Agora sem as mãos: como um projeto que eu abandonei continua vivo, mais do que nunca

Criei o Viva São Paulo em 2003, na véspera da celebração dos 450 anos da cidade. A idéia era aproveitar a data redonda e o clima propício às recordações para fazer um projeto de história oral online onde a cidade conversasse consigo através das histórias de seus moradores. Graças à participação da rádio Eldorado, que transmitia uma história tirada do site por dia, a ação criou massa crítica e começou a andar sozinha. Passados seis anos, já não tenho mais nenhum envolvimento com o projeto mas a comunidade recusa-se a fechar o site. (Continue lendo.)

São Paulo mudou de cara muito rápido e parece que as pessoas, de uma hora para outra, deixaram de conviver entre si nas vizinhanças. Até meados do século passado, havia teias de relacionamento ajudando a cuidar das ruas e a partir desses espaços comuns, as crianças montavam suas turmas de bairro, as mães trocavam xícaras de farinha e amizade e, à noite, todos levavam cadeiras para as calçadas para conversar, mas hoje isso praticamente desapareceu nos bairros de classe média e o Viva São Paulo de certa forma ocupou essa lacuna, se tornou uma espécie de fórum para se debater a cidade a partir das lembranças e da comparação entre como era e como é.

Nos primeiros meses de 2004, como alguns participantes estavam se estranhando pelo convívio online, propus um encontro presencial, que aconteceu no restaurante do Patio do Colegio, marco da fundação da cidade. Não só o grau de animosidade entre os participantes caiu como formou-se um grupo que se manteve atuante desde então. Pessoas novas apareceram e se tornaram parte da turma, mas aquele grupo fundador se manteve unido e muitos deles estabeleceram vínculos pessoais.

Um case 2.0 antes do termo Web 2.0

Fora os primeiros meses, quando a Eldorado vendeu patrocínio para os boletins de rádio, o Viva São Paulo nunca deu dinheiro, mas me abriu muitas portas. Ele era o exemplo "vivo" do que era a tal produção colaborativa pela internet. Ele demonstrava que pessoas que não se conheciam podiam trabalhar juntas sem remuneração e fazer coisas de valor se houvesse o estímulo certo - na época, antes de YouTube e Wikipedia se popularizarem, isso soava como uma maluquice.

A internet reduzia o custo transacional, o trabalho de todos era equivalente ao de enviar um email e, ao fazer isso, elas ganhavam a possibilidade de seus textos serem transmitidos pela emissora e também podiam construir relacionamentos com pessoas com valores e histórias parecidos. Meu esforço se resumia a ler esse material, publicá-lo no site, escolher sete, editar para caber em um minuto e, uma vez por semana, ir ao estúdio e gravar. Publiquei uma avaliação mais detalhada do projeto na WebInsider em fevereiro de 2004 quando ele ainda se chamava SP450.

Decadência e renascimento

Com o tempo, o Viva São Paulo foi se tornando menos interessante para a Eldorado. Primeiro ele saiu da FM, depois saiu dos horários com maior audiência na AM, eu fui me desmotivando, outros projetos foram acontecendo até que, em meados do ano passado, quando o site completou cinco anos, decidi que era hora de parar de gravar os boletins. Nesse ponto, vários dos participantes mais envolvidos já estavam compartilhando comigo o trabalho de manter o site. Eles pagavam a hospedagem, editavam e publicavam as histórias (e as fotos de algumas histórias), além de apoiar a organização dos encontros mensais. Em função disso, eles continuaram tocando o site independente da minha participação.

Há alguns meses o site ultrapassou a marca de 8 mil textos publicados. É um belo acervo de textos originais e que, de fato, funciona voluntariamente. Eu não tenho mais envolvimento direto com o projeto.

Recentemente apareceu um novo participante querendo ser notado no site ofendendo os outros escritores. Em função disso, as duas pessoas mais envolvidas com a manutenção sinalizaram para o grupo que haviam decidido interromper seu trabalho o que levaria ao fechamento do site. Me comunicaram isso e eu concordei. Inclusive baixei todos os arquivos do site para presentear a quem quisesse com uma cópia do acervo. E, no entando, para a minha surpresa, a perspectiva de interromper o Viva São Paulo mobilizou a turma, organizaram uma reunião e outras pessoas se ofereceram para contribuir com o trabalho. Resultado: o projeto continua.

Definição de comunidade

Eu participei dessa reunião e me comprometi a repassar a propriedade do domínio e a hospedagem para eles. E fiquei sabendo de depoimentos dos que se manifestaram por email ao saberem da notícia do eminente fechamento do projeto. Não aceitavam essa solução por considerarem o site como parte de sua família afetiva. Para eles, acessar o vivasp.com faz parte da rotina de vida, é um lugar para ouvir e ser ouvido e para lembrar coletivamente.

Acho que esse talvez seja um dos maiores sintômas de que a comunidade online deu certo: quando ela se apodera da plataforma ao mesmo tempo em que compartilha o esforço de manutenção. Muitas pessoas que mal sabiam acessar a internet - por motivos óbvios o projeto interessa particularmente a pessoas com mais de 50 anos - estão, nesse momento, adquirindo o know-how para administrar um site. E mais, o fluxo de histórias publicadas se mantém constante, em função das conversas geradas pelas memórias publicadas.

Para mim, é uma espécie de filho que eu pus no mundo e que está andando sozinho e minha única pendência com o projeto é ainda não ter conseguido fazer um livro com as centenas de histórias originais e deliciosas publicadas lá. Projetos parecidos que surgiram depois já passaram na nossa frente no quesito publicação, como o Conte Sua História e o São Paulo Minha Cidade, mas ainda não perdi a esperança.