta: quem escreveu esse discurso do gil que vc citou? "I, Gilberto Gil, Brazilian citizen, world citizen and minister of culture of Brazil, develop my work in music, in the ministry and in all the dimensions of my existence under the inspiration of hacker ethics; I am concerned about the issues that my world and my time pose to me, such as the issue of the digital divide, of free software and also the issue of regulation and development of audiovisual content production and distribution, by any media, for any purpose".

JM - essa parte foi ele mesmo. foi no auge da crise da ancinav. ele tava muito puto. a versão no meu blog está sem cortes: http://eco-rama.net/2008/08/09/gilberto-gil-the-tropicalist-voice-for-an-open-digital-culture e tem um bonus da presença do lessig com o sergio amadeu e o gil no fsm... imperdivel.

JS - Mandei este texto pro Murilo ler, autorizar a publicação e editar o que ele quisesse. Ele não quis mexer mas mandou este pequeno adendo:

Em referência à sua questão que iniciou a nossa troca, dos motivos que levam o Lessig a valorizar tanto o papel do Brasil no movimento da cultura livre / digital, creio que está no fato dele vislumbrar na atuação do Gil no MinC uma ilustração da possibilidade da cultura como locus de um ativismo efetivo e transformador no âmbito da sociedade global conectada.

É verdade que o magnetismo do Gil como ministro / artista pode ter o efeito de insuflar as expectativas de gringos visionários em busca de confirmações para suas hipóteses exóticas, mas o fato é que Lessig e Cia. tiveram a oportunidade de observar a gestão Gil de uma perspectiva bem diferente da que foi apresentada aos telespectadores locais. O meu texto tenta mostrar esta perspectiva.




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